Choque com o futuro*

por Fraser Speirs, tradução de Halex Pereira

Terei mais a falar sobre o iPad posteriormente, mas não dá pra evitar o espanto de ver o volume e a veemência de pessoas aparentemente versadas em tecnologia atacando o iPad.

Alguns tentam descartar esses ataques comparando-os a certos comentários feitos após o lançamento do iPod em 2001: “Sem wireless. Menos espaço que um Nomad. Podre.” Temo que estes pensamentos de 26 de janeiro fujam ao escopo.

O que vocês estão vendo na reação da indústria ao iPad é nada mais que choque com o futuro.

Por anos, todos nos apegamos à crença de que a computação tinha que ser simplificada para o “indivíduo comum”. Acho difícil chegar a qualquer conclusão que não seja a de termos falhado completamente nesse propósito.

Secretamente, creio, nós tecnologistas até gostávamos das ideia de que Normais dependeriam da gente por conta do nosso xamanismo tecnológico: os encantamentos que somente nós podíamos executar para curar seus computadores, proclamações oraculares que fazíamos sobre o futuro e as bênçãos que lançávamos sobre as suas escolhas de compra.

Pergunte-se isto: em que outra área da vida pessoas adultas dependem dos outros para ajudá-las a comprar algo? Mulheres normalmente recorrem a homens para ajudar na compra de um carro, mas isso acontece por conta da misoginia chata de vendedores de automóveis, não porque as moças temem que o carro que elas escolherem não vai rodar nas pistas locais. (Desculpe a analogia carro/computador. Foi mal.)

Geralmente fico entristecido pelo efeito infantilizador da tecnologia de ponta sobre adultos. Em vez de estarem com o controle de seus mundos, eles são enviados para um universo infantil, medieval, no qual Gremlins aparecem para atormentá-los e somem quando querem, contra os quais apenas magia, feitiços e o bruxo curandeiro local podem oferecer alento.

Com a encarnação do iPhone OS encontrada no iPad, a Apple se propõe a fazer algo a respeito disso, e eu digo realmente fazer alguma coisa, em vez de simplesmente dizer que vai fazer algo, e o mundo está endoidando.

Não o mundo inteiro, porém. As pessoas cujas espinhas foram quebradas pela complexidade e fracassos tecnológicos imediatamente entendem o que está se passando aqui. Aqueles entre nós que pacientemente, dia após dia, explicam para uma criança ou colega que a razão para não haver Imprimir no menu Arquivo é porque, apesar de um documento do Pages estar enchendo a tela, o Finder é que está em primeiro plano e não tem nenhuma janela aberta, esses entendem o que está se passando.

Os visigodos estão nos portões da cidade. Eles demandam acesso ao software, eles querem estar no controle da própria experiência de informação. Eles podem não gostar da nossa arte e cultura, eles podem curtir mesmo aplicativos em OpenGL que sacodem seios e pode ser que eles nem sempre compartilhem do nosso senso de estética, mas eles são as pessoas que dissemos servir há 30 anos enquanto os ferrávamos de inúmeras formas. Eles também estão em número muito, muito maior que o nosso.

As pessoas falam sobre o campo de distorção da realidade de Steve Jobs, e eu não discordo de que o homem tem uma habilidade quase hipnótica de convencimento. Há outro campo de distorção da realidade em funcionamento, porém, e todo mundo que vive da indústria de tecnologia está dentro campo de atração dele. Esse CDR nos diz que computadores são incríveis, que eles funcionam bem e que só quem é estúpido demais pra viver não pode trabalhar com eles.

A indústria de tecnologia vai ter convulsões por conta do choque com o futuro ainda por algum tempo. Muitos vão se agarrar às suas noções de 26 de janeiro do que significa “trabalhar de verdade”; apegar-se à ideia de que a parte relacionada ao computador é o “trabalho de verdade”.

Não é. O Trabalho de Verdade não está em formatar margens, instalar o driver da impressora, carregar o documento, terminar os slides de PowerPoint, executar a atualização de software e reinstalar o SO.

Trabalho de Verdade é ensinar à criança, curar o doente, vender a casa, fazer o levantamento de problemas em uma estrada, consertar o carro no acostamento, receber os pedidos de uma mesa, desenhar a casa e organizar a festa.

Pense nos milhões de horas e de esforço humano gastos para prevenir e consertar os problemas causados por sistemas de computação completamente abertos. Pense até que ponto as pessoas chegaram para conseguir habilidades que são ortogonais a seus interesses centrais e a seu trabalho, só pra poderem dar conta de uma tarefa.

Se o iPad e seus sucessores libertarem essas pessoas para elas poderem se focar no que fazem de melhor, a percepção delas sobre computação vai mudar drasticamente de algo a temer para algo com que se engajar cheio de entusiasmo. Acho difícil de acreditar que a perda de processamento em plano de fundo não seja um preço que valha a pena pagar para termos um computador que não seja mais aterrador.

Enquanto isso, a Adobe e a Microsoft vão continuar a sapatear no chão e fazer birra.

· · ·

A tradução deste texto — leia o original: Future Shock — foi autorizada ao MacMagazine pelo seu autor, Fraser Speirs, desenvolvedor de softwares da Connected Flow — responsável, entre outros, pelos programas FlickrExport, Darkslide e Changes. Atualmente, ele também leciona Computação na Cedars School of Excellence.

(*) Future Shock é um livro de Alvin Toffler.

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