Mac Society: “iOS: Paixão vs. Código”

Em 2008, a primeira onda de desenvolvedores autônomos para o então recém-lançado sistema operacional iOS — presente em iPhones e iPods touch — veio de programadores experientes, inspirados pelas novas possibilidades da plataforma da Apple. Porém, o primeiro impacto gerado por este novo ambiente de desenvolvimento assustou muita gente.

Imagine que pela primeira vez se viram diante de um equipamento com possibilidades até então inexistentes e inimagináveis, até para os gurus mais visionários. Deve ter dado aquela sensação de “Nossa! Dá pra fazer milhares de coisas com isso!”, imaginando “o que” e “como”. Vi muitos programadores “sêniores” tomados da típica invencibilidade adolescente de poder dominar o mundo, mas com uma crise existencial terrível e sem saber nem por onde começar.

Desse pensamento, desse novo universo, pipocaram centenas de aplicativos na App Store com interfaces incompreensíveis, recursos escassos e confusos para funções reais mínimas. Afinal, boa parte dos programadores acostumados com linhas de códigos partiam da programação de funções para só então pensar no impacto da experiência do usuário e sua interface gráfica. Nasceram programas que parecem projetados para PCs da década passada, com botões espalhados pela tela, campos de preenchimento monótonos e quase nenhuma estética funcional. Hoje, a paleontologia de aplicativos do iOS ainda pode ser escavada na App Store. São exemplos “vivos” do que nunca fazer ao desenvolver um app. A importância desses dinossauros foi enorme, ao se levantarem e caminharem sobre a terra do novo mundo.

Não que tenha surgido um novo paradigma. Desde os primórdios dos estudos de design aplicados a sistemas (futuramente batizado de “design de interfaces”), surgiu a necessidade de aplicar estética às funcionalidades apresentadas ao usuário. Profissionais formados em linguagem de programação foram irresponsavelmente apelidados de “web designers” e se viram responsáveis por criar novas texturas, fontes, paletas de cores, desenhos artísticos, beleza estética sem nenhum preparo, técnica e, na maioria dos casos, talento. É como pedir que um técnico de som crie uma sinfonia. O mundo da tecnologia não percebia, mas já começara a surgir uma nova geração de desenvolvimento, hoje liderada com folga pela Apple.

A Microsoft foi a empresa responsável pela disseminação do primeiro e mais fundamental programa de computador: o DOS, no qual a estética se limitava a símbolos e traços grotescos. O Windows, evolução dele, foi exatamente a aplicação artística sobre o código frio. Aos programadores do DOS, devemos tudo que se criou desde então. “E por um tempo isso foi bom” (Animatrix – The Second Renassance).

Em outra garagem, surgia a Apple com o Macintosh. Seu fundador começava a aplicar conceitos artísticos como a caligrafia, que aprendera ao cursar como matéria opcional na faculdade: “Aquilo era bonito, histórico e artisticamente sutil de uma maneira que a ciência não poderia entender.” [Leia o discurso na íntegra] A visão da arte sobre o código, da estratégia acima do jogo, da humanidade acima da máquina, norteou os sonhos de Steve Jobs.

Hoje as Human Interfaces (HI) são, indiscutivelmente, motivo primordial de destaque das plataformas OS X e iOS, sua larga vantagem técnica e qualitativa, tendendo a zero a chamada “curva de aprendizado do usuário”. Atualmente o universo de programação vive um limbo funcional, que está determinando o novo caminho para formação de profissionais capacitados na construção de interfaces, afastando o programador de códigos frios do designer que assina o conceito artístico de uma obra, um novo aplicativo. Estamos vivendo o advento da Era de Aquarius para a tecnologia.

Esta situação é tão notória que ainda hoje a imensa maioria dos programadores que enxergam a inevitabilidade da próxima geração nem sequer sabem como adaptar seus currículos. São profissões tão distintas quanto possível.

Como se fosse pertinente comparar o trabalho do artista Jonathan “Jony” Ive, vice-presidente de design industrial da Apple, ao de um exímio matemático. É fácil compreender que a vice-presidência de software de Cupertino precisaria mesmo produzir alguns exemplos de aplicativos surpreendentes para demostrar os limites de seus sistemas operacionais (ou a ausência deles), abrindo uma dobra temporal no mercado de desenvolvimento de aplicativos em uma década. Precisaram provocar o mercado com recursos surpreendentes através de programas como Keynote, iMovie e principalmente GarageBand, que na minha opinião é o melhor exemplo disso até o momento. Nessa renovação de conceitos e interfaces surgiram produtos surpreendentes, que em muitos casos revelaram ao mundo programadores até então desconhecidos, autores de títulos como Angry Birds, Godfinger All-Stars, Writer, ProCreate, Flipboard e muitos, muitos outros.

Apple - Dia dos Namorados

Ah… o amor, a paixão, esse lindo sentimento que guardamos pra nosso Mac…
…quer dizer, pra você, minha linda namorada!

Para o mercado, o recado mais claro foi a inversão dos processos de desenvolvimento. Os esboços dos projetos que antes definiam a função da programação para então seguir para o que era chamada de “maquiagem final”, passaram a ser realizados a partir da intuitividade e do valor da experiência do usuário. Isso se deve ao fato de que a maioria dos aplicativos com funções populares detém concorrentes de peso proporcional. Os preços então são vistos hoje como fator secundário de decisão, que mal se distinguem entre si e dificilmente superam os US$10 — uma luta equilibrada que permite que a experiência de uso seja determinante, seja seu mais precioso fundamento, tornando a função produtiva do aplicativo quase uma commodity. Mesmo os aplicativos com funções inovadoras devem entender que ganharão concorrentes diretos em pouco tempo. É a satisfação na experiência do usuário que dirige sua compra.

A Apple se tornou sinônimo de seu maior diferencial (como nenhuma outra empresa foi capaz), sinônimo do seu maior valor: a paixão de seus usuários.

A interface é para um computador o que a fotografia é para a luz.

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