Mac Society: “As Novas Corporações”

No mercado corporativo algumas inovações podem se difundir rapidamente, outras podem demorar décadas, mesmo que demonstrem enorme eficiência. Às vezes são como organismos vivos: não dá para prever.

Vejamos este exemplo: as estações de trabalho no início da década de 1980 eram formadas de papel e uma máquina de escrever. Com o advento dos computadores, passaram a entulhar dez em cada dez mesas de trabalho, mesmo que não servissem para nada além de ler e responder emails ou imprimir formulários simples — ou seja, automação de uma máquina de escrever, só que com 3 volumes, 18 cabos, 1 mouse e 280w a mais.

O signo de um funcionário era o seu computador.

As mesas eram as mesmas, afinal estavam bem preparadas para receber esses objetos “tão essenciais”, despejando as modernas máquinas de escrever de 9kg no almoxarifado da empresa (para caso de necessidade). Assista a qualquer filme em que apareça um escritório na década de 1980 para entender por que Bill Gates ganhou um trocadinho.

Vou pular um pouco, mas já voltamos a esse assunto. No século XXI, a tendência de pulverização de colaboradores e grupos de trabalho se consolida, reduzindo a necessidade presencial e dispendiosa de estruturas monumentais em prol da cooperação virtual e da gestão avançada de projetos. Priorizar o resultado do trabalho em vez da presença física em elefantes brancos de aço e vidro espelhado virou tendência. A interação de equipes via texto, voz e vídeo é hoje uma realidade perfeitamente acessível — eu diria banal — para usuários de Mac. Muito além de Googles ou Facebooks, temos empreendimentos como Twitter, Linkedln, Zynga, Groupon, Pandora, OnLive e milhares de outros que estão muito além de centros corporativos.

Essa espantosa revolução permite interconexões de indivíduos que nunca se conhecerão pessoalmente, espalhados em em cinco continentes. Essas empresas são parte de um grupo notável de novas bilionárias que povoarão a Fortune 500 em nosso presente imaginado por Arthur C. Clarke (só não no espaço). Elas já nascem corporações virtuais. Essa revolução confirma a genialidade do que me atrevo a chamar de “estratégia colateral” da Apple. Computadores, ou melhor, tudo que ela produz colabora com um trabalho livre de escritórios, corta a relação entre produtividade e ambiente. Bons exemplos são jornalistas, que conhecem essa rotina há mais de um século, muitos correspondentes mal sabem o endereço de suas fontes pagadoras. Idem para representantes comerciais, professores, programadores, químicos, oceanógrafos, astrônomos, músicos e, mais atualmente, até mesmo médicos. Ou você ainda não sabe que pode receber um diagnóstico de um especialista na Tanzânia ou no Cazaquistão e nem mesmo perceber isso?

HAL 9000 - Montagem Apple

HAL-9000 de 2001 Uma Odisséia no Espaço, de Arthur. C Clarke.
E, antes que você diga, ele não era paranoico, os humanos é que deveriam ter ficado dormindo ou jogando xadrez.

Chamo de estratégia colateral porque pouco se fala sobre colocar um ou outro recurso num iGadget para que você trabalhe, produza à distância, mas o recurso está lá.

Sergey Brin, cofundador do Google, afirmou que somente 20% dos computadores da empresa rodam Windows. Não estou falando de Apple. Considere que o Google detém um sistema operacional próprio. Entre em quase qualquer empresa brasileira e veja que algo não se encaixa; você sentirá uma vontade profunda de usar o termo “Terceiro Mundo”. E ainda estou me limitando a comparar computadores e sistemas operacionais, sem incluir na equação que a substituição de notebooks por iPads e iPhones é pura realidade transformando-se em produtividade e eficiência.

A Apple conquistou boa parte de sua relevância tecnológica exatamente por permitir que o ambiente corporativo se dissolva, numa construção de tendência silenciosa — mas muito efetiva —, que preparou suas plataformas para se encaixarem em empresas de todos os portes, em todos os lugares, sob qualquer metodologia de trabalho. Uma migração maciça para Macs ainda é considerada pela maioria dos empresários um passo gigantesco e muito dispendioso. Porém algumas empresas com maior sede por inovação têm provado que o minimalismo técnico de Macs, servidores Mac mini, MacBooks, iPads, iPhones, Time Capsules, etc., são opções viáveis sob uma análise mais apurada e cuidadosa.

Uma avaliação criteriosa pode demonstrar que os custos de implantação de uma base Mac não são superiores ao de computadores Dell de configuração similar, rodando Windows 7 Professional ou Ultimate. Se essa equação adotar softwares, servidores e estruturas de rede você já encontrará números a favor da Apple. Mas é no médio e longo prazo que a conta impressiona. A confiabilidade da plataforma é capaz de, literalmente, substituir custos relacionados com manutenção e assistência de hardware, software e até mesmo preciosas horas de treinamento. Isso sem entrar no mérito de as plataformas OS X e iOS serem imunes a vírus, se excluirmos acessos de administradores inglórios. Por si só, apenas essa última característica já seria motivo suficiente para sua adoção, já que os custos com problemas gerados por códigos maliciosos drenam centenas de bilhões de dólares de empresas em todo o mundo.

Uma pesquisa com 2.500 companhias dos EUA demonstrou que Macs já são 11% dos seus 400 mil computadores conectados. Pare e pense: somente uma empresa detém 11% dessa base computacional. Outra pequena pesquisa da ZDNet já descreve mais de 460 empresas e instituições educacionais com uma massa de testes de 122 mil iPads.

Poucas décadas separam máquinas a vapor de motores a combustão interna. Entre as primeiras linhas de montagem da Ford em Daytona e sua adoção em larga escala em todo planeta, se passaram pouco mais de dez anos; o mesmo está ocorrendo nesta geração. Levante de sua cadeira e olhe ao redor em sua empresa e não verá diferença de um amontoado de workstations do final da década de 1980, exceto pela substituição dos monitores.

Como seria entrar em uma empresa que adotasse tecnologia realmente atual? Poucas mesas precisam de desktops poeirentos, somente aquelas com rotinas pesadas rodando fora de servidores, o que não é lá muito comum. As estações de trabalho são mais simples, poucos (paranoicos) ainda guardam caixas de canetas BIC na gaveta, há poucas impressoras, quase 100% dos documentos são trocados digitalmente. Notebooks são maioria, ainda por legado da era pré-tablets ou permanecem no armário (para o caso de necessidade), pois se você falar almoxarifado vão rir de você por não saberem do que você está falando.

Na nova empresa, notebooks são backups de iPads. Dois terços de seus colaboradores nunca entrarão na sua sala. Sua cadeia produtiva, seja lá do que for, permanecerá em boa parte incógnita para você, vindo direto de um país do outro lado do planeta, ou de uma indústria num município que você nem sabe onde fica, com produtos entregues diretamente nos pontos de venda ou nas mãos do cliente final. As áreas de descanso são três vezes maiores do que há cinco anos, a máquina de café hoje serve café com ou sem creme, cappuccino, chocolate meio amargo, ao leite, 12 tipos de chá com 3 tipos de açúcar em 7 temperaturas diferentes.

Salas de reunião são as maiores e melhores salas do edifício, seus diretores sentam em cadeiras iguais às de seus estagiários. E os funcionários dessa empresa percebem, mas evitam comentar, que quando estão doentes, de cama e trabalham de pijama em casa produzem melhor que no escritório, ao lado daquela colega que não sabe a diferença entre perfume e sabonete. Essa nova empresa é ainda um pequeno avanço do que Nancy Cartwright, Ernan McMullin e Leszek Nowak, pioneiros do minimalismo, visionaram no início da década de 1980, sob uma aplicação corporativa [PDF]. E se empresas ainda tocam iPads como macacos tocam em um monolito, imagine o que veremos em 50 anos. O que estamos presenciando, caros leitores, mal podemos chamar de princípio.

A tecnologia existe para desaparecer diante de nossos olhos, para devolver ao mundo a humanidade que ainda teimamos em chamar de modernidade.

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