Entre a Siri, da Apple, e o Voice Actions, do Google, tem o Wilson

por Marcio Cyrillo

Eu estava no Googleplex, na Califórnia, no dia em que Steve Jobs faleceu e nunca vou me esquecer da comoção que vi tomar o Vale do Silício naquele dia. Também não irei esquecer a homenagem que o Google prestou ao Jobs, linkando sua home ao Apple.com, que foi uma baita demonstração de respeito. Na manhã daquele dia, no entanto, uma outra coisa havia me incomodado: um vice-presidente de vendas do Google fez o seguinte comentário: “A Apple diz ter introduzido uma tecnologia revolucionária de reconhecimento de voz ontem, algo que a gente colocou no Android há mais de um ano” e fez cara de deboche. Claro que eu não esperava ninguém se pronunciar a respeito, todos ali eram parceiros do Google, mas fiquei com aquela sensação de que o cara tinha falado besteira.

Siri

Depois de ter comparado minha experiência com ambas as soluções, Siri no iPhone 4S e Google Voice Actions em um Galaxy S II com Android, posso dizer sem medo de errar que o cara estava redondamente enganado. A Apple realmente lançou algo que tem chance de ser revolucionário e se posicionou de forma totalmente diferente dos sistemas atuais de comando inteligente por voz em smartphones. Se a comparação for apenas no nível de funcionalidade, talvez alguns argumentos possam surgir dizendo que são muito semelhantes, mas do ponto de vista da experiência do usuário e implicações para o futuro estamos falando de comparar água e vinho.

A Apple mais uma vez não inventou nada novo, do zero. Este é o caso de todos os produtos que ela lançou no mercado até hoje. Em 1984, com o Macintosh, a ideia do computador pessoal a preço acessível que imitava a vida real, com o conceito de mesa de trabalho, foi uma junção bem-feita de coisas que já existiam em outros sistemas mais sofisticados: mouse, interface gráfica, janelas e ícones. Antes disso, o mundo da computação pessoal era o da linha de comando no DOS. Eu me lembro da emoção que foi quando descobri sozinho que ao arrastar um arquivo para a lixeira, ele era apagado.

A Siri não traz nenhuma tecnologia nova, mas a forma como a Apple conseguiu finalmente juntar reconhecimento de fala e inteligência artificial em uma experiência excepcional para o usuário do iPhone é exatamente como deveria ser. Para quem não sabe, Siri era um aplicativo disponível na App Store e fazia coisas semelhantes. Como era bem menos flexível, não era integrado ao iOS e, principalmente, tinha uma interface bem pobre, não foi para a frente. Mas a Apple teve a visão de comprar a empresa responsável por esse app e torná-lo parte integrante do iOS 5 no iPhone 4S. No futuro, muita gente vai achar que a Apple criou a Siri — assim como acham que a Adobe criou o Flash Player.

Mas então, por que a Siri é tão diferente do Google Voice Actions que está no Android? Dê uma olhada nos vídeos abaixo e você vai sentir bem a diferença.

Android

iOS

Mais uma vez, a Apple fez da maneira correta, colocando o ser humano e suas expectativas no centro da experiência. Você se lembra do filme Náufrago, em que Chuck Noland (Tom Hanks) e sua bola de vôlei nos lembraram de maneira dramática do quão visceral é a necessidade do ser humano de se comunicar? A Siri traz um componente de “Wilson” para nossas vidas: a Apple explorou essa necessidade, humanizando o que o Google apenas implementou tecnicamente.

Wilson, a bola de vôlei de Náufrago

“Em que posso ajudar?”

O lançamento do Google Voice Actions há cerca de um ano deve ter conquistado um bom número de adeptos, mas veja que o engenheiro do Google fala “Rapaz, é bastante coisa para lembrar…” Se eu preciso decorar uma porção de coisas, eu eventualmente esqueço e uma hora eu paro de usar. A Apple criou com a Siri um assistente pessoal, um personagem com quem eu posso interagir. No vídeo da Apple veem-se casos reais e o uso de linguagem natural, dando a impressão de que não há limites para o que se pode perguntar. É uma imensa diferença.

Vamos olhar de perto um exemplo que ilustra muito bem isso: perguntar sobre a previsão do tempo em Nova York para amanhã. No Android, você diria algo como “Weather New York tomorrow”. Note que basicamente é como se fosse uma busca no Google. A resposta vai ser abrir o app Weather com a previsão meteorológica de Nova York, nada de uma resposta via voz.

No iPhone 4S, via Siri, você pode formular a pergunta de diversas maneiras, como “What’s the weather going to look like tomorrow in New York?” ou “Is it going to rain tomorrow in New York?” A resposta vai ser ligeiramente diferente em ambos os casos, mas virá em formato de fala e telas, interpretando o que você perguntou. A resposta para “Vai chover amanhã em Nova Iorque?” pode ser algo como “Você não vai precisar de guarda-chuva.”

Como a Siri está na nuvem, ela vai poder ouvir a milhões de perguntas de pessoas em todos os cantos do mundo. Muitas das perguntas feitas em linguagem natural – que não serão entendidas inicialmente – ajudarão a Apple a compilar as necessidades e desejos dos usuários e, com isso, permitir a evolução da plataforma.

Há ainda muitas possibilidades não exploradas para a Siri, como por exemplo ela ajudar a fazer buscas avançadas no Google. Você pergunta em linguagem natural e ela faz a busca no Google (ou outra ferramenta de busca) de forma avançada (aqueles detalhes que poucos usuários conhecem, mas que aumentam as chances de você encontrar o que quer). Um exemplo seria “Encontre dados sobre a população hispânica no site Census.gov” que corresponde a você fazer a busca no Google por hispanic population site:www.census.gov.

Há bons motivos para imaginar que futuras versões da Siri estejam presentes também no iPad e em Macs. Nos computadores, ela poderia ajudar a procurar emails e arquivos, entendendo exatamente o que você quer. “Mostre-me fotos em que estou com minha esposa na viagem para o Havaí no ano passado.” E lá vem o iPhoto, usando o Places e o Faces para encontrar e exibir essas fotos. Arrisco dizer que a tecnologia por trás da Siri vai mudar dramaticamente como enxergarmos os computadores (e telefones) em alguns anos.

Eu estava na WWDC deste ano e lembro muito bem quando Steve Jobs disse “Sabe, se o hardware é o cérebro e a estrutura de nossos produtos, o software é a alma deles.” Eles fizeram da Siri a alma do iPhone e provavelmente as pessoas vão esquecer o que era viver sem ela muito em breve. Essa mesma alma poderá estar dentro de muitos outros produtos.

Quanto ao Google, resta se inspirar no Wilson e se mexer!

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