Mais da biografia de Steve Jobs, desta vez sobre sua relação conturbada com o mercado editorial

Já falamos sobre algumas passagens da biografia de Steve Jobs escrita por Walter Isaacson [1, 2, 3, 4], mas, com o passar do tempo, mais e mais detalhes aparecem. Desta vez, o assunto é o mercado editorial e Rupert Murdoch.

Capa da biografia autorizada de Steve Jobs

Isaacson relata diversas cenas nos bastidores do pós-lançamento do iPad, em 2010. Não é novidade que Jobs era a favor de qualidade no jornalismo. Para ele o mundo não poderia ser pautado por blogs, sendo mais do que necessárias reportagens de verdade e supervisão editorial. Por isso, Steve adoraria encontrar uma maneira de ajudar as pessoas a criar produtos digitais com os quais pudessem lucrar — e parece que ele conseguiu.

O ex-CEO da Apple teria jantado com os 50 maiores profissionais da Times a fim de mostrar o iPad, e teria dito “Encontrem um preço modesto para seus conteúdos digitais que consumidores aceitem.” De acordo com o autor, os executivos sabiam quantos leitores pagariam o preço mais alto (assinatura impressa) e quantos iriam ler gratuitamente, online.

Vocês deveriam buscar o ponto médio, que é cerca de 10 milhões de assinantes digitais. E isso significa que suas assinaturas digitais devem ser bem baratas e simples, um clique e US$5 por mês, no máximo.

Parece que a recomendação entrou por um ouvido e saiu pelo outro: os executivos decidiram cobrar US$15 por mês pelo acesso via smartphone e US$20 por mês, via iPad.

Steve Jobs estava decidido em ajudar o New York Times, pois o veículo ainda estava na dúvida sobre como cobrar por seu conteúdo digital.

Um dos meus projetos pessoais neste ano, eu decidi, será tentar ajudar — independentemente da vontade deles — o Times. Eu acho que é importante para o país e para eles, resolver essa questão.

Rupert Murdoch

Ainda de acordo com o autor, toda aquela confusão gerada pelas informações dos clientes (e de seus cartões de crédito) serem ou não compartilhadas com as editoras gerou frustração entre os executivos, principalmente em Jeff Bewkes, CEO da Time Warner. Rupert Murdoch sabia que Jobs não cederia — nem Murdoch, de acordo com Isaacson.

Falando especificamente do The Daily, Jobs teria odiado o design do periódico, pedindo então a profissionais da Apple que trabalhassem nele. Paralelamente, a News Corp. também estava desenvolvendo/melhorando a interface do app, e, de acordo com Murdoch, dez dias depois as duas versões foram mostradas a Steve, que acabou preferindo o design criado pela News Corp., o que surpreendeu todo mundo.

The Daily no iPad

O trabalho em cima do The Daily estreitou os lanços entre Jobs e Murdoch, tendo sido este convidado a jantar na casa do ex-CEO da Maçã em duas ocasiões. De acordo com Isaacson, Jobs brincou ao dizer que teria que esconder as facas de mesa, pois tinha medo que sua esposa liberal cometesse alguma loucura enquanto o conservador Murdoch estivesse na casa.

Rupert convidou Steve para falar em um evento de gestão da News Corp., no qual James Murdoch entrevistou o ex-CEO da Apple por cerca de duas horas, isso em junho de 2010. Jobs foi muito franco e crítico sobre o que os jornais estavam fazendo com a tecnologia. Ele disse que seria complicado fazer as coisas direito, uma vez que todos estavam em Nova York, e, em se tratando de tecnologia, todas as pessoas mais capacitadas estavam no Vale do Silício, na Califórnia — literalmente na outra ponta do país. Depois disso, Gordon McLeod, chefe da Wall Street Journal Digital Network, disse a Jobs “Você provavelmente me custou meu trabalho.” Isaacson conta que Murdoch riu um pouco, confirmando que foi exatamente isso o que aconteceu.

Ainda sobre o evento, Jobs teria pressionado Murdoch sobre o assunto Fox News, argumentando que a rede é destrutiva para a nação e prejudicial para a reputação do CEO da News Corp.

Você está ferrando tudo com a Fox News. O eixo de hoje não é liberal-conservador, o eixo é construtivo-destrutivo, e você se lançou com as pessoas destrutivas. A Fox tornou-se uma força incrivelmente destrutiva em nossa sociedade. Você pode ser melhor, mas este vai ser o seu legado, se você não tiver cuidado.

Jobs disse ter pensado que Murdoch não gostava realmente de quão longe a Fox tinha ido. “Rupert é um construtor, eu tive algumas reuniões com James e acho que ele concorda comigo”, afirmou o ex-CEO da Apple. Murdoch disse mais tarde estar acostumado a pessoas como Jobs reclamando da Fox. “Ele tem uma espécie de visão de esquerda sobre isso”, disse.

Voltando um pouco no tempo, em 2008, após o lançamento do iPhone 3G, as pessoas começaram a questionar novamente a saúde de Steve e Joe Nocera, do New York Times, escreveu uma coluna criticando a cultura de sigilo na Maçã a respeito desse assunto. O ex-CEO da Apple ligou para o jornalista, começando a conversa da seguinte forma: “Aqui é Steve Jobs. Você acha que eu sou um idiota arrogante que pensa estar acima da lei, e eu acho que você é um balde de lama que entende todos os fatos errados.”

Depois dessa introdução açucarada, Jobs ofereceu algumas informações sobre sua saúde, mas somente se Nocera mantivesse sigilo sobre o assunto. O jornalista honrou o pedido, porém, informando que, apesar de os problemas de Jobs não serem algo simples, ele não estava correndo risco de vida e que não era algo ligado a uma possível volta do câncer. Jobs havia passado para Nocera mais informações do que ele estava disposto a dar ao conselho administrativo ou aos acionistas da Apple, ainda que não fosse a história toda.

Já em 2010, a Apple se viu sob fogo por rejeitar um aplicativo criado por Mark Fiore (ganhador do Pulitzer de 2010, por quadrinhos editoriais) por causa de uma difamação contra o presidente George Bush. Preocupado com as comparações com o Big Brother, Jobs chamou Thomas Friedman, colunista do New York Times, para discutir “como traçar limites sem parecer um censor”. Jobs pediu a Friedman para chefiar um grupo consultivo com a finalidade de traçar tais diretrizes, mas o veículo disse que haveria conflito de interesses e, assim, a tal comissão não foi formada.

Enfim, estes foram apenas mais alguns aperitivos da biografia de Steve Jobs escrita por Walter Isaacson — livro que promete ser o mais vendido do ano na Amazon.com e, como bem dá pra ver, por vários bons motivos. Cada capítulo tem uma história melhor que a outra. 🙂

[via Poynter]

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