O primeiro iPhone a gente nunca esquece

Senta que lá vem história…

Em junho de 2007 eu estava em San Francisco, na primeira WWDC (a Worldwide Developers Conference, conferência de desenvolvedores da Apple) que o iPhone foi apresentado. Steve Jobs no palco. Eu na plateia, depois de esperar na fila desde as cinco da manhã.

Na verdade, Jobs apresentou o iPhone ao público em janeiro, na extinta Macworld Expo. Mas era só um protótipo. Foi em junho que o smartphone foi realmente lançado para a comunidade de desenvolvedores.

Na época não era possível programar para o iPhone. Ele vinha só com os aplicativos nativos, arquitetura fechada. Eu escrevia (e vendia) um aplicativozinho de Mac idiota, em Objective-C, para jogadores de golfe. Achei que seria o máximo se meus “clientes” tivessem um aplicativo de iPhone para usar no campo de golfe. Mas não havia como programar, já que não existia nem mesmo um SDK1, linguagem de programação, parâmetros, etc. Pior! Não havia nem como entrar no iPhone para ver do que era feito seu software (o que mais tarde ficou conhecido como “jailbreak”).

Quando a gente saiu da apresentação, o assunto entre aquele monte de desenvolvedores era como “desbloquear” o telefone. Primeiro para “quebrar” o software, depois para conseguir usar o telefone com qualquer operadora, não apenas a Cingular AT&T — só a Apple parecia não ter entendido o potencial do novo hardware.

Um grupo de desenvolvedores se formou, capitaneado por um garoto de 17 anos cujo codinome era Geohot. Um outro brasileiro e eu participamos de todo o trabalho de Geohot e dos outros “hackers”. Não ativamente, porque não tínhamos o mínimo conhecimento técnico necessário, mas correndo atrás das informações que eles precisavam em intermináveis chats por IRC. Manuais de processadores em PDF, esquemas de outros celulares, etc. Ajudávamos também a levantar dinheiro via doações, para que o Geohot pudesse comprar iPhones e testar as ideias do grupo.

Em agosto de 2007, Geohot conseguiu entrar e desbloquear o primeiro iPhone. O meu foi o nono no mundo a ser desbloqueado. Na época, o Estadão fez uma matéria com o “hacker” brasileiro que participou dessa iniciativa (spoonet). Muito prazer.

Por mais ridículo que tudo isso pareça para você, para nós, que estávamos obcecados com aquilo, foi uma conquista incrível. Esse grupo, rebatizado de iPhone Dev-Team, desenvolveu um SDK para o desenvolvimento de apps independentes. Existem até hoje.

Geohot foi contratado por diversas empresas. Nunca mais falei com ele.

Assistindo ao vídeo da última WWDC, na qual a Apple reconhece que não esperava o sucesso que o iPhone teve junto à comunidade de desenvolvedores, não posso deixar de sentir uma pontinha de orgulho por ter ajudado — de uma maneira torta e distante — a escrever 0,0000000000000001 bilionésimo dessa história.

O tal iPhone ainda está aqui, guardado, amassado como essas memórias. Mas ainda funcionando.

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