Os cinco anos de Tim Cook à frente da Apple: erros, acertos e perspectivas

Pasmem: estamos chegando hoje ao quinto aniversário da fatídica data em que Steve Jobs deixou derradeiramente o cargo de CEO da Apple e seu amigo e pupilo Tim Cook assumiu de vez as rédeas da empresa.

Citando meu chefe Rafael Fischmann:

Jobs apenas anunciou a renúncia de um cargo que requer muito trabalho e que ele não está disposto ou não pode tocar atualmente. Ele não deixou a empresa e, felizmente, também não morreu. […] Por isso, mesmo hipotetizando que Jobs cortasse hoje todo o seu relacionamento com a empresa, não seria exagero afirmar que “seu dedo” estaria em praticamente tudo o que ela fizesse por pelo menos cinco anos à frente.

Pois bem. As time goes by, “o dedo” de Steve certamente ainda está presente na Apple, mas a empresa inegavelmente mudou bastante nestes últimos 1.827 dias. Há quem defenda com unhas e dentes a “nova” Maçã administrada por Cook; há quem critique fortemente os rumos escolhidos pelo novo CEO; há ainda quem defenda que o espírito da empresa não mudou fundamentalmente e a Apple ainda é a mesma empresa dos sonhos dos áureos tempos da década de 2000.

Entrar numa discussão destas é como se jogar na bolsa de Mary Poppins, mas o fato é que os números estão aí para dar uma visão mais concreta da performance de Cook no comando da gigante de Cupertino. Hoje, como marco deste aniversário de cinco anos, vários veículos da área de tecnologia e economia publicaram suas análises sobre a gestão de Cook à frente da Maçã, e a seguir veremos alguns dos destaques — positivos e negativos — neste sentido.

Um dos apanhados mais interessantes dos primeiros cinco anos de Cook dirigindo a Apple vêm do jornal inglês Telegraph, que nos lembra de todos os recordes batidos pelo CEO desde que ele assumiu a empresa. De agosto de 2011 para cá, a Apple se tornou a maior empresa de capital aberto do mundo, e por duas vezes bateu o recorde histórico de lucro trimestral.

O Financial Times aponta [matéria exclusiva para assinantes] que o caixa da Apple quase dobrou, crescendo de US$121 bilhões na época da sua nomeação para US$232 bilhões hoje. Numa comparação trimestre a trimestre, apenas o último viu esse dinheiro em caixa cair ligeiramente — em todos os outros, o número apenas subiu. O jornal afirma também que Cook e sua equipe equilibraram isso com um número cada vez maior de compra de ações e pagamento de dividendos, como mostra o gráfico abaixo:

Lucros da Apple nos últimos cinco anos

O FT aponta ainda que a Apple praticamente dobrou o número de empregados nos últimos cinco anos, com foco especial na área de Pesquisa & Desenvolvimento (P&D) — o que, por outro lado, torna mais difícil manter a característica aura secreta que a companhia tenta guardar os seus projetos até que eles sejam anunciados.

A Fortune fez uma compilação dos principais destaques da administração de Cook até o momento, começando com os pontos negativos; nomeadamente, o Apple Maps (nos seus anos iniciais, ao menos), a recepção morna ao iPhone 5c, as críticas ao Apple Music e a recente queda de vendas do iPhone, o principal produto da empresa, foram citados como deslizes da gestão — mesmo que Cook afirme que o smartphone ainda vende muito, muito bem e não seja motivo de preocupação.

Apesar disso, a publicação afirma que, financeiramente, a Apple de Cook é um sucesso retumbante. Um dos grandes acertos do CEO, segundo eles, é o foco explícito nos serviços, com o lucro proveniente deles crescendo consideravelmente ano a ano na empresa.

Nesse sentido, o analista do Asymco, Horace Dediu, afirma que a Apple não é mais “uma empresa de eletrônicos baseada em hits, que poderia ir no mesmo caminho da Nokia ou da BlackBerry” — a Maçã é, na verdade, uma marca de luxo com receitas recorrentes de uma base cada vez maior de consumidores leais.

A CNN Money publicou uma reportagem em vídeo muito interessante analisando financeiramente os últimos cinco anos da Apple, bem como frisando as ações sociais e disputas políticas enfrentadas pela Maçã no período — inegavelmente, Cupertino está muito mais engajado em questões mundiais na era Cook do que era com Jobs.

O USA Today também tenta incorporar uma análise mais qualitativa, afirmando:

A Apple da era de Jobs — rebelde, inovadora e muito cool — é agora um lugar diferente. Com Cook, ela é maior, mais lucrativa, mais cuidadosa e mais tendente a atualizar minimamente produtos estabelecidos do que apresentar novos hits culturais.

A publicação fala ainda de como o estilo mais “pé-no-chão” e realista de Cook pode ter ajudado a Apple a se tornar uma empresa mais acessível, mais “amistosa” aos olhos dos consumidores.

Enquanto Jobs era focado no produto, produto, produto, Cook tem se baseado mais em questões — trazendo à tona a discussão dos direitos LGBTQ+ e conquistando o apoio de vários nomes da tecnologia em sua luta contra o governo pela criptografia.

O que todo mundo concorda, entretanto, é no principal ponto negativo da gestão Cook: a Apple perdeu uma certa faísca, a verve pela inovação se aquietou. Nestes últimos cinco anos, nenhuma nova revolução foi apresentada pela empresa como foram o Mac ou o iPod ou o iPhone — a coisa mais próxima disso, o Apple Watch, ainda sofre uma série de críticas e nem de longe atingiu o nível de influência dos seus antepassados.

Esta aparente queda também atingiu, ainda que não mortalmente, as ações da Maçã: de abril de 2015 até agora, elas perderam quase um quinto do seu valor de mercado.

O USA Today afirma que, mesmo com alguns sucessos pontuais, como o Apple Pay, a Apple terá que correr atrás de concorrentes que estão com a inovação na ponta da língua, como o Google, o Facebook e a Amazon — empresas focadas em tecnologias do futuro, como realidade virtual, câmeras 360º e carros auto-guiados.

Obviamente, tudo nos leva a crer que o período de Cook na Apple está só começando e, portanto, ele ainda terá muito tempo para aplicar mais mudanças na filosofia da Maçã e, quem sabe, torná-la novamente a empresa mais inovadora do planeta. Do seu próprio jeito, é claro.

Motivação para isso, certamente, não falta: com o aniversário de cinco anos como CEO, a Apple cedeu a Cook 980.000 de suas ações — o que, com base no valor de US$108,85 em que elas se encontram hoje, significam o total módico de US$106,7 milhões na conta do empresário. Com isso, certamente ele conquistará o nº1 do ranking de CEOs mais bem pagos do mundo em 2016 — lista da qual ele nem chegou perto no ano passado.

E vamos que vamos, Tim. 🙂

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