All new: uma história de saudades

Nota: há dois anos, me despedia da equipe MacMagazine para embarcar na jornada de trabalhar na Apple. Completei esses dois anos junto à companhia me despedindo, e em busca de novos desafios. Acompanhado deles, volto ao lar que tanto senti falta. Fico feliz e empolgado de voltar em um ano que será tão movimentado, quando o queridinho de Cupertino completará dez primaveras!

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Em todo lançamento, pré-lançamento ou, ainda, na própria época de rumores, tem se tornado comum a percepção de que o “all-new design” da Apple tem se perdido. E não é para menos. Não estamos aqui para entrar no mérito de que se perdeu a magia ou o poder de inovar. Francamente, acho que nesses quesitos a promessa implícita da companhia ainda atende às expectativas, mas não diria o mesmo sobre a beleza dos produtos.

Começarei pelo exemplo do iPad. A última grande mudança de design que tivemos foi em 2014, quando foi introduzido o iPad Air. Que, por sinal, era uma versão maior do iPad mini, o qual já era uma versão estendida do iPod touch de quinta geração. Antes disso, quatro anos antes, víamos nascer o design no iPad 2.

Cantos arredondados, traseira de alumínio pálido, frente de vidro preta ou branca, com um botão e uma câmera. Esse design se perpetuou de 2011, ainda apresentado por Steve Jobs, até outubro de 2013. Vendo assim não parece tanto, certo? Não. Como disse, o desenho dele fora apenas adaptado de um produto de 2012, como já dito — o iPod touch. Desenho esse, vale lembrar, que é exatamente o mesmo até hoje, quase cinco anos depois.

Sendo assim, podemos dizer que houve três desenhos para os iPads: o original, falecido em apenas um ano; o da segunda geração, que durou por quase três anos; e o terceiro, reaproveitado e usado até os dias atuais. Sete anos para dois desenhos inéditos e um adaptado, triste.

Nova linha de iMacsTrocando de família, entramos nos Macs. Começando pelos de mesa, sendo muito generoso, podemos dizer que o iMac teve *uma* atualização estética em quase dez(!) anos. É claro que em 2012 ele se tornou muitíssimo mais fino, e é por isso que ainda conto como única atualização desde que, em 2007, o iMac ganhou o seu corpo de alumínio e vidro.

No caso dos demais Macs de mesa, a situação é tão caótica quanto: o Mac mini ganhou uma estrutura de alumínio unibody em 2009; em 2010 perdeu o famigerado drive de CD/DVD; depois disso… meh — sem entrarmos no mérito de que ele não ganha sequer uma atualização de processador desde outubro de 2014, mas isso não vem ao caso. Por falar em Macs esquecidos no parque do olímpio, o Mac Pro está na gaveta da Maçã desde 2013, quando ganhou a sua primeira revisão estética nos seus 11 anos de vida.

Nova torre Mac Pro vista de lado e de baixoSim, o design “lixeirinha”, precursor do jet black, é a primeira renovação estética do Mac Pro desde seu lançamento em 2006. Há três anos, assim como o seu colega de estante, ele está lá parado, na gaveta da Apple.

Chegando aos MacBooks, a situação é um tanto menos grave. Vamos ao Pro: quem não lembra, em outubro de 2008, de Jony Ive ao vivo e a cores em uma keynote, ao lado de Jobs e Tim Cook, apresentando o primeiro MacBook Pro unibody? Lembro-me do quanto aquilo era revolucionário. Uma peça única, sólida, de alumínio. Sem emendas. What a day! Após isso, durante nove anos, vemos apenas essa obra-prima se tornando mais fina. Mas isso não é de todo ruim.

Há quem diga que discorda da política da Apple do “thinner as we can”, isto é, “o mais fino que conseguirmos”. Eu não, eu gosto. Pode parecer um detalhe cosmético pequeno à maioria, mas é algo que chama mais a atenção, você percebendo ou não. É como um orçamento favorável da sua empresa: você gosta dele, ele lhe rende bons resultados e você gasta o mínimo necessário. Imagine se você consegue o mesmo grau de satisfação, com os mesmos resultados, gastando ainda menos? É exatamente essa a filosofia, só que menos sensitiva. Você sabe o quanto o produto é bom quando percebe que ele está avançando, ficando cada vez melhor, mais poderoso e eficaz, e ainda assim se tornando menor (espessura e volume). A sensação natural que temos é de que algo mais inovador do que realmente é.

Quem tem o iPad 2 e migrou para o primeiro iPad com tela Retina, que teve a sua espessura aumentada por conta da nova tela, com certeza teve uma sentimento de regresso. Não existe isso de “eu preferia que ele fosse mais espesso e tivesse mais bateria ou mais processador”; racionalmente podemos até pensar isso, mas as sensações involuntárias ainda são mais fortes, mesmo que não percebamos.

Com isso chegamos às duas revisões de design pós-unibody: a primeira em 2012, com o chamado “MacBook Pro com tela Retina”, o qual além da troca das I/O, o computador se tornou 20% mais fino. Em 2016, 16-18% mais fino — e trocaram além das I/O a teclas de função pela Touch Bar, chamando-se “MacBook Pro com Touch Bar e Touch ID”. Como ex-dono do modelo unibody 2012 e atual dono do modelo 2016, digo que essas alterações pós-unibody são raramente perceptíveis para olhos inocentes: meu marido ou minha mãe, que pouco ligam, nem perceberiam que troquei de computador se eu não tivesse lhes dito.

Ainda que eu ache o novo MacBook o melhor notebook que já usei, falta ainda aquela mágica da época que revolucionaram o design com a carcaça unibody. Reforço o que disse algumas vezes no texto: não estou criticando — nem poderia — as novidades dos produtos, ou do MacBook Pro em si: são incríveis. A Touch Bar superou as minhas expectativas — minha transição para o mundo USB-C tem sido suave —, mas repito: falta a mágica do “meu Deus, que lindo!”

No caso dos MacBooks Air e MacBooks, a história é similar. Lançado em 2007, o Air teve a sua revisão em 2010 (há sete anos) e, após isso, em um jogo de escala, a Apple lançou o MacBook — que pegava exatamente a essência do Air, numa escala 1,3 polegada menor, e com o mínimo de I/Os (lê-se uma USB-C e saída para fones de ouvido).

Num apanhado geral, temos o placar de 2010 até agora: com exceção do Mac Pro, todos os demais cinco integrantes da linha não tiveram uma atualização de design que deixasse-nos fazendo aquele “Uau”. Difícil não lamentar.

Finalmente chegamos a ele: o famigerado, o mais amado e odiado, a galinha dos ovos de ouro, o iPhone. Curioso que, desde o lançamento do iPhone 6 (em 2014), tenho a impressão de que os passos são dados não por degraus, mas por centímetros. Vemos isso primeiramente pelos comentários da época dos rumores e pelo boom do lançamento.

iPhone original e iPhone 7 lado a lado

Do 6, fomos para o 6s: ok. Do 6s para o 7, tivemos incríveis mudanças de usabilidade no aparelho: o fato de ele ser realmente resistente à água, sem aquelas proteções de silicone ou sem preocupações, justificou o meu upgrade. Mas e o design? Novamente, meh.

Ive conseguiu cortar duas linhas das antenas e simplificá-las, deixando com que as nossas constantes “selfies de espelho” não mostrem aquelas linhas tenebrosas. Mas foi só isso. A câmera integrada à estrutura e o botão estático são ajustes que novamente não tiram o nosso fôlego ao usá-lo ou vê-lo pela primeira vez. Voltando a 2014, lembro quando usei o iPhone 6 pela primeira vez. Aquela peça única, em que o vidro e o alumínio se fundiam em uma peça abaloada perfeita, sem quinas… foi lindo!

iPhones 5 pretos de ladoAntes disso, em 2012, lembro-me dos comentários pré-lançamento do iPhone 5: questionavam o design ainda quadrado e, pelos rumores e vazamentos, não dava para ter a ideia do quão bonito seria a versão final. E arrisco: foi o iPhone mais lindo já feito até hoje!

Eu não acredito que em algum momento conseguiram fazer um desenho de um iPhone tão bonito quanto o que está ao lado. De um nível de detalhe, refinado e elegante. Cada milímetro foi levado em conta, cada alinhamento. Foi o iPhone que, quando Phil Schiller apresentou, eu realmente disse “Uau!”

Por ser o carro-chefe, é natural que ele tenha uma renovação visual acima dos outros produtos: iPhone, iPhone 3G, iPhone 4, iPhone 5, iPhone 5c e iPhone 6: seis mudanças em dez anos de história. O melhor placar disparado entre as linhas de produto. E eu torço para que, em 2017, tenhamos um sétimo, que todos olhem e, de novo, fiquem boquiabertos!

Mas há esperança: mesmo com um cenário geral desanimador, é possível vermos nos acessórios que a Apple ainda é capaz de criar produtos bonitos e inéditos. Isso se prova na foto abaixo: pode parecer bobagem, mas as stands de carregamento e as docks são extremamente clean e bonitas.

Apple Watch, AirPods e iPhone carregando em docks/stands

Lisas, sem cortes e com o alumínio combinando com o aparelho: um acessório que estende a beleza do dispositivo à sua base. No caso da dock do Apple Watch, não só é o local perfeito para deixar o relógio fora do pulso, como também possibilita o uso em modo Cabeceira (Nightstand mode), que o transforma em um relógio de criado-mudo. Simples, mas muito bonito.

Também vemos o AirPods: não serei inocente e falar de como os AirPods são inéditos, simplesmente porque não são. Me refiro ao seu estojo, que une um design extremamente minimalista, plano, brilhante, à praticidade do carregamento por indução contato para o par de fones. Além disso, o magnetismo usado para selar tanto o estojo quanto os fones dentro dele, lembra-nos de quando o magnetismo e o desenho são unidos pela Apple, coisas lindas e práticas são criadas.

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Tudo isso nos faz refletir e concluo: a Apple com Cook não deixou de inovar, mas se tornou uma empresa menos suscetível a riscos. É óbvio que há um lado bom, que tudo que eles entregam tendem a atender às expectativas; mas há também o lado ruim: o que eles poderiam entregar, o que poderia ser um fracasso, poderia também exceder as expectativas. Se engana quem pensa que eles pararam no tempo ou perderam a capacidade de inovar, mas é inegável que deixaram de lado os riscos.

Passaram-se menos de 40 dias do ano de 2017 e eu espero, da forma mais sincera, que os que nos aguardam à frente a Apple faça um game-changer para esse cenário. Que traga de volta o inédito, a simplicidade e a beleza às suas novas criações. Não com ajustes ou adaptações de outras linhas ou produtos, mas que volte a criar novos produtos realmente inovadores.

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