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Projeto Marzipan: por dentro do plano da Apple para levar apps do iOS ao Mac

Voltemos quase 12 anos (sim, estamos velhos) no tempo para relembrar da épica keynote de janeiro de 2007 na qual Steve Jobs apresentou o iPhone original — na opinião deste que vos escreve, o momento quintessencial do lado “showman” do CEO. Talvez só os mais aficionados se lembrem, mas uma das frases que gerou a reação mais entusiasmada da plateia, aos 8’44” do vídeo acima, foi a seguinte: “iPhone runs OS X” (o iPhone roda o OS X — ou, mais recentemente, macOS).

Não, Jobs não estava mentindo: o sistema presente naquele assombroso aparelhinho, que três anos depois passaria a ser chamado de iOS, era uma reconstrução das fundações do sistema operacional do Mac e trazia, por isso, vários dos seus benefícios — os principais deles sendo pilares nos quais a Apple se apoia até hoje: leveza, segurança e simplicidade.

Doze anos depois, o cenário é muito diferente. O iPhone (e, consequentemente, o iOS) tornou-se o principal produto da Apple e criou em torno de si um dos maiores e mais sólidos ecossistemas digitais do planeta; o Mac, por sua vez, continua indo muito bem, obrigado, mas num estado muito parecido com o que se encontrava há dez anos. Claro, temos todos os avanços tecnológicos e de processamento naturais e uma leva de novos recursos que surgiram nesse meio-tempo, mas o status quo dos computadores da Apple permaneceu basicamente o mesmo ao longo da última década, enquanto seu irmão portátil pulou à frente e disparou.

É hora, portanto, de retribuir.

Na keynote de ontem, a Apple — por meio de seu mais carismático homem, Craig Federighi — fez questão de afirmar, em letras garrafais, que não tem nenhum plano de fundir o macOS com o iOS, mas isso não significa que o primeiro não possa tirar proveito do ecossistema e do universo impressionante de apps do segundo. Esse projeto, anunciado como uma prévia na WWDC e que vai ter sua largada oficialmente dada em 2019, tem o codinome interno Marzipan, e é fruto de um trabalho que já dura dois anos dentro de Cupertino e continuará em alto ritmo ao longo dos próximos, segundo Federighi contou em entrevista a Lauren Goode, da WIRED.

Craig Federighi apresentando o iOS 12

De acordo com o executivo, o principal objetivo do projeto Marzipan é fazer com que desenvolvedores portem aplicativos do iOS ao Mac com o mínimo de esforço possível, e esse feito só é conquistado através do suporte ao framework UIKit introduzido no macOS Mojave — aos não-iniciados, UIKit é a plataforma de criação de aplicativos do iOS e tvOS (apps do Mac utilizam o AppKit, mais antigo). Ou seja, os aplicativos portados do iOS para o Mac serão totalmente nativos, com interface pensada para computadores e funcionamento apropriado; não estamos falando aqui de um emulador ou coisa do tipo, o que seria patético.

Como bem sabemos, aliás, quatro dos novos apps para Mac introduzidos ontem são os primeiros frutos do trabalho da Maçã: o Notícias (News), o Bolsa (Stocks), o Gravador de Voz (Voice Memos) e o Casa (Home) são adaptações diretas das suas contrapartes para iOS e o primeiro gostinho que nós teremos desse novo projeto da Maçã na vida real.

App Casa/Home no macOS Mojave

Os desenvolvedores que colocaram as mãos na primeira versão prévia do macOS Mojave (e nas entranhas do Marzipan) já estão destrinchando alguns detalhes sobre a ferramenta, e certamente muitos surgirão sobre ela nos próximos dias/semanas; aos interessados na parte mais técnica da coisa, alguns profissionais da área têm postado seus achados no Twitter, como Steve Troughton-Smith, Jake Marsh e nosso amigo Guilherme Rambo.

Ainda assim, como nota Craig, o processo de conversão de um app do iOS para o Mac não será totalmente automático — e nem poderia ser, considerando que estamos lidando com dois ambientes e métodos de interação (toques e teclado/mouse) totalmente diferentes, e a Apple não planeja criar Macs com telas sensíveis ao toque — outro ponto reiterado pelo executivo na entrevista. A ferramenta converterá automaticamente algumas (por exemplo, elementos de interface evocados com um toque longo no iOS serão automaticamente convertidos para um clique com dois dedos, no Mac), mas certas áreas dos projetos, como menus, barras de ferramentas e barras laterais, terão de ser modificadas manualmente. O Xcode trará uma opção para sinalizar que você está trabalhando em um projeto para ambos os sistemas, iOS e macOS.

Esta *não* é a ideia de como a coisa funcionará na prática.

É bom lembrar que, por mais que a transição dos Macs para a arquitetura ARM a essa altura já seja um segredo público, hoje ainda temos um cenário em que dispositivos rodando iOS e macOS ainda são baseados em arquiteturas diferentes — ARM para um lado, x86 para o outro. Essa dicotomia, entretanto, não deverá causar prejuízos à performance de apps portados do iOS no Mac, segundo Federighi; tudo isso porque, diz ele, ambas as plataformas já compartilham uma série de tecnologias e APIs (como o Metal) que permitem que elas funcionem com um grau bastante satisfatório de semelhança e unidade. Portanto, a (suposta) transição para o ARM vai apenas *melhorar* o Marzipan, em vez de possibilitá-lo.

Outros detalhes sobre o Marzipan permanecem enevoados. Por exemplo, não sabemos se desenvolvedores que portem apps do iOS para o macOS poderão distribuir ou vender esses aplicativos da forma como bem entenderem, na internet, ou se eles só poderão ser disponibilizados na Mac App Store; também não se sabe se as diretrizes linha-dura da Apple aplicar-se-ão a esse processo ou se qualquer app poderá ser transformado num aplicativo para Macs, dependendo apenas da vontade do desenvolvedor. São questões que, certamente, serão respondidas nos próximos tempos. Afinal, o que vimos ontem foi apenas um “sneak peek”; a Apple sabia que, se não falasse nada sobre isso, Rambos da vida descobririam detalhes da novidade fuçando nos códigos do sistema e dos apps.

Por ora, podemos ficar confortáveis com a ideia de que nossos computadores com Maçãs nas tampas receberão um empurrãozinho muito legal no sentido de ficarem mais modernos, com acesso a um ecossistema gigantesco e sem problemas de compatibilidade. O que mais vocês esperam em relação a tudo isso? Deixem suas opiniões logo abaixo.

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