Doug Mills | The New York Times

China e Rússia estariam espionando ligações de Trump feitas pelo iPhone

O assunto não é nada novo. E, para provar, basta voltamos um pouco no tempo, quando Barack Obama ainda era presidente dos Estados Unidos. No longínquo ano de 2013, nós informamos que o comandante da Casa Branca não podia usar um iPhone por questões de segurança.

Ele até teve um iPhone no seu segundo mandato, mas não podia fazer ligações e só podia receber emails de um endereço especial que era dado a um seleto grupo de funcionários e pessoas íntimas. O aparelho também não tinha câmera ou microfone e não podia ser usado para baixar qualquer aplicativo. O envio de mensagens de texto era proibido pois não havia como coletar e armazenar as mensagens (algo exigido pela Lei de Registros Presidenciais).

De lá para cá, muita coisa mudou no cenário tecnológico, mas isso continuou basicamente igual: o presidente dos EUA ainda não pode utilizar o aparelho que bem entender (seja ele um iPhone ou um Android) por conta de assuntos relacionados a segurança, de acordo com uma reportagem do The New York Times. Donald Trump, porém, não é um presidente comum, que costuma respeitar todas as regras do jogo. Resultado? Pela sua teimosia, ele pode estar sendo espionado por chineses e russos ao optar por não abrir mão do seu iPhone pessoal.

Segundo a matéria, Trump conversa com velhos amigos (seja para fofocar, reclamar ou ouvir opiniões) utilizando um dos seus iPhones. Até aí, nada demais, certo? Se não fosse o fato de chineses e russos estarem supostamente escutando tais conversas, de acordo com relatórios da inteligência americana. O intuito dessa espionagem é claro: usar os insights a fim de entender qual é a melhor forma de trabalhar e negociar com o presidente americano (EUA e China estão se enfrentando numa guerra comercial daquelas).

A ideia é entender como ele pensa, que argumentos tendem a influenciá-lo e a quem ele está inclinado a ouvir. Dessa forma, os chineses reuniram uma lista de pessoas com quem Trump fala regularmente na esperança de usá-las para influenciar o presidente. Como? De uma forma bem simplista, se aproximando de amigos dessas pessoas. A Rússia, por sua vez, não estaria fazendo um esforço tão grande quanto a China por causa da aparente afinidade de Trump com o presidente Vladimir Putin.

Aparentemente, os assessores de Trump o alertaram repetidas vezes que suas ligações pelo celular não são seguras, indicando que tanto chineses quanto russos costumam espionar tais chamadas. Ainda que ele tenha sido pressionado a usar seu telefone fixo da Casa Branca com mais frequência atualmente (que é mais seguro), Trump ainda se recusa a entregar seus iPhones. Assim, sua equipe fica apenas na torcida para que ele não discuta assuntos confidenciais quando estiver usando tais aparelhos.

Ainda segundo o jornal, o esforço da China é uma versão do século XXI do que as autoridades vêm fazendo há décadas: tentar influenciar líderes americanos cultivando uma rede informal de empresários e acadêmicos proeminentes que podem “comprar” ideias e a fim de levá-las à Casa Branca. A diferença agora é que, ao escutar as ligações de Trump, os chineses têm uma ideia muito mais clara de quem exerce maior influência e quais argumentos tendem a funcionar.

O caso foi relatado para o The New York Times não por traição de parte da equipe de Trump ou coisa do gênero. Segundo o jornal, que não relevou os nomes das fontes a fim de protegê-las (por conta das informações sigilosas que foram discutidas), tudo isso foi compartilhado não para prejudicar o presidente, mas pela frustração com a abordagem casual do presidente à segurança eletrônica.

O setup presidencial

De acordo com as autoridades, o presidente tem dois iPhones oficiais que foram alterados pela Agência Nacional de Segurança para limitar seus recursos — e vulnerabilidades; um terceiro telefone pessoal é exatamente igual ao que está disponível no mercado, sem nenhuma modificação. E Trump mantém esse telefone pessoal pois, ao contrário dos outros, ele pode armazenar seus contatos nele.

Mas o iPhone não é seguro? A Apple não se gaba disso? Bem, não há muito o que fazer quando chamadas são interceptadas enquanto viajam pelas torres de celular, cabos e switches que compõem as redes nacionais e internacionais de telefonia celular. Qualquer aparelho (iPhone, Android ou até mesmo um telefone celular “burro”, bem antigo) é vulnerável. O fato é que Trump insistiu em ter seus dispositivos mais capazes e não tão capados como o que Obama utilizou. Ele até concordou em abrir mão do seu Android durante a campanha eleitoral (o The New York Times afirmou com todas as letras que o sistema operacional do Google é considerado mais vulnerável que o da Apple) e, desde que se tornou presidente, concordou em ter dois telefones oficiais: um para usar o Twitter e outros aplicativos; e um para ligações.

Um ponto interessante é que ele não usa email (o que anula a possibilidade de ataque phishing como aqueles usados pela inteligência russa para obter acesso a emails do Partido Democrata) e não troca mensagens de texto (recurso desativado nos seus telefones oficiais). Vai ver, justamente por não usar emails, ele atacou diversas vezes Hillary Clinton (sua oponente na campanha presidencial) por ela ter usado um servidor de email inseguro enquanto ainda era Secretária de Estado (mensagens que acabaram vazando).

Seu aparelho que tem o Twitter instalado só pode se conectar à internet via Wi-Fi e ele raramente tem acesso a redes sem fio sem segurança. Mas, no fim das contas, a segurança do dispositivo depende do usuário — e a proteção dos telefones do presidente muitas vezes se mostra algo difícil. A prova disso é que ele deveria trocar os dois iPhones oficiais a cada 30 dias, mas raramente o faz por conta da inconveniência (membros da equipe da Casa Branca devem configurar os novos telefones exatamente como os antigos, mas os novos iPhones não podem ser restaurados a partir de backups dos iPhones em uso pois isso poderia transferir junto algum malware).

Vale ressaltar, também, que esse tipo de espionagem não é algo desconhecido ou apenas praticado por países como China e Rússia. Os EUA se utilizam da mesmíssima técnica para tentar interceptar conversas de líderes de outros países — não é à toa que os presidentes da China e da Rússia evitam usar celulares sempre que possível.

A repercussão

É claro que o presidente não ia deixar essa matéria passar batida, então tratou de desmentir tudo:

O New York Times publicou uma nova história falsa que agora os russos e os chineses (feliz que eles agora adicionaram a China) estão ouvindo todas as minhas chamadas em celulares. O problema é que eu raramente uso um celular e, quando eu faço, é autorizado pelo governo. Eu gosto de telefones fixos. Isso é só mais fake news inventada!

O problema é que ele publicou tal tweet do iPhone, é claro.

Tweet de Donald Trump

Danielle Rhoades Ha, vice-presidente de comunicações corporativas do New York Times, afirmou: “Estamos confiantes na precisão de nossos relatórios e vamos deixar a história falar por si própria.”

Luna LinkedIn, do Washington Post, compartilhou uma “resposta” do governo chinês sobre o assunto:

Hua Chunying, porta-voz da China, sobre a história do iPhone de Trump do NYT: “Se eles estão muito preocupados com iPhones sendo espionados, eles podem usar um Huawei.”

Definitivamente, o mundo não é mais o mesmo…

via The Verge; Gizmodo: 1, 2; CNET

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