Reflexões de um bueiro

Vai fazer uma década que estou aqui. Fui fabricado num canto da zona leste, mas dei mais sorte que os meus irmãos que ficaram nas ruas de lá. Aqui sou mais chique e importante. Um bueiro na avenida que tem o metro quadrado mais caro da América Latina.

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BueiroMas o povo daqui é tão mal educado quanto o de lá. Não só porque jogam de tudo em cima de mim. (Detesto as bitucas de cigarros.) Mas principalmente porque me chamam de ‘boca de lobo’. De onde tiraram isso? Sou um B-U-E-I-R-O. Bua, no latim vulgar, significa água. Eiro é um escorredor. Sou um escorredor de águas: um BUEIRO! Construído com ferro muito nobre para um propósito muito nobre. E colocado na Avenida Paulista!

(Nota do autor: reconheço que sou meio feinho e meu hálito não é dos melhores. Por isso peguei no Flickr uma foto de minha paixão, a grade que fica logo ali na calçada. Ela é linda e simétrica. Uma gracinha. Mas sofre tanto quanto eu. A foto é do Chrys Omori.

Nessa semana que se encerra tive que engolir o equivalente a um mês inteiro de chuvas. Foi um terror. E o verão ainda nem começou. Se fosse só o aguaceiro, tudo bem. Mas com a água vem todo tipo de lixo que você pode imaginar. Sim, até aqui, em plena Avenida Paulista. Na terça eu tive que engolir um yaksoba inteiro. Blergh… Mas vou parar de reclamar de minha vida passiva e aguada. Afinal, sou um BUEIRO da Avenida Paulista. E aqui posso aprender muita coisa. Escuto de tudo, vejo de tudo. Gosto particularmente da estudantada da FGV. Tornei-me um “economista diletante”. E ando preocupado.

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Nosso PIB não cresce. Poucos bueiros são fabricados. Mas culpam só os juros mais altos do mundo? Os caras que cruzam aqui para entrar ali no prédio da FIESP só falam nisso: juros, juros, juros. Concordo que eles (os juros) estão pela hora da morte. Mas de que adiantaria só um radical corte? Veja bem.

Passam por cima de mim milhões de pessoas. Elas estão indo ou voltando de algum lugar. A maioria tá trabalhando. Inclusive aquele boyzinho fdp que escutava ‘bate-estaca’ e jogou uma latinha de cerveja pro meu lado. Sei que aqui a coisa não foi tão feia quanto na zona sul ou na zona leste. Mas, mesmo assim, a média de velocidade dessa cambada foi de 20km/h nesta semana. O dia todo!

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Não entendo o que é ‘conta de padaria’. Nunca vi uma. Mas vou fazer uns cálculos que aprendi com a estudantada da FGV e com os chorões da FIESP:

  • Um milhão de pessoas
  • Custo médio de R$ 5/hora
  • Média de 4 horas em “trânsito” por dia
  • Média realizada em 1/4 do ano, ou 90 dias
  • (Quando o PCC não decreta feriado municipal)
  • Multiplicando tudo dá R$1,8 bilhão!

Mesmo subvalorizando todos os valores, só isso já representa quase 0,1% de nosso PIB. E eu tô falando só da Avenida Paulista! Imagina a conta dos meus irmãos da 23 de Maio e da 25 de Março e da 9 de Julho. Imagina meus primos da Avenida Atlântica (ai que inveja). Pensa bem se todos os bueiros do Brasil resolverem contabilizar o prejuízo que eles testemunham. Vamos concluir que São Pedro abocanha todo ano 1% ou 2% do nosso PIB. Coitado do São Pedro…

Coitada daquela molecada que tá trabalhando em um projeto de TI aqui pertinho. Quarta-feira passaram correndo por cima de mim. Ouvi um deles dizer que o cronograma tá com 3 meses de atraso. A molecada tava 2 horas atrasada. Para uma reunião que decidiria o que fazer com o atraso. A moça bonita que os acompanhava (com calcinha*) reclamava da carga diária de 12 horas. Com as 4 horas no trânsito (ela mora em Alphaville – ai que inveja!), restam-lhe 8 horas por dia. Para dormir, falar “oi” para os filhos e o maridão (que tá traindo ela), e falar por “horas” com aquela prima que desconfia do maridão. “Por isso”, explica ela, “meu cabelo tá esse lixo”. Acho que essa molecada não tem como produzir direito. Mas nem vou fazer mais conta não. Só queria entender porque esse povo não pode trabalhar em casa. Que coisa mais antiga esse negócio de se deslocar pra trabalhar.

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Se eles fossem operários d’uma fábrica de bueiros eu entenderia…

* Não me entendam mal. Não sou um tarado. Mas são os ossos do ofício. Parece que esse negócio de andar sem calcinha virou moda. E eu não tenho como fechar os olhos. Então vejo tudo, né? Olha, não espalha não, mas até naquele prédio famoso ali tem secretária que aderiu. Tem umas de aderem desde manhã. Eu estranho mesmo aquelas que chegam com e voltam pra casa sem. Que pouca vergonha… Mas é o tipo de pouca vergonha que não afeta o PIB. Ou será que afeta? Vou perguntar para os universitários da FGV…

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