Agora a Microsoft quer usar a infame “Apple tax” a seu favor

Guia de recolhimento da taxa AppleRecentemente, a gigante de Redmond publicou um post no The Windows Experience Blog sobre um “estudo” acerca do quanto um consumidor paga a mais para adquirir e sustentar um Mac, comparado com hardware de concorrentes com especificações semelhantes ou superiores. E a cereja no topo: falar da “Apple tax” às vésperas do “Tax Day” usando uma guia de recolhimento de imposto é engenhoso, pode crer, quase digno da showmanship do Steve Jobs.

A premissa é verdadeira e apresenta um timing excelente: no meio de uma crise, destaque o quanto “””seu””” produto requer um custo inicial menor, propiciando uma economia imediata. A campanha “Laptop Hunters” é uma expressão inteligente disso e eu já comentei o quanto acho que foi uma bola dentro da Microsoft.

Porém, “há algo de podre no reino de Redmond”, pois certos artifícios publicitários parecem ter sido empregados. O pior de tudo, o que me deixa mais triste, é que nada disso seria necessário.

Existe uma “taxa Apple”?

Sim! Pronto, falei. Existe uma “taxa Apple”: o nome dela é Leopard, iLife, Genius Bar, integração hardware/software, design, carcaça unibody (ou pelo menos mais agradável aos olhos, sem tantos LEDs piscando), Jony Ive… Há uma série de motivos pelos quais um Mac custa mais que um PC semelhante (no Brasil, isso é elevado ao cubo). Nem preciso falar de um Mac, basta usar o iPod: os PMPs com uma maçã no verso são muito mais caros que seus equivalentes, sendo que são estupidamente inferiores em termos de suporte a formatos de mídia! É mentira? :-/

No momento em que se propôs a custear um estudo sobre essa diferença de preços, a Microsoft tinha uma faca quente na mão: era chegar, mostrar cientificamente que PCs requerem um investimento inicial inferior e dizer “Se você quiser um computador sob medida, um PC rodando o Windows sai mais barato que um Mac por causa disso, disso e disso.” Pronto, publicidade feita, exposição clara e todo mundo vai ser feliz com o Windows. (Não mencionemos, por enquanto, a palavra “pinguim”…)

Distorcendo a realidade

Mas não! Tinham que pegar uma batalha ganha e enchê-la de falácias e distorções, só para perderem a razão. Rogey Kay, da Endpoint Technologies Associates conseguiu publicar um documento (PDF, 445KB) que pega um fato de conhecimento geral (existe uma taxa Apple) e o cobre com tantos artifícios e artimanhas que chegamos ao final da coisa completamente descrentes. Devo ratificar que não há problema algum em fazer publicidade tendenciosa, pois esse é o objetivo, ser tendencioso. O problema é querer divulgar algo como imparcial e, no fim das contas, haver altas doses de parcialidade por trás dos panos. É como a teoria dos motivos determinantes: se você alega um motivo, ainda que sem obrigatoriedade, passa a ser obrigado a comprovar a validade dele — em outras palavras, “em boca fechada, não entra mosca”.

A começar pela primeira página do estudo: o título já começa meio pejorativo (What Price Cool?) e o rodapé já abre um rombo na credibilidade das 10 páginas seguintes. “Patrocinador: Microsoft.” Certo, a mesma empresa que acabou de lançar a campanha “Laptop Hunters”! É quase o mesmo que um estudo médico patrocinado por uma gigante do tabaco dizendo que cigarro faz bem à saúde (existem centenas deste tipo, por horrível que pareça).

Comparação entre Macs e PCs

Outros elementos incômodos foram muito bem expostos por este post do AppleInsider, o qual achei muito esclarecedor, mas permita-me resumir os mais gritantes:

  • Na comparação de laptops, Kay usa um modelo de MacBook descontinuado — perdoável, se ele tiver feito o estudo antes de tornarem o MacBook branco quase a mesma coisa que o unibody, em termos de componentes internos.
  • Bluetooth, Wi-Fi 802.11n, peso da máquina e tempo de bateria são completamente ignorados, mas faz-se estardalhaço por conta de recursos de utilidade limitada nos PCs (sintonizadores de TV e leitores de cartão, por exemplo).
  • Nos desktops, Kay comete o mesmo equívoco de usar modelos já fora de linha como base comparativa, o que o leva a ignorar a presença das GPUs mais rápidas.
  • Comparar um Mac Pro com um HP Pavillion? Hã?

Piora, com o tempo

A comédia _mesmo_ acontece quando ele tenta simular os custos ao longo de cinco anos.

Calculando a taxa Apple

Logo de cara, é possível notar uma bruta incongruência: por que um consumidor comum adquiriria um Mac Pro para ser seu desktop? Não, sério: por que não um iMac? E quem disse que todo usuário de Mac é obrigado a assinar o MobileMe Family Pack? Ou comprar o Mac Office Home and Student ao invés do iWork? Por que o roteador do Mac não pode ser o mesmo do PC — e por que tem que ser uma AirPort Extreme, e não Express? Se é um Mac Pro, o desktop, por que não um drive de Blu-ray interno, ao invés de um tocador independente? Será que todo mundo que tem Mac precisa comprar o OneToOne Care? Sério, a única coisa realmente necessária que eu vi foi o AppleCare.

Mudando o foco, as omissões também são notáveis: onde está o custo do Office na tabela dos PCs? Bem verdade que dá pra usar o OpenOffice, mas também daria, num Mac (eu usei por um tempo e foi super tranquilo, por sinal). Ou será que o Kay pensou que vinha tudo embutido no Windows? E onde estão os custos com software anti-vírus? Ah, claro, é possível usar um AVG da vida, que é gratuito — boa pedida! E, se é pra ter tudo do bom e do melhor nos Macs, que tal somarmos o preço de um Windows Vista Ultimate?

Certas coisas foram inteiramente ignoradas no fim das contas, sendo que uma delas é exuberante: qual o preço de revenda de um computador usado? E mais, como uma máquina com cinco anos de idade lida com o universo ao seu redor? Há de se fazer justiça: Macs se saem muito menos mal nesses quesitos tão importantes quando precisamos pensar em computadores como investimento, não como capricho. Malditos sejam a obsolescência programada e o Campo de Distorção da Realidade®, mas espero ainda estar com meu MacBook na Copa da África e, quem sabe, até nas próximas Olimpíadas.

Perdendo uma batalha que estava ganha

Desnecessário, todo esse jogo de palavras e essas falácias, tudo desnecessário. Um PC é mais customizável que um Mac, tem um custo inicial menor, tem mais variedade de softwares disponíveis no mercado, há muito mais tipos de máquinas disponíveis para compra — do netbook à estação de edição de filmes em HD — e tudo ao longo de um continuum, ao contrário dos Macs, que se separam por níveis bem discretos. Cara, dá pra montar um PC excelente do zero, peça a peça (quem já fez isso, conte nos comentários!), e ainda pagar significativamente menos. Pra que apelar, se a partida já estava ganha, Microsoft?

Levando em consideração que o Windows precisa se desdobrar para funcionar em todo tipo de hardware possível e imaginável, até que ele vai bem! Há muitos problemas inerentes, mas nada que um pouco de trabalho duro por parte dos engenheiros de Redmond não resolva: solucionem a questão da segurança e otimizem a compatibilidade com o universo de componentes (algo que não deve ser mole, mas eu acredito que conseguirão… um dia) e vocês terão um super sistema operacional! A interface ficou mais bonita no Vista e muita coisa boa virá com o Windows 7.

Certos elementos culturais precisam ser revistos, também, como a infinidade de versões de um mesmo sistema operacional (algumas completamente capadas) e o preço estapafúrdio que cobram por algumas delas. “Redmond, start [and never turn off] your photocopiers!” Vocês estão correndo atrás da experiência Mac e, aos poucos, conseguindo chegar a ela: a SuperBar do Windows 7 é um exemplo, prova de que a Dock tem espaço para evoluir mais ainda em termos de utilidade. E não esqueçamos a regra de ouro: concorrência beneficia o consumidor!

Eu gosto muito de usar o Mac OS X — ele foi o ponto que mais pesou em meu investimento como switcher, junto com a portabilidade do MacBook —, mas fui por mais de 15 anos feliz e produtivo no Windows, só precisando formatar minha máquina uma vez. Tudo bem, eu sofri por muito tempo com um mal de “roleta russa” em que o PC reiniciava do nada, mas nisso o Windows era inocente: meu hardware era podre, mesmo. Eu digo sem medo de errar: quando funciona a contento, o Windows consegue ser tão adorável quanto o Leopard — particularmente, eu consigo fazer este funcionar melhor que aquele, mas cada usuário é que sabe onde o SO aperta.

Apesar de o momento ser o ideal para dizer aos consumidores “Ei, você pode ter um computador sob medida pra atender às suas necessidades e ainda pagar menos!”, a Microsoft precisa usar de cautela, pois está fazendo barulho demais por conta de um segundo colocado muito, mas _muito_ aquém da base instalada dela. E, preço por preço, há uma certa ave antártica que pode, a qualquer momento, entrar com tudo nesse jogo de “pague menos”… 😉

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And that, as they say, is that.

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