A Apple e a sua obsessão pelo segredo

Com a notícia acerca do transplante de fígado a que Steve Jobs submeteu-se, voltou à cena o questionamento sobre o relacionamento da empresa com os meios de comunicação e com os seus próprios acionistas.

Mesmo com um rumor de que o CEO da Apple teria voltado ao trabalho, ou pelo menos comparecido ao campus da companhia, nenhuma confirmação é dada oficialmente. Até mesmo um executivo de alto escalão que costuma ser “um pouco mais aberto”, quando questionado sobre a notícia que havia sido publicada sobre o transplante — quando este ainda era um “boato” —, recusou-se a comentar o assunto, afirmando apenas “não posso fazer isso, [o assunto] é delicado demais”.

Segurança dentro da Apple

Porém, segundo uma matéria publicada recentemente pelo The New York Times, esta obsessão pelo segredo não é apenas uma posição para tratar de qualquer assunto ligado a Jobs: ela é um posicionamento enraizado na cultura da empresa.

Ao contrário da tendência adotada pela maioria das companhias de se aproximar dos meios de comunicação e de blogs em geral para divulgar seus produtos, a Maçã guarda seus segredos a sete chaves. O jornal afirma que a Apple é umas das empresas mais fechadas e punitivas com aqueles que violam suas regras sobre o controle da informação. Empregados já foram demitidos por “vazar” detalhes e dicas para pessoas de fora e ela chega a até mesmo divulgar informações falsas sobre planos de novos produtos para seus funcionários.

O próprio Philip Schiller, vice-presidente de marketing, já fez reuniões internas sobre novos produtos divulgando propositalmente informações incorretas sobre preços e/ou novas funções. Se houver algum vazamento de informações, a Apple então consegue fazer um rastreamento para descobrir a fonte que “vazou” algo precipitadamente.

“Eles fazem com que todos fiquem super paranoicos sobre segurança”, disse Mark Hamblin, que trabalhou na tecnologia touchscreen para o iPhone e saiu da Apple no ano passado. “Eu nunca vi algo assim em outra empresa.”

Gene Munster, analista da Piper Jaffray, costuma brincar com seus colegas que fazem a cobertura da empresa, dizendo que a Apple tem o hábito de “embaralhar as frequências”. Segundo ele, a companhia passa informações incorretas para “tirá-los da jogada” quando pretende manter confidenciais detalhes e novidades sobre produtos que estão saindo do forno. Há cinco anos, afirma ele, um executivo da Maçã lhe disse pessoalmente que a empresa não tinha interesse em desenvolver um iPod barato sem tela. Pouco depois, a Apple lançou exatamente aquilo: o iPod shuffle.

Mas o controle não para por aí. De acordo com um ex-empregado que trabalhou com projetos secretos dentro da companhia de Cupertino, o nível adotado para a segurança interna é altíssimo. Pela descrição, a primeira coisa que me veio à minha cabeça foram os comerciais utilizados no lançamento do próprio iPhone:

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=AcigqYci7Ss[/youtube]

Empregados que trabalham nos projetos secretos, produtos que ainda estão em desenvolvimento, devem seguir por um labirinto de portas de segurança, passando seus crachás inúmeras vezes para, no final, digitar um código numérico e assim ter acesso aos seus escritórios.

Os locais de trabalho geralmente são monitorados por câmeras. Empregados trabalhando em ambientes mais críticos, onde são realizados testes de produtos, devem cobrir estes dispositivos com capas negras enquanto trabalham neles. Os funcionários também devem acender uma luz vermelha enquanto os produtos estiverem desprotegidos — assim, todo mundo fica ciente de que devem ser extremamente cautelosos.

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=E5mzbBmefD4[/youtube]

Segundo Regis McKenna, um veterano do marketing que aconselhou a Apple em seu início, a cultura do segredo tem sua origem ligada ao lançamento do primeiro Macintosh, quando competidores como a Sony e a Microsoft já sabiam todos os detalhes do produto antes mesmo de ele ser revelado ao público.

Mas o que muitos simplesmente não entendem é que o próprio Steve Jobs sempre foi muito fechado sobre sua vida pessoal, explica McKenna. “Ele sempre manteve as coisas muito próximas desde que eu o conheci, só confiando certas informações a um grupo seleto de pessoas”.

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