Fala, Hagge! O Bicho da Maçã: Apple TV, brinquedo de luxo

Apple TV original e Remote

Esta semana, a última ponta de esperança para aqueles que gostariam de ver vários novos recursos implementados no Apple TV caiu por terra. Peter Oppenheimer, diretor financeiro (CFO) da Apple, disse a um grupo de investidores que transformar o Apple TV em um set-top box ou em um DVR não está nos planos da empresa e simplesmente não se encaixa em nenhum modelo de negócios planejado em Cupertino.

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Apple TV e Remote

O fato é que a posição da Apple é bem clara neste momento: enquanto ela não souber como ganhar dinheiro com o Apple TV, ele continuará sendo apenas uma muleta para ver e ouvir a biblioteca do iTunes na sua TV HD.

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Não querer transformar o Apple TV em um aparelho de TV a cabo ou em um TiVo é uma escolha acertada. A competição nesse mercado é enorme, a tecnologia é atrasada e não existe nada que a Apple possa fazer para se destacar das outras empresas. Com o iPhone, por exemplo, foi diferente. A interação do consumidor com o produto é direta e o software é matador. Além disso, a Apple e o iPod são a empresa e o produto da moda, e mexer em um iPhone no meio da multidão faz o ego da maioria das pessoas inflar facilmente. Fora o fato de que hoje em dia todo mundo possui pelo menos um celular.

TiVo

Como o Apple TV não tem esse tipo de apelo e TV por assinatura ainda não é tão popular, posicioná-lo num mercado tão obscuro fica ainda mais difícil. Ontem mesmo, durante o evento realizado pela empresa, Phil Schiller afirmou que não sabia como vender o iPod touch, mas sabia que tinha que começar a vendê-lo, pois era um ótimo produto. Mas o público consumidor fez o trabalho sujo pra Apple, e o iPod touch, a partir de ontem, se tornou oficialmente a nova plataforma móvel de jogos da Apple, concorrendo com Sony (PSP) e Nintendo (DS). E com a vantagem de ainda vir com o melhor iPod de todos os tempos!

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Por outro lado, uma empresa que se caracteriza tanto por inovação não pode ter em seu portfólio um produto tão limitado e indiferente.

Muita gente acha que, com a popularização dos jogos na App Store, a Apple estaria preparando o Apple TV para ser sua próxima plataforma de entretenimento, estendendo a diversão dos iPhones/iPods touch para sua televisão e posicionando-o como concorrente do PlayStation e do Wii. Eu acho muito pouco provável. Primeiro, porque demandaria a criação de um terceiro sistema advindo do laço infinito (já temos o Mac OS e o iPhone OS) e, consequentemente, uma terceira plataforma de desenvolvimento. Depois, porque demandaria muito esforço e investimento em algo que não passa de uma aposta maluca com muitas chances de não dar certo.

E eu acho que já deu pra notar que a Apple não joga mais para perder — ou, pelo menos, joga para perder muito pouco, que é exatamente o que está acontecendo com o Apple TV.

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A Apple precisa transformar o Apple TV em algo revolucionário, que faça com que a nova geração volte a querer assistir TV. E arrisco dizer que ela está com a faca e o queijo na mão.

Apple TV e iTunes na televisão

A iTunes Store já é a nova TV. Compre ou alugue e assista o que quiser, a qualquer hora e em qualquer lugar (se tiver um iPod/iPhone). Parece perfeito, mas esbarra em dois problemas que a empresa de Cupertino ainda não conseguiu resolver:

  1. É caro demais. Os norte-americanos, assim como os brasileiros, estão acostumados a ter TV aberta de graça. Os que pagam pelo serviço de TV por assinatura buscam mais qualidade e maior quantidade de opções, que, conectadas a um DVR tipo TiVo, é quase a mesma coisa que o aparelho da Apple. Quase, porque ainda assim se está preso à programação da TV e, claro, não tem o mesmo estilo e simplicidade — são dois aparelhos, dois controles remotos, vários cabos…
  2. Os acordos com os estúdios. Todos os estúdios ainda estão estudando um meio de sair da armadilha em que a Apple conseguiu colocá-los — e que parece a única saída contra as sucessivas quedas de lucro. É muito difícil costurar um acordo como esse, e mais difícil ainda convencer alguns macacos velhos desse mercado a mudarem o rumo de seus negócios.

Enquanto a Apple não conseguir resolver essas questões cruciais, o Apple TV não vai evoluir. E Steve Jobs parece cada vez mais ter planejado antecipadamente todas as conquistas de sua empresa.

Com a Pixar, por exemplo, conseguiu transformar desenhos animados 3D em algo tão interessante quanto as fantásticas animações originais de Walt Disney. O negócio ficou tão grande que o estúdio do velho Walt acabou comprando a Pixar e, de quebra, transformando Jobs em seu maior acionista individual. Este ano foi a vez da Marvel de ser adquirida pela Disney, com seus altíssimos contratos de produção e distribuição espalhados entre os maiores estúdios de Holywood (X-Men na Fox, Spider-Man na Sony, Hulk na Universal). Percebe aonde eu quero chegar?

Se a Apple conseguir lançar um serviço concorrente ao da TV a cabo, com planos de, digamos, US$20, US$50 e US$100 por mês, diferenciados pela quantidade de filmes e séries de TV que podem ser vistas mensalmente, não haverá concorrência à altura. Simplesmente ninguém no mundo possui a infraestrutura e o público cativo e fiel da iTunes Store.

Jobs sabe que tem que aproveitar essa chance para mergulhar de vez no mundo do entretenimento. Mas também sabe ter paciência e esperar a hora certa de arriscar. Eu, impaciente por natureza, não vejo a hora.

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