Halex bodejando: eu ODEIO a iPad

Mentira, eu não odeio a iPad. Nem amo. Apenas a respeito do jeito que ela é: fina, elegante, parece que arrancaram a tela de um iMac (que, tecnicamente, é o iMac todo) e a encolheram. Contudo, muita gente está cuspindo fogo pelas ventas por causa da decepção com o novo gadget.

A estas pessoas, eu digo: re-la-xe! 🙂 Se você não gostou da iPad, mesmo assim ela ainda gosta de você. Neste momento, proponho fazermos um pouco de análise para entendermos melhor por que a iPad é do jeito que é: vamos tentar ir a fundo no que diabos esse produto significa.

Disclaimer: para escrever este post, eu me vali de muitas ideias que não são originalmente minhas. De onde elas saíram? De três lugares: dos comentários neste post, deste artigo do David Pogue no NYTimes.com e da minha bagagem. Agora, ao texto.

Rumores, daqui não passareis!

Primeiro, esqueça de tudo o que você leu, ouviu, pensou ou sonhou nos últimos meses! Querer se basear em rumores agora é o mesmo que achar que você foi traído pela J. K. Rowling só porque ela fez o Harry Potter se casar com uma garota diferente da que você escolheu na sua fanfic.

Rumores são rumores, eles não importam mais, depois que um produto é lançado.

O que há num nome?

Pois é, acabou sendo “iPad”. Infelizmente, pad significa “absorvente” em inglês, então só posso dizer que nunca foi tão bom ser brasileiro. Você compraria um iModess? Em todo caso, com o tempo vamos acabar nos acostumando — se bem que até hoje eu ainda não suporto ler “MobileMe”, que dirá ouvir.

E um detalhe importante! Ainda não podemos ter certeza se é menino ou menina: só quando a página da Apple Brasil for atualizada é que poderemos dizer com certeza se é “a iPad” ou “o iPad”. Pela extensão do gênero “a tablet iPad” e para evitar confusão com “o iPod”, eu fico com o feminino. (Ouviu, Apple Brasil?)

Seu computador principal

A iPad não é. Ela não quer ser um substituto pro seu MacBook, pro seu Asus, pro seu iMac, pro seu HP, pro seu Dell ou pra qualquer caixa bege (ou preta) que existe por aí. A iPad está se lixando pro Photoshop e pro Final Cut. Por isso, muitas coisas que ela não tem fazem sentido.

  • USB: seria legal, poder espetar um pendrive e navegar pelas pastas, né? Ou uma impressora/scanner, pra ter que instalar drivers? Você queria mesmo que a iPad fosse da grossura de uma porta USB? Ou que ela fosse micro-USB e precisasse de um cabo extra? Para quem tiver uma necessidade desesperadora de conectar câmeras, haverá um adaptador à venda — e eu acho que todo mundo vai preferir ir da câmera ao computador, sem escalas pela tablet.
  • Cartões SD: aqui, eu vejo um certo motivo pra reclamar. Custava abrir um espacinho pra podermos salvar fotos direto na iPad? Pelo visto custa, pois quem quiser isso vai ter que desembolsar um extra por um adaptador — que, mais uma vez, acredito que vai vender pouco, visto que iMacs e MacBooks Pro já os aceitam.
  • HDMI: pelo jeito, a resposta da Apple nesse caso é “compre uma Apple TV” — achou mesmo que iam descontinuá-la assim?
  • Mac OS X: a iPad já tem uma versão açucarada do OS X e (aqui vem uma bomba, se prepare!) a grande vantagem dela é não ter um Finder. Usuários comuns tão se lixando pra onde ficam os arquivos (eles salvam tudo no desktop), então essa é uma camada de complexidade desnecessária a menos. Os arquivos ficam a cargo de cada app, que só tem acesso aos seus.
  • Multi-tarefa: eu entendo sua dor. Às vezes estou lendo no Stanza offline, quero checar o significado de uma palavra e tenho preguiça de encerrar o leitor, iniciar o Dictionary e voltar à leitura. Contudo, não acho que seja um recurso tão essencial — sem falar que ele pode dar mais dor de cabeça que benefícios (vide Nexus One, no qual muita gente não sabe quando deixou o app rodando ou quando o encerrou). O lance é pensar na troca que se faz (por não ter multi-tarefa) mas ter mais estabilidade e autonomia em troca — a iPad vai fazer uma coisa de cada vez, muito bem.
  • Câmera: para tirar fotos, seria ridículo — apontar um trambolho como ela na cara de alguém quando estiver no meio da rua? Uma versão mobile do iChat seria a única justificativa — mas aí todo mundo ia reclamar que o iChat não suporta vídeo com o MSN. Acho que isso dá em empate.
  • HDD: um gadget com acelerômetro _não_ deve ter um disco rígido. Sacudir, agitar, ir pra lá e pra cá não combina com uma placa de metal girando a micrômetros de um cabeçote.
  • 128GB: os drives de estado sólido estão barateando, mas ainda não tão assim, a preço de banana. Além do mais, estamos falando da Apple! Você queria que a iPad custasse quanto? US$2.000?

A maldita tela 4:3

A iPad poderia ser 16:9, widescreen, como os novos iMacs, né? A Apple estava indo tão bem, deixando os computadores mais largos, para evitar bordas pretas em cima e embaixo… tinham que retroceder e colocar uma tela 4:3 justo no equipamento mais revolucionário? Pior ainda: e esse bezel ofensivamente largo, pra quê?!

Olhe para um teclado: ele é wide. Se a iPad fosse wide, ia ser impossível digitar nela e ver o que você está escrevendo — ou então o teclado ia ficar numa posição muito estranha, com sobras pros lados. Para ver filmes, a iPad é um arremedo, um gadget que você usa porque é o jeito: ela não vai nunca substituir sua TV ou seu computador principal. Portanto, as barras pretas são o de menos. E quanto ao bezel, bem, você tem que segurar um gadget desses com firmeza, ou ele vai acabar no chão.

Lembre: a tela é de 9,7 polegadas. É boa? É, mas você não vai começar a assistir a maratonas de LOST num treco pequeno desses. Portanto, ela tem que ser funcional, e não cinematográfica.

O Kindle RI do LCD!

E os ebooks? Eles vão parecer lindos na tela colorida, mas nem de longe ela é tão econômica quanto a tela de e-ink do Kindle. Compare: um gadget tem autonomia de uma semana, o outro, de dez horas! Nossa, sem chance de desbancar a Amazon, hein?

Não. Vamos pensar: uma tela maior, um app da Apple, uma loja de livros e todas as vantagens que isso pode trazer. Rapaz, a bateria recarrega e pronto: tá cheia de novo, pra mais umas horas de leitura! E a tela do Kindle, que é em preto e branco (e lerda) pra sempre?

Além do mais, um sussurro do meu ghost me diz que a Apple está de olho na Pixel Qi, enquanto apara as pontas. Quando aquelas telas LCD de baixo consumo chegarem à iPad… Ê, vai ser melhor o Kindle aprender a preparar cafezinho pra acompanhar a leitura! 😛

Minha vida continua a mesma!

Como era a sua vida em janeiro de 2007? E no começo de 2008? Pelo que eu me lembro, o iPhone era uma bela porcaria, quando foi lançado: a câmera era um lixo (e sem flash!), o navegador era inútil (e sem Flash!), não tinha GPS de verdade, o teclado virtual era uma bomba, o telefone só rodava as besteiras da Apple, não tinha 3G, era fechado pra tudo e bloqueado pra só funcionar na rede da AT&T. Que porcaria de produto, #epicFAIL, um fracasso, uma decepção! Era pra Apple ter seguido a recomendação do Michael Dell, não é?

Percebeu como reclamar é fácil? Só três anos depois é que alguém conseguiu lançar um smartphone que chegasse perto do iPhone em termos de funcionalidade e acabamento. Isso deve significar alguma coisa! Ah, a câmera continua sem flash, o navegador continua sem Flash, o teclado continua virtual e quase ninguém dá a mínima pra isso.

Minha recomendação é: espere. Pode ser que a revolução aconteça, mas não vai ser como no final de V de Vingança, não vão estourar fogos de artifício e tocar música clássica para anunciar que o mundo mudou. Se você precisa da iPad, você vai saber. Se ela parecer um gadget grande, desengonçado e sem utilidade, então é porque você não precisa dela — e isso é ok! Não é culpa sua, nem de ninguém. #FAIL é querer que todos os rumores sobre um produto da Apple se concretizem: quem conhece um pouco do modus operandi do Jobs sabe que jamais faria tudo o que os consumidores querem.

O que é o que o Ford dizia? “Se você perguntar o que as pessoas querem, elas vão dizer ‘cavalos mais rápidos’.”

Ela não faz chamadas! E o telefone?!

Continua no mesmo lugar de sempre: www.apple.com/iphone. Você deixaria de colocá-lo no ouvido, trocando-o por um gadget três vezes maior?

Conclusão

A iPad é alguma coisa entre um smartphone e um notebook, isso é fato, portanto não vai substituir nenhum dos dois. O que ela é? Ninguém sabe, nem o pessoal de Cupertino. Basta olhar pro topo do site da Apple e ver que, apesar de o novo gadget ter seu endereço próprio http://www.apple.com/ipad, ele ainda não tem um lugar onde ficar.

A iPad é um Mac? É um iPod? É um iPhone? Se eu usar a caixa de busca, posso descobrir o que ela é? Não sei, apesar de ter lá minhas ideias. Com o tempo e à medida que virmos apps de terceiros sendo lançados com adaptações para tirar completo proveito da tablet, poderemos pensar melhor no que o lançamento de hoje significa.

O filme que estreou hoje pode se chamar iPhone 2: A missão ou O Retorno do Cube G4, porém só teremos certeza com pelo menos seis meses depois que a iPad chegar ao mercado.

Até lá, that, as they say, is that.

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