Também quero brincar de iPad

...e não era pra ser isso?

por Renê Belmonte

...e não era pra ser isso?

Como bom macmaníaco, acompanhei com ansiedade os meses que antecederam o anúncio oficial do iPad. Li cada segredo vazado, cada especulação, cada sugestão do que o aparelho traria. Acompanhei, entretido, os esforços das outras empresas em lançarem uma tablet antes da Apple. No dia 27/1, abri várias abas em meu navegador, cada uma apontando para um site especializado diferente fazendo a cobertura ao vivo, para ter certeza de não perder nada. Como muitos, fazia parte da turma do “eu quero um!” antes mesmo de saber exatamente o que seria anunciado. Como todos, tinha um monte de expectativas sobre o que o aparelho deveria fazer. E a certeza de que eu sairia absolutamente surpreso e maravilhado com o mundo de coisas que ninguém havia sequer imaginado. Afinal, estamos falando da Apple, que apenas três anos atrás surpreendeu todo mundo com o que o iPhone era capaz de fazer.

Quando Steve Jobs finalmente anunciou o novo brinquedo fiquei aliviado, desapontado, e desconfiado, mais ou menos nessa ordem. Ok, era legal. Ok, eu ainda quero um. Ok, tem um preço bacana, e o que faz, faz muito bem. Mas… era só isso? Um iPod touch gigante? A mesma interface? As mesmas deficiências? “Não, não, vamos esperar”, pensei. A surpresa ficou pro final, como sempre. Como é, mesmo? Ah, sim: One More Thing. Três palavrinhas mágicas. É ali que ele vai fazer todo mundo cair do cavalo.

Não teve One More Thing. Não teve nenhuma surpresa arrebatadora, nenhuma quebra de paradigma, nada. Ainda é melhor do que qualquer outra proposta de tablet que tem por aí, ainda abre possibilidades que a tela do iPhone e do touch não suportam, e nem venha me falar em netbooks. Mas… e aí?

Aí me dei conta de que teve o One More Thing, sim. Só que não no final, e sim no comecinho da apresentação, tão disfarçado que ninguém notou: a charge do Wall Street Journal, que dizia que a última vez que uma tablet tinha causado tanta expectativa ela continha os dez mandamentos:

Vamos voltar um pouco no tempo. Os últimos meses foram de especulação intensa, os sites de tecnologia praticamente só falavam nisso. Quando se cria uma expectativa tão alta é impossível não se desapontar, por melhor que seja o produto. Nada supera a fantasia. No máximo, no máximo, as pessoas ficariam aliviadas — é, é tudo isso que eu achei mesmo. E se deu pra aprender alguma coisa com tio Jobs, é que ele nunca se preocupou em corresponder às expectativas. O negócio dele é superá-las — é apresentar algo tão arrebatador, e ao mesmo tão simples, que as pessoas fiquem pensando “Como foi que ninguém nunca pensou nisso antes?” Criou-se uma situação impossível.

E a saída, claro, foi genial: já que o que quer que apareça irá decepcionar, vamos decepcionar intencionalmente. Vamos mostrar apenas o básico. Vamos dar apenas um gostinho do que pode ser. A maioria vai malhar, alguns vão se contentar e defender, e aos poucos a poeira irá baixar. O grau de ansiedade vai cair a um nível razoável. E aí… aí, sim, a gente vem com tudo. Porque a grande sacada do anúncio do iPad é que ele só começará a ser vendido daqui a dois meses. Até lá, muita coisa pode mudar. Por que essa demora? No caso do iPhone fazia sentido, porque ele teria que ser apresentado à FCC primeiro, e seus recursos acabariam vazando. Por que não esperar para anunciar o iPad apenas quando ele estivesse pronto pra venda, como a Apple quase sempre faz?

Claro, posso estar absolutamente errado, e daqui a dois meses veremos exatamente o mesmo produto que foi anunciado dia 27. Mas há vários indícios a meu favor, e fico surpreso de mais ninguém ter dado conta deles.

Primeiro, muita gente ligada ao iPad deu a entender que este teria uma interface revolucionária, tão diferente que teria “uma curva de aprendizado íngreme”. Ninguém viu nada disso ali — viu uma interface com a qual nos acostumamos a trabalhar há quase três anos. Segundo, falava-se de uma integração sem igual entre mídia impressa, TV e internet. Novamente, o que vimos foi o New York Times com vídeos clicáveis. E terceiro e mais gritante: sempre se falou no iPad rodando o iPhone OS 4.0, e o que vimos foi um aparelho rodando o 3.2 — quase sem novidades. Não tem nada de estranho nisso?

Ou, como Walt Mossberg resumiu muito bem: “É o software, estúpido.” O hardware provavelmente é esse mesmo (não duvido que ele acabe incluindo uma câmera frontal, já que faz todo o sentido do mundo). Mas as grandes novidades, o One More Thing, pode estar nos esperando no 4.0. Que pode muito bem ser lançado daqui a dois meses, junto com o produto.

De novo, posso muito bem estar errado. Ou completamente certo, mas só veremos essas novidades daqui a um ano, quando a versão 2.0 for lançada. Ou em qualquer momento entre um e outro, uma vez que a Apple sempre lança novo software para os modelos anteriores. Qualquer que seja a verdade, uma coisa é certa: este é apenas o começo, e as pessoas mal começaram a pensar nas possibilidades que esse aparelho é capaz de trazer. Isso não é especulação, é fato: quando o iPhone foi lançado alguém pensou que ele poderia ser usado para descobrir que estrelas estamos vendo? Indicar o banco mais próximo? Dizer que música está tocando no rádio? Afinar seu violão? Quem imaginava (a Apple, certamente não) que ele se tornaria uma plataforma de jogos tão importante? E, mesmo que tudo isso seja loucura da minha cabeça e a Apple não seja mais a mesma… o que dizer dos milhares de desenvolvedores na App Store? Pode vir deles o “Aplicativo Matador”. As possibilidades existem.

O que iremos fazer com o iPad daqui a um, dois anos, que nem mesmo somos capazes de antecipar hoje?

Vou dizer apenas uma, que é o que eu mais esperava e uma das fontes do meu (leve) desapontamento: sempre imaginei o iPad (confesso, também o imaginei com um nome mais criativo, mas isso não vem ao caso) como uma extensão de meu iMac. Colocando um ao lado do outro, o iPad viraria instantaneamente uma segunda tela, onde eu poderia ter acesso à paleta do Photoshop, ou uma janela do Finder. Deitando-o sobre a mesa, poderia usá-lo como tablet, para desenhar. Se estou trabalhando num programa — um programa que não existe pra ele, como por exemplo um programa de roteiro — eu poderia arrastar o programa para ele e continuar trabalhando da minha cama. Ou continuar assistindo a um filme que está em meu computador. Tudo isso via Wi-Fi. Nada muito complicado ou inovador, mas que expandiria bastante suas funções. Talvez a Apple implemente isso, ou alguém lance um aplicativo que faça exatamente isso. Por que não?

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Renê Belmonte tem 39 anos, é roteirista e vive tentando entender alguma coisa sobre a guerra dos sexos; é fascinado por nerdices como tecnologia, FC e seriados de TV.

O artigo acima foi publicado originalmente em seu blog pessoal, o Caos & Efeito.

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