Até tu, Brutus? Dick Brass, ex-vice presidente, explica a falta de inovação dentro da Microsoft

Logo em escritório da Microsoft

Num artigo de opinião escrito para o The New York Times, Dick Brass, antigo vice-presidente da Microsoft, finalmente esclareceu a causa para algo que todos já percebemos (mas evitamos falar em voz alta para evitar sermos chamados de fanboys): a Microsoft há muito tempo não inova. Vindo de alguém que já trabalhou no estômago da fera e (mais importante) torce intensamente pelo sucesso da empresa, é algo pesado.

Antes, vamos revisar o tema. Basta olhar para qualquer ramo no qual a gigante de Redmond invista hoje e você verá que não há “inovação”, mas sim “compensação” — alguém faz sucesso e a empresa corre atrás. O Zune foi uma tentativa de alcançar o iPod. O Xbox (360) foi uma forma de pegar carona com a febre do PlayStation (2 e 3) — e fez sucesso, sim, mas tá longe de ser uma mudança de paradigma. Até o Project Natal, uma das coisas mais incríveis que saiu de Redmond nos últimos tempos, nada mais é que uma reação ao que a Nintendo começou com o Wii — e ainda vai custar um pouco pra chegar ao mercado. Não vou nem mencionar o Windows Mobile ou as lojas da Microsoft… Só não me falem do Courier, pois não passa de puro vaporware até que se prove o contrário.

Por que isso? Como pode uma empresa que tem tudo para estar na vanguarda patinar tanto e limitar-se a seguir os concorrentes? “Ao contrário de outras companhias, a Microsoft nunca teve um sistema real de inovação. Alguns de meus colegas comentam que ela na verdade desenvolveu um sistema para minar a inovação”, disse Brass.

Ele trouxe então o exemplo do ClearType — sistema de suavização de fontes que eu adorava, quando ainda usava o Windows XP. Criado pelo time de Brass para facilitar a leitura em telas de LCD e assim alavancar o mercado de ebooks, o sistema passou tempos sem ver a luz do dia simplesmente porque outras equipes de dentro da Microsoft se sentiram ameaçadas pelo sucesso dele. O que aconteceu parece piada, de tão ridículo:

Engenheiros no grupo do Windows alegaram falsamente que [o ClearType] faria a tela entrar em curto quando certas cores fossem usadas. O chefe da divisão de produtos do Office disse que o recurso deixava tudo desfocado e dava dor de cabeça. O vice-presidente de produtos portáteis foi mais direto: ele apoiaria o ClearType e o usaria, mas só se eu transferisse o programa e os programadores para o controle dele. Como resultado, apesar de ter sido aclamado publicamente, ter tido promoção interna e garantido patentes, uma década se passou até que uma versão totalmente operacional do ClearType chegasse ao Windows.

Mas o pior foi o que ocorreu ao tablet PC desenvolvido em 2001: o vice-presidente a cargo do Office decidiu que não gostava do conceito e por isso não daria andamento ao projeto de adaptar os programas da suíte para uso com touchscreens. Como neste artigo de novembro de 2002 do BusinessWeek (spoiler: Brass pediu 20 engenheiros para dar andamento ao projeto e só recebeu 6).

Nem tudo é culpa de rinhas internas, porém: o vício de confiar-se em desenvolvimento de softwares com margens de lucro grandes sem correr riscos com criação de hardware inovador também teria impedido a Microsoft de brilhar, segundo Brass. Além, é claro, do timing terrível de alguns produtos (como o Zune).

Diante de uma humilhação pública dessas, é claro que alguém de dentro da empresa deveria responder. Frank Shaw declarou em um post no The Official Microsoft Blog que “medimos nosso trabalho pelo impacto amplo dele”, acrescentando que “inovamos em escala, não em velocidade” (demorou, mas hoje o ClearType está em cerca de um bilhão de PCs ao redor do mundo). Em suma, não negou nada, apenas tentou desviar o foco das declarações de Brass.

É divertido bater na Microsoft, hoje em dia? É, eu admito — sosumi. Mas não dá pra reagir de maneira diferente a uma empresa que apresenta um netbook alheio atrás de uma tela sensível ao toque como se fosse uma imensa inovação. Detalhe: a previsão de disponibilidade deste alterador de paradigmas é apenas “em 2010” — boa sorte pra adivinhar “quando em 2010”.

Se o Courier virar um produto real, de plástico, metal, vidro, silício e bits, pode ser que vejamos a gigante de Redmond inovar de fato — pode ser até que ela desbanque bonito o iPad, o que seria fantástico. Até lá, a Microsoft corre o risco de ficar presa para sempre numa disputa com a Rainha de Copas: correndo o máximo que pode simplesmente para não sair do lugar.

[dica do Alexandre Novarro]

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“Recordar é viver”, e eu não me canso de ver este vídeo:

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=N-2C2gb6ws8[/youtube]

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