Executivos da Apple e da Adobe comentam mudanças feitas nos termos de uso do SDK do iPhone

iPhone SDK 4.0

Estive fora do ar nos últimos dias resolvendo outros problemas, mas, quando voltei na manhã de hoje, notei que uma das coisas que mais deu o que falar durante o final de semana foi a mudança feita de surpresa pela Apple na seção 3.3.1 dos termos de uso do iPhone SDK, seguindo o que foi comentado no MacMagazine após o lançamento do iPhone OS 4.0. Em resumo, ela proíbe o uso de softwares ou ambientes de desenvolvimento intermediários ao Xcode ao preparar um app para distribuição na App Store, algo que provavelmente já pode ser identificado por ela durante a análise de um binário e rejeitado na hora.

Desconsiderando a opinião de quem ficou nervoso demais ao opinar sobre o assunto em nome da Adobe, o CTO da empresa, Kevin Lynch, foi breve ao comentar a ação da Apple. Segundo ele, o Packager para iPhone não desaparecerá do Flash Professional CS5 antes do lançamento ou em um posterior update, deixando a aceitação ou rejeição de aplicativos criados com ele a cargo da dona da App Store — aparentemente, ele não se deu conta de que trabalhar com essa ferramenta e dar de cara com um “não” é conta e risco de um desenvolvedor, mas no momento isso é tudo o que a Adobe pode fazer.

Por outro lado, Lynch defendeu os produtos nos quais suas equipes vem trabalhando há meses, alegando que o Packager para iPhone no Flash é apenas uma das dezenas de novidades na Creative Suite. “A CS5 é composta por 15 aplicativos com liderança na indústria, contendo centenas de novas funções e uma tonelada de inovações”, conta.

De fato, seria infantil deixar de adotar a nova edição da Creative Suite porque falta um recurso do qual anteriormente poucos notavam a falta. Mas agora, uma das coisas que a Adobe precisa garantir no que diz respeito ao Flash Professional é que suas ferramentas funcionem bem em outros dispositivos móveis, por meio da plataforma AIR — afinal de contas, nada impede que um desenvolvedor para iPhone abrace sistemas além dos da Apple com outras ferramentas (e vice-versa).

Por que rejeitar o uso do Flash Package é importante para a Apple?

Na situação atual, rejeitar aplicativos intermediários na criação de apps para iPhone OS possui duas razões principais.

A primeira, notada por John Gruber, do blog Daring Fireball, é que a Apple tem a intenção de fazer da sua loja móvel um local onde seja possível encontrar softwares criados do jeito certo para iPhones, iPods touch e iPads. O que a Adobe e algumas outras empresas aparentemente não notaram é que isso não se resume apenas ao que a Apple aceita ou não dentro de um produto, mas também engloba o que foi usado para criá-lo.

Quem conheceu o Mac há mais de uma década e acompanhou a transição do Mac OS 9 para o Mac OS X já deve saber que ferramentas destinadas a criar aplicativos para mais de uma plataforma não são o melhor caminho para quem precisa manter aplicativos em constante evolução. Talvez funcione bem para portar algo de um aparelho para outro, mas não há como ir muito longe dessa forma. É por isso que a Apple atualiza constantemente suas ferramentas de desenvolvimento com novas tecnologias: incluir novos recursos ao alcance de desenvolvedores ressalta que não há melhor maneira de criar apps para iPhone (e Mac OS também, creio eu) do que com o Xcode e o iPhone SDK — em um mundo perfeito, é claro.

Pelo jeito, a Apple teme que ferramentas de desenvolvimento intermediárias às suas causem problemas no controle de qualidade que ela mantém sobre os aplicativos. Tudo bem que, no caso do Flash, isso significaria um aumento de desenvolvedores e aplicativos na App Store, mas pare para pensar um pouco: na situação atual, ter mais de 185 mil produtos à venda não é lá um motivo de orgulho para ela.

A Apple até passa uma opinião contrária, mas quem é usuário sabe o quanto isso dificulta a busca por apps de qualidade. Com o Flash sendo usado para o iPhone OS, estima-se que isso sairia ainda mais do controle da loja para a plataforma — algo que a Apple certamente possui o direito de evitar.

Já a segunda razão é mais técnica e está relacionada com o lançamento do iPhone OS 4.0, na semana passada. Tudo bem que o novo sistema tira proveito do hardware mais recente dos iPhones e iPods touch em prol de multitarefa, mas o que também ficou claro por parte da Apple no anúncio do novo sistema é que eles não fazem (e nunca fizeram) milagres. Daí veio a ideia de limitar essa multitarefa por meio de diferentes serviços de APIs, componentes que atualmente não podem ser explorados por meio de ferramentas como o Flash Professional.

Devido a isso, não há como o sistema operacional reconhecer o uso de APIs para multitarefa em um aplicativo que não foi criado com as ferramentas padronizadas da Apple. Embora os aplicativos da App Store tenham agora a oportunidade de rodar em segundo plano, eles terão que ser capazes de fazer conforme a empresa quer, além de continuarem otimizados ao máximo com os recursos que ela fornece.

A opinião de Steve Jobs

Durante o final de semana, um executivo de uma desenvolvedora de apps para Mac (não para iPhone) disse ter conversado com Steve Jobs sobre as restrições aplicadas pelo iPhone SDK a componentes com o Flash Packager, citando o que foi dito por John Gruber em um dos seus artigos sobre o assunto. Jobs teria dito que a opinião de Gruber sobre a recente iniciativa da Apple é “perspicaz e não-negativa”, reconhecendo que ferramentas intermediárias ao iPhone SDK podem restringir o progresso da plataforma móvel da Apple.

Obviamente, quem é entusiasta das iniciativas da Adobe não vai pensar o mesmo. Ademais, acredito que cabe a cada um, com base no que usa ou em quais sistemas desenvolve, considerar se adotar apenas as ferramentas da Apple para criar softwares é algo bom ou não. Mas, ainda assim, não vai adiantar reclamar da Apple ou mesmo voltar ao passado para defendê-la, pois isso nem é preciso para justificar o que vem acontecendo de mau entre ela e a Adobe nos últimos tempos, só que por causa de outro Flash.

Independentemente de gostarem ou não do que ela fez, essa história está fadada ao mesmo desfecho da questão dos plugins para o Mobile Safari: no que diz respeito ao iPhone OS, não há praticamente nada a se fazer além do que Apple acha certo.

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