“Parafusos diabólicos” da Apple estão fazendo a iFixit perder (e vender) parafusos [atualizado]

Parafuso Torx no MacBook Air

Há quase dois meses falamos sobre os parafusos que a Apple tem usado externamente em iPhones 4 e MacBooks Air e os chamamos de “torx”. Hora da errata: eles não eram parafusos torx, e ficamos sabendo disso através da iFixit, que batizou essas pecinhas com o simpático nome de “Parafuso Inviolável do Mal com Cinco Pontas” e publicou um manifesto em vídeo, que você pode ver abaixo.

Qual o cerne dessa questão? Usando parafusos pentalobulares que ainda são raríssimos no mercado, a Apple previne o acesso dos consumidores às partes internas de seus produtos. Isso pode ser uma forma de assegurar que um cliente não vai conseguir abrir um gadget e violar a garantia, mas está sendo encarado como um plano diabólico para acelerar a obsolescência de aparelhos que, não fosse pelos parafusos, poderiam ser facilmente reparados.

Diferença entre parafuso torx e pentalobular

Os dois argumentos têm lá seu quê de razão (gadgets invioláveis resultam em garantias mais baratas para a Apple, mas depois que elas acabam, os consumidores ficam na mão) e a solução que a iFixit encontrou, além de protestar abertamente, foi vender “kits de libertação” para iPhones 4. Eles são constituídos por uma chave que mais ou menos consegue retirar os parafusos externos do smartphone, uma chave Phillips #00 e dois parafusos Phillips para substituir os pentalobulares — que deverão sair do processo completamente inutilizados.

Eu me pergunto a razão pra esse escarcéu. A iFixit tem interesse nessa questão dos parafusos, já que ela vive dos reparos que faz e das ferramentas que vende: quando a Apple lança um gadget que requer uma chave de fenda mágica que não existe, pega mal para os especialistas em desmontagem. Só que não tem como, sei lá, fabricar essa chave pentalobular em vez de dizer que tudo faz parte de um plano malevolente? (Engenheiros mecânicos, essa é a deixa de vocês!)

Para quem achar que o argumento “o produto que eu compro tem que ser meu” encerra a questão e bota a Maçã contra a parede, talvez o argumento usado por um dos leitores do Cult of Mac dê uma boa resposta: antes de você comprar um Mac, iPhone ou iPod e ele ser seu, ele era da Apple e ela fabrica os gadgets do jeito que quiser (guardadas as devidas limitações legais e afins, claro). Se um produto é vendido com o aviso de que há partes que não podem ser acessadas pelo consumidor, tecnicamente não há mal sendo feito.

Mas muito pior que usar um parafuso maléfico qualquer é a “troca de bateria” ou o “reparo” de um iPod shuffle sair pelo preço de um novo mais o frete. A reparabilidade de gadgets da Apple é historicamente baixa, muito baixa, um pouco até demais para uma empresa que se orgulha tanto de ser verde. O ano de 1984 pode não ter sido como 1984, mas essa história de ter que comprar um aparelho novo quando um velho dá defeito me faz pensar que estou num Admirável Mundo Novo.

Pense diferente, Apple! O planeta agradece, se os iPods puderem ser reparados em vez de trocados por novos.

Atualização (às 23h54)

Em uma espécie de continuação deste protesto (uma que muito me apetece e à qual eu dou total apoio), o pessoal da iFixit fez as contas e chegou à conclusão de que a bateria do iPhone 4 tem uma vida útil praticamente calculada para durar um ano, só o intervalo entre as atualizações.

“Mas não dá pra trocar só a bateria?”, você pode perguntar. Dá, mas custa metade do preço de um iPhone novo com contrato de dois anos. Se desconsiderarmos completamente o fator financeiro, argumentando que clientes da Apple querem mesmo é trocar de aparelho todo ano, fica no ar o desagradável cheiro de pilhas e pilhas de aparelhos sendo descartados ou reciclados quando poderiam continuar em uso.

VERDE, temos que pensar VERDE — e não estou falando deste verde, mas deste.

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