Por que o Brasil não deverá receber uma Apple Retail Store tão cedo

iMac rodando Windows

por Marcsheep

Desde 2006, o Brasil vem passando por mudanças relevantes na economia as quais têm impulsionado as vendas de Macs no país. De lá pra cá, o dólar baixou e o poder de compra da classe média aumentou, os usuários do iPhone começaram a descobrir outras linhas da Apple e tudo isso ajudou a aumentar a base de usuários da Maçã.

Desde então, comenta-se da necessidade de haver uma única Apple Retail Store em solo sul-americano, que não encontraria economia melhor do que o Brasil. Apple Stores são espaços de varejo planejados para oferecer uma experiência de compra totalmente diferente das lojas tradicionais (onde quase não há atendimento). A Apple busca proporcionar experiências de venda consultivas, nas quais primeiramente são levadas em consideração as necessidades do consumidor, que recebe assistência de profissionais Mac Genius treinados para oferecer suporte e responder as dúvidas de usuários que, em sua maioria, vêm do mundo Windows e não conhecem — e pré-conceituam — a plataforma Mac.

O treinamento desses especialistas que são orientados a “ajudar” e não apenas “empurrar” o produto (como em todas as lojas medíocres) é o que torna as compras nas Apple Stores experiências únicas. Enquanto isso, outras redes de varejo não querem capacitar seus funcionários a esclarecer dúvidas e ajudar os clientes. O resultado é isto aqui:

iMac rodando Windows

A cena acima foi protagonizada em Angola, na NCR. Mas já aconteceu e ainda deve acontecer no Brasil.

Pergunto a vocês, então: como um vendedor vai lhe vender um produto se ele nem conhece o que está oferecendo? Aqui vão alguns dos principais motivos/barreiras para que nós, brasileiros, recebamos uma Apple Store oficial neste ano de 2011.

1. Mercado

Macs ainda são caros e estranhos para muitos usuários. Uma compra dessas necessita de planejamento e um nível de informação maior do que outras marcas. Nós, do MacMagazine, representamos uma comunidade de usuários, enquanto o atentado a foto acima representa a realidade de todo um mercado consumidor imaturo e sensível a preços.

Somos um país que convive com o analfabetismo funcional; o que dizer, então, do analfabetismo digital? E não se enganem, o analfabetismo digital não é uma realidade apenas dos mais pobres — tenho certeza de que muita gente das classes A, B e C faz parte desse grupo.

2. Apple Stores são muuuito caras!

As lojas oficiais da Maçã seguem o mesmo padrão arquitetônico no mundo inteiro — são elegantes e espaçosas, o que torna o aluguel dos shoppings astronomicamente alto! Além disso, o já comentado treinamento dos funcionários não é feito por fadas voluntárias vindas de Infinite Loop: ele requer todo um investimento, o que não sai nada barato.

3. Apple Premium Resellers

Esta, acho, deve ser uma das principais barreiras. Apple Premium Resellers são lojas que vendem exclusivamente produtos Apple, mas que não são lojas oficiais. A Maçã licencia sua marca para quem desejar investir e abrir uma loja. Elas são menores (mais baratas) e buscam oferecer a mesma experiência das Apple Retail Stores, inclusive também com vendas consultivas, assistência técnica, encontros, workshops, etc.

Por serem menores, as APRs têm o tamanho exato (custos e operação) que o mercado sustenta. Isso é uma vantagem para os empresários. Elas são licenciadas para outras empresas, portanto a Apple Brasil não precisa pôr a mão no bolso para investir pesado — e possivelmente ainda cobra taxas por elas. Ou seja, é um modelo de baixo risco e ainda “lucrativo”.

Como a Apple Brasil é a licenciadora, caso haja interesse de alguém abrir uma Apple Premium Reseller no meio do sertão de Pernambuco, ela exigirá apenas que o “gênio” arque com as taxas de licenciamento, obedeça a alguns padrões no layout da loja, ofereça bom atendimento e compre os produtos diretamente com ela/sua distribuidora. Portanto, não é a Apple Brasil que analisa qual é a próxima capital na qual será aberta uma loja, são os empresários que a procuram para fazer o estudo do mercado, investir e inaugurar novos estabelecimentos.

Isso quer dizer que esse modelo oferece a oportunidade de a Apple Brasil espalhar pequenas lojas pelo país rapidamente (tempo é dinheiro), sem investir nada, com baixo risco e ainda lucrando. E no que isso atrapalha a vinda de uma Apple Retail Store, já que as APRs têm dado certo e estão se espalhando pelo Brasil?

Simples! Só São Paulo já conta com quase uma dezena de APRs, entre lojas da MyStore e da a2YOU. No site da Apple Brasil, são hoje 47 pontos de vendas listados, incluindo redes como Fast Shop, Colombo e outras. Vocês acreditam que os donos dessas APRs ficariam tão felizes quanto nós, com a vinda de uma Apple Retail Store? Eu penso que não.

Essa situação criaria conflitos entre as pequenas empresas que investiram dinheiro em licenciamento e treinamento dos funcionários de suas APRs, com a própria Apple Brasil. Outras empresas ficariam desinteressadas em investir no modelo com medo de concorrerem com a própria Maçã. E quem não ficaria?

O modelo tem dado certo e, de uns anos pra cá, várias grandes varejistas começaram a vender Macs e outros gadgets: Americanas.com, Extra, Walmart, Saraiva e algumas lojas têm até dedicado espaços dentro de suas estruturas voltados exclusivamente à experiência Apple, através dos chamados Apple shops.

· · ·

Logo da Apple com bandeira do BrasilAssim, macmaníacos, é dessa maneira que acredito que a nossa situação quanto a ter uma Apple Retail Store em solo tupiniquim não venha a mudar em 2011. Tanto para a Apple quanto para os consumidores, mais vale dezenas de Apple Premium Resellers, Apple shops e pontos de venda, do que uma ou outra Apple Store oficial. Mas não estamos abandonados: esses modelos têm se mostrado atraentes e tendem a continuar dando certo.

Outras duas possibilidades futuras podem ajudar (ou atrapalhar) a vinda de Apple Retail Stores:

  1. Copa e Olimpíadas: estas sim, devem trazer ao menos uma Apple Retail Store para o Brasil, porém, não devem se estender além do eixo Rio/SP, e devem permanecer como espaços de afirmação da identidade da marca (flagship stores).
  2. Com o gasto público subindo e o crescimento da economia, a indústria nacional não tem dado conta da produção, aumentando a inflação para 5,91%. O dólar está muito barato, e é crescente a necessidade de o Banco Central equilibrar a entrada para aumentar o dólar. O problema é: se a indústria nacional não está acompanhando e o BC ainda quer barrar a entrada de produtos do exterior, isso estimula ainda mais a inflação. Some a esse cenário o gasto público de construir às pressas — ao dobro ou triplo do preço — as obras de infraestrutura necessárias para a Copa e para as Olimpíadas. Será que nossa economia continuará estável daqui pra lá?

Estamos esperando! 😉

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