Mac Society: “Qualquer cor, desde que seja preto (ou branco)”

Steve Jobs como Henry Ford

Hoje vou me aventurar em um pouco de história. Existem uns pontos comuns muito interessantes dos tempos atuais da Apple em relação a um caso de absoluto sucesso mercadológico do início do século XX, que criou a indústria automobilística. As semelhanças entre estas duas empresas e seus mentores são espantosas. Surpreendentemente, traçar um paralelo entre Steve Jobs e Henry Ford não poderia ser mais apropriado e atual.

Henry Ford começou a mostrar seu talento com motores e máquinas ainda na infância, na fazenda de seu pai. Fundou a Ford Motor Company aos 40 anos, depois de trabalhar em cargos menores em grandes corporações, e, desde então, inovou o mercado através de atitudes consideradas lunáticas e risíveis que “certamente” o levariam à falência. Tinha especial interesse em reter talentos e logo tinha em seu organograma os melhores e mais apaixonados mecânicos de Detroit.

Ford era motivo de piada entre economistas, por vender seus automóveis por preços muito abaixo do que sua demanda permitiria, reduzindo ainda mais os preços ano após ano. Vendia os melhores carros por preços impraticáveis para o resto da indústria automobilística, que mal conseguia produzir suas próprias peças. Criou também maneiras de manter seus carros sempre em evidência na mídia através de anúncios, notícias, clubes de fãs, levando o carro para que pessoas experimentassem a simplicidade de dirigir o modelo T. Criou uma vasta rede de revendas partilhando o enriquecimento de suas franquias e permitindo a presença da Ford em praticamente todas as cidades da América do Norte. Mesmo com preços muito baixos, o crescimento dos lucros da Ford superava 100% a cada ano. Em 1918, metade dos carros nos EUA eram modelos T — fase em que Henry Ford disse sua famosa frase “O cliente pode ter o carro da cor que quiser, contanto que seja preto.” Até que o mercado aprendesse a reagir à Ford, a empresa produzia um terço de todos os automóveis do mundo. A Ford era sinônimo de medo, obsessão, fascínio, inveja, e a imagem de seu fundador frequentemente transitava entre lunático e gênio. Troque o nome Henry Ford por Steve Jobs e “automóveis” por “computadores” (na falta de um termo melhor) e provavelmente não perceberá muitas outras diferenças.

Steve Jobs como Henry Ford

Você acredita em reencarnação?

Uma lenda urbana já esquecida no tempo conta que, certa vez, Henry Ford contratara uma consultoria para rever todos os processos produtivos de sua nova fábrica, conhecida como “Rouge Plant”. Durante meses todos os processos foram analisados e remontados. Em uma das últimas visitas do consultor, Henry foi surpreendido com uma pergunta: “Sr. Ford, sua fábrica detém os melhores processos, cargos, funções de trabalho e produtividade exímios. Porém, todos os dias em que visitei o senhor em sua sala, passava em frente a uma sala próxima, o que me fazia imaginar ser de um alto executivo e não podia deixar de notar que, além de não ter atribuições em seu organograma, esse funcionário estava quase sempre com as pernas na mesa e, volta e meia, comendo uma maçã.” [Interessante…] Henry Ford dava especial atenção ao consultor e, com um breve sorriso, respondera: “Esse homem desocupado, com os pés sobre a mesa, foi o idealizador de processos da fábrica responsáveis por multiplicar por cinco a nossa eficácia e é também o mentor de ‘detalhes’ em nossos carros entre os quais faróis, buzina, retrovisor, para-lamas, vidros basculantes e muitos outros. Aquele desocupado, como o senhor o descreve, é responsável sozinho por 80% de todas as inovações da Ford.”

Este conto mostra que, para uma empresa se manter na vanguarda da inovação, é necessário que alguns de seus colaboradores tenham o talento de manter suas cabeças fora do chão da fábrica. Com uma visão distante, afastada ou até mesmo infantil do meio produtivo, permitindo respostas como a que Steve Jobs deu ao receber de engenheiros 38 razões pelas quais o iMac de 1998 era impraticável. “Não, nós vamos fazer assim mesmo. Porque eu sou o CEO e estou dizendo que vai ser assim e pronto.” Ou sua ordem para que a placa-mãe de seus computadores fossem refeitas simplesmente para ficarem mais bonitas. Quer saber aonde isso deu, além de muito ódio e lágrimas nas fabricantes de circuitos? Olhe as entranhas de um Mac Pro e sinta uma vergonha instantânea de seu PC, seja ele qual for. Eu realmente não saberia dizer um exemplo melhor de “manter sua mente completamente fora do processo produtivo”.

Wall-E - Mac Pro (Eve) e PC velho

Mac Pro e a robô Eve, paixão de Wall-E, são assinados por Jony Ive. Qualquer semelhança… é de propósito, mesmo.

Procure apenas um exemplo entre todos os megaempreendedores que não seja facilmente chamado de lunático. E digo mais: quer ser um ótimo profissional? Seja extremamente competente e você provavelmente trabalhará para um deles. Jony Ive que o diga.

Manter a cabeça nas nuvens e somente a ponta dos seus pés no chão. Afinal, não é assim que se dança?

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