Amsterdã quer ser a Palo Alto do mundo pós-PC

Ícone - Appsterdam

por Marcos Gurgel, da Tapush

Appsterdam. O trocadilho resume bem a proposta: fazer de Amsterdã a capital dos apps. Ou, ao menos, colocar a cidade holandesa no mapa da indústria mundial de software. Essa é a visão de Mike Lee, veterano programador com passagem por empresas como Apple, Tapulous e Delicious Monster, que decidiu fixar residência na cidade e agora tenta convencer seus colegas a fazerem o mesmo. No final de abril, ele publicou um texto no qual batizava sua mais nova ideia e listava os motivos que faziam da cidade o refúgio ideal para criadores de apps.

Ícone - AppsterdamA meta de Appsterdam não é modesta — ser para aplicativos o que Hollywood é para filmes e a Broadway para musicais. Lee quer fazer da cidade um polo para profissionais ligados à criação de apps, onde não só encontrariam pessoas com os mesmos interesses, como contariam com auxílio de colegas e especialistas para se estabelecer e trabalhar.

Se você precisa de um contador ou de um advogado, se precisa de ajuda para encontrar um lugar para ficar, o que você precisar, nós ajudaremos. Esta é a cidade ideal para programadores, designers e profissionais de criação. Aqui é a sua nova casa.

Mike Lee é o primeiro a reconhecer que o mundo já tem um ponto de convergência de programadores, chamado Vale do Silício. Era lá que morava antes de embarcar numa viagem de um ano ao redor do mundo — a qual terminou na capital holandesa, onde decidiu ficar.

“Eu adoro a Califórnia”, explica ele no post-manifesto que deu início ao movimento. “Mas a região está cheia de problemas, a começar pelo custo de vida.”

O atual clima político dos Estados Unidos também foi um fator decisivo em sua ida para a Europa. Lee acha que há americanos querendo sair do país em busca de uma vida mais tranquila, ao mesmo tempo em que há estrangeiros querendo fazer parte da indústria de software, mas que encontram barreiras na política de imigração dos EUA.

“O Vale do Silício é o que é por causa dos engenheiros, não por causa do dinheiro”, explica o autointitulado prefeito de Appsterdam. “A abundância de capital de investimento desvirtuou a empresa de garagem do passado. Queremos pegar essa parte boa do Vale do Silício — a união de profissionais com mentalidades semelhantes — e levá-la para um lugar melhor.”

Lee considera Amsterdã a cidade mais “habitável” do mundo, com certa razão. Com um custo de vida mediano se comparado ao de outras capitais europeias, Amsterdã combina tradição e liberalidade de maneira única. As opções de lazer e cultura são das melhores que a Europa tem a oferecer e a vida noturna tem atrativos para todos os gostos. A fama de lugar tolerante é merecida, e resulta num curioso ambiente pacato e familiar, ainda que repleto de comportamentos considerados transgressores em outras regiões. Por fim — e sobretudo —, há a facilidade de comunicação: o inglês é praticamente o segundo idioma da cidade e uma boa parcela dos habitantes é fluente em três ou mais línguas.

O mundo pós-PC, como Steve Jobs apelidou o fenômeno atual de renascença criativa da indústria de hardware e software, parece ser a oportunidade perfeita para tocar uma empreitada desse porte. O recém-criado e já bilionário mercado de apps abriu espaço para milhares de desenvolvedores independentes, capazes de se manter com uma infraestrutura pequena e trabalhar de praticamente qualquer lugar do mundo. É esse contingente que Mike quer convencer a tentar a sorte em Appsterdam. Mas como começar?

“Visite Amsterdã”, convida Mike. “Tire férias ‘a trabalho’. Venha passar o verão na Europa, conhecer a comunidade, passear com a família e participar das nossas palestras e encontros. Mesmo que ninguém se mude para cá, só de ter muita gente da nossa indústria vindo para o mesmo lugar uma vez ao ano já será o bastante para construir uma comunidade autossuficiente.”

A confiança de Lee parece estar rendendo frutos: nos dois meses após seu lançamento, Appsterdam já contava com centenas de adesões. No fim de junho, ele e vários voluntários promoveram o lançamento oficial do movimento — um evento lotado que, entre festas, palestras e tours pela cidade, se estendeu por três dias.

Os primeiros meses da iniciativa, batizados de “Verão de Appsterdam”, seguem um único mote: como posso ajudar? Designers e programadores estão concentrados em criar a identidade visual, o site e o material promocional da marca Appsterdam, mas há também colaboradores de perfil administrativo e organizacional, que ajudarão desenvolvedores a se mudar para a cidade, prestando assistência no processo de imigração e abertura de empresas, na procura e oferta de empregos, escritórios e apartamentos, e até na mediação com fundos de investimento.

Se Lee tiver razão e Amsterdã for mesmo um enorme celeiro de apps esperando para acontecer, é questão de meses para que tamanha empolgação e esforço se reflitam nas prateleiras virtuais de app stores mundo afora.

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