Discussão: a eterna insatisfação de palpiteiros com a Apple

Avião caindo

Não é de hoje que pessoas ligadas ao mercado financeiro (principalmente acionistas da Apple) e palpiteiros de plantão falam que a Maçã já atingiu seu pico e que está agora condenada ao fracasso. É fato que isso acontecerá em algum momento, afinal, nenhuma empresa consegue permanecer no topo por anos e mais anos.

Avião caindo

Contudo, mesmo com a morte do gênio responsável pela criação da empresa e por colocar ela no lugar em que se encontra hoje, é pra lá de precipitado e descabido falar uma coisas dessas.

É difícil conversar sobre esse assunto na internet, onde a grande maioria é valentona, impaciente e se sente agredida com opiniões contrárias. Mesmo assim, depois de ler um interessante artigo de Dan Pallotta, do Harvard Business Review, resolvi escrever este.

Resumidamente, Pallotta conseguiu captar exatamente o que está acontecendo nos dias de hoje. Para ele, pessoas estão infelizes com a própria vida e esperam que o próximo lançamento da Apple conserte esse problema.

Muitos desses palpiteiros, como Peter Cohan, da Forbes, resolveram mirar seus ataques em Tim Cook, afirmando que ele vem errando bastante no comando da Apple. Pallotta resolveu pontuar algumas das supostas falhas de Cook desde que assumiu o comando da Apple:

  1. Resultados financeiros aquém (para Wall Street, não para a Apple).
  2. Volatilidade das ações.
  3. Problemas com controle de qualidade.
  4. Novos comerciais que não encantaram.
  5. Reviews negativos.
  6. Lançamento do iMac e do iPad mini sem tela Retina.
  7. Contratações erradas (como a de John Browett) enquanto executivos importantes deixam a empresa (como Jerry McDougal).

O problema é que isso não é algo particular de Cook. Jobs passou pelas mesmíssimas situações enquanto era CEO da empresa. Não lembra? Pois aqui vai:

  1. Sobre resultados, não precisa dizer que Jobs sofreu bastante até que a Apple estivesse saudável novamente desde quanto ele voltou à empresa, em 1997.
  2. Em 2008, as ações da Apple caíram mais de 50%.
  3. MobileMe, um serviço com qualidade pra lá de duvidosa, e “Antennagate”, que apesar de ter sido tudo aquilo que a imprensa falou, foi uma falha de engenharia.
  4. Nove anos separam a campanha “Pense Diferente” (“Think Different”) e a “Get a Mac”, duas das mais famosas da empresa.
  5. Reviews negativos? Pense na rede musical Ping e no próprio iPhone 4 (“Antennagate”).
  6. Convenhamos, iMac com tela Retina não era algo certo, imprescindível. Já o iPad mini, diria que foi um erro mesmo. Tanto quanto o primeiro iPad vir sem câmera (para FaceTimes e Skypes da vida).
  7. Tony Fadell (ex-vice-presidente da divisão iPod), Fred Anderson (ex-CFO), Nancy Heinen (ex-conselheira geral), Ron Johnson (ex-vice-presidente sênior de varejo), Bertrand Serlet (ex-vice-presidente sênior de engenharia de software) são alguns dos nomes que deixaram a empresa sob o comando de Jobs — Johnson saiu da Apple quando Cook era CEO, mas a articulação para sua saída aconteceu sob a batuta de Jobs. Sobre contratações ruins, podemos citar Mark Papermaster (ex-vice-presidente sênior de engenharia de hardware).

Tim Cook na TIME

Uns enxergam o copo como meio cheio; outros, meio vazio. Cook está no comando da Apple há pouco mais de um ano. Nesse período, as ações valorizaram — sim, quando ele assumiu a NASDAQ:AAPL valia cerca de US$350 e hoje, mesmo com as quedas, está valendo mais de US$500 — e vimos evoluções interessantíssimas em alguns produtos da empresa como o MacBook Pro com tela Retina, o iPhone 5 e o iPad mini. Claro, todos nós queremos que Cook nos surpreenda e lance aquele produto que ninguém espera ou que traga uma inovação incrível para alguns dos produtos já estabelecidos. Mas, como disse, o cidadão está na cadeira de CEO há pouco mais de um ano!

Os produtos revolucionários da Apple (Mac, iPod, iPhone e iPad) chegaram ao mercado em 1984, 2001, 2007 e 2010. Como o próprio Jobs disse inúmeras vezes, uma empresa deve se considerar afortunada em conseguir, ao menos uma vez, criar um produto revolucionário. A Apple conseguiu. Vários! Mas isso não quer dizer que essas revoluções acontecem de ano em ano, basta fazer as contas. Dezessete primaveras separaram o Macintosh do iPod; seis separaram o iPod do iPhone; e três separaram o iPhone do iPad — sem contar que, quando o iPad foi lançado, a grande maioria desdenhou dele, dizendo ser apenas um iPhone gigante (ou seja, nada de ser um produto revolucionário).

Depois de lançamentos como esses, tudo o que a empresa quer é refinar mais e mais seus projetos, ao ponto de deixá-los ainda melhor. Se você lançou algo que mudou o mercado e caiu completamente no gosto do povo, por que você vai jogar isso tudo fora e tentar revolucionar novamente? Para a Apple, o computador pessoal, o MP3 player, o smartphone e o tablet são “problemas resolvidos”. Agora, ela está pensando apenas em melhorá-los cada vez mais e em resolver outro problema.

Seria ótimo vermos a Apple lançando mais um produto revolucionário, o que é totalmente diferente de ela ter que lançar um desses agora, como sugere Therese Poletti em seu artigo “Por que a Apple precisa de um novo produto hit agora”. Como bem falou John Gruber, do Daring Fireball, por que a Apple? Por que não a Samsung? Melhor: por que não a Dell, a Hewlett-Packard (HP) ou a HTC? Essas empresas, muito mais do que a Apple, precisam colocar um produto inovador no mercado. Caso contrário, podem inclusive sumir do mapa.

Se coloque no lugar de Cook: você está à frente da empresa mais valiosa do mundo. Tem mais de US$120 bilhões de dinheiro em caixa. Seus três principais negócios (iPhone, iPad e Mac) crescem a cada trimestre — o iPhone e o iPad ainda na casa de dois dígitos! Por que os palpiteiros insistem em dizer que a Apple *precisa* lançar um novo produto revolucionário hoje, caso contrário, vai para o buraco?

Estrategicamente falando, não faz sentido nenhum para a Apple lançar um produto desses agora. Ela poderia muito bem passar mais alguns anos refinando seus produtos e ganhando muito, mas muito dinheiro com isso. As vendas podem cair um pouco aqui, as margens podem diminuir ali, mas muita coisa teria que acontecer para o jogo virar assim, de repente, e a Apple se ver numa enrascada — como aconteceu com a Research In Motion (RIM), por exemplo. Aí sim valeria a pena para ela chutar o pau da barraca e lançar um novo produto revolucionário!

Esse parágrafo do texto de Pallotta resume bem:

Os críticos que estão gritando agora são preguiçosos. Eles estão resmungando em vez de olhar para o todo. Como [crianças] de dois anos de idade, eles não sabem o que querem. E não ficarão felizes quando tiverem, de qualquer maneira. A Apple poderia lançar um carro novo e eles diriam que a empresa está morta, pois apostam seus futuros numa indústria que não conhecem. Como exemplo, a entrada dela no mercado de telefonia móvel. Aposto que, se a Apple lançar uma máquina do tempo, eles afirmarão que ela não é rápida o suficiente.

Nota de 1.000 dólares

Não entendo quase nada do mercado financeiro, mas uma rápida pesquisa comparativa entre Apple, Google e Amazon.com deixa claro como as ações da Maçã são tratadas pelo mercado. O price to earnings (normalmente designado P/E ou PER) é um indicador utilizado para analisar o valor de uma ação. Ele representa a relação entre o preço e os lucros de uma determinada empresa. Quanto mais elevado for o valor, mais cara está a ação (e, como tal, menos atrativa). Pegando Amazon, Google e Apple — ícones da indústria — por exemplo, temos respectivamente os valores 3.868, 23 e 11,4!

Hoje, 23/1, dia de divulgação de resultados financeiros da Apple, ela quebrará novos recordes, apresentando resultados incríveis em quase todas as linhas de produtos. Mas isso provavelmente não será suficiente, pois o ser humano quer sempre mais, mais, mais…

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