Desabafo: sinto pena dos que criam, distribuem e/ou comercializam produtos/serviços digitais (e me incluo nessa)

Piratas do Caribe

É bastante corriqueiro ouvirmos as pessoas discutindo, alegres e saltitantes, as belezas que o mundo moderno nos proporcionou, com toda a informação que a internet disponibiliza, as facilidades e comodidades dos meios digitais, o quanto nossas vidas se tornaram mais fáceis em tantos aspectos e como é bom poder fazer muito mais em dias deste ano 2013 — os quais têm as mesmas 24 horas dos dias de séculos passados.

O bacana é que esses benefícios afetam a todos nós, ao menos os que têm mínimo acesso a essas vantagens do mundo moderno — a inclusão digital está aí. Mas é importante notar que boa parte desses usuários/consumidores também são criadores, distribuidores ou vendedores de produtos/serviços digitais. E desses, meus caros, muitas vezes eu sinto pena.

Pior: eu faço parte de tal bolo.

Pirataria

Piratas do Caribe

Infelizmente temos que de novo bater nessa tecla. Pra mim, o “sucesso” da pirataria hoje baseia-se no que eu chamo de três “I”s:

  • Ignorância: creio não ser o caso de nenhum de vocês, leitores de um site como o MacMagazine. Mas é fato: muita gente pirateia sem nem ter noção do que está fazendo. Para muita gente, comprar um CD de música por R$5 parado num semáforo significa que você está abrindo mão apenas da alta qualidade da case e do encarte originais, mas não que você está dando dinheiro para alguém que está lucrando ilegalmente em cima do trabalho alheio.
  • Impunidade: sabem por que a maioria das pessoas hoje não andam no carro sem cinto de segurança? Não, não é porque sabem profundamente da importância desse item para as suas vidas. É porque, de alguns anos para cá, a fiscalização se tornou mais acirrada e, quando o povo sente nos bolsos, aí sim toma alguma atitude. No caso da pirataria seria a mesma coisa: quando as pessoas começarem a ser punidas com multas ou até com prisões, a coisa começará a mudar.
  • Imediatismo: é muito *fácil* e acessível piratear qualquer coisa no mundo digital. No conforto da sua casa, com poucos cliques de mouse você consegue baixar um software, um filme ou um álbum de música, por exemplo, e em poucos minutos (ou até segundos, considerando as conexões de hoje em dia) já ter a coisa ali para consumo imediato. Foi justamente mirando este ponto que a Apple tornou a iTunes Store também um grande sucesso, mas ela poderia ser absurdamente maior se a pirataria não existisse.

E não venham dizer que a pirataria só continua devido aos preços elevados. Por um tempo eu também acreditei nisso, mas minha teoria foi por água abaixo quando vi gente pirateando apps de US$1, US$2, até meros US$10.

O que nos leva ao próximo tópico.

Preço vs. valor

A Apple acertou em cheio quando promoveu a sua loja de aplicativos a partir dos chamados “micropagamentos”. A ideia hoje não é faturar alto em cima de cada venda, e sim vender muito para, no somatório da coisa toda, conseguir uma receita considerável.

Esse “novo” modelo da App Store acabou mexendo com toda a indústria, é claro. Quem diria, há 5-10 anos, que hoje poderíamos comprar um upgrade de um sistema operacional por US$20? Ou uma suíte de produtividade completa por US$60? Ou até mesmo um excelente e já avançado editor gráfico para Mac por US$15?

Felizmente, para todos nós, os tempos são outros. Pra mim — e acredito que para muitos de vocês — é muito *prazeroso* navegar pela iTunes Store, pela iBookstore e pela App Store, e de fato poder comprar músicas, filmes, livros e aplicativos com muita rapidez e facilidade, e ainda com a feliz sensação de estar contribuindo com o trabalho alheio e fazendo a sua parte para que novos projetos bacanas saiam daquilo ali.

O problema é que essa nova cultura acabou acostumando muito mal as pessoas. Eu hoje enxergo facilmente, na visão de muitos consumidores, um abismo enorme entre apps gratuitos e apps de US$1, e outro abismo tão grande até os apps que custam US$2 — que dirá algo acima disso. As pessoas realmente consideram certos softwares com esses preços “caros demais”.

É aí que entra o conceito de “valor”, o qual é totalmente relativo. Eu posso ir a uma lanchonete chique, pagar R$30 por um sanduíche e sair de lá com um sorrisão na cara, já planejando um futuro retorno. Tanto quanto posso me decepcionar por ter me disposto a pagar um preço *acima da média* por uma refeição que não ficou à altura do que eu esperava. Da mesma forma, posso descobrir um boteco que cobra R$3 num sanduba que para mim é até mais delicioso do que aquele outro. Ou então, mais uma vez, simplesmente comprovar que “a gente recebe pelo que paga”.

Essa mesma coisa pode (e deve!) acontecer no mundo virtual. Não necessariamente um software de US$50 é algo excelente, tanto quanto existem apps de US$2 que nos surpreendem. Outro dia mesmo eu fiz um artigo aqui no site sobre as extensões que utilizo no Google Chrome e um dos leitores ficou animado com a minha dica do Boomerang, mas depois desistiu de usá-lo quando viu que custa US$5 mensais. Pessoalmente, o serviço é tão válido e importante para mim que se ele custasse três vezes mais que isso eu continuaria pagando muito satisfeito.

Balança convencional

Fazer essa diferenciação é importante para entendermos que às vezes até mesmo um produto/serviço gratuito pode não ter valor nenhum para determinadas pessoas. Assim, se você tem interesse em alguma coisa, coloque esse valor que você dá numa balança de forma justa e veja se o preço está dentro do seu orçamento, em vez de sair reclamando por aí que aquilo deveria custar menos. Fazendo isto você está justamente desvalorizando algo que lhe despertou o interesse — e tenho certeza de que você não gostaria que fizessem o mesmo contigo, seja você um médico, um arquiteto, um publicitário, um advogado ou quem sabe até um marceneiro.

E quando a pessoa se interessa e dá muito valor a algo mas acha o seu preço alto demais (ou até “aceita” o preço, mas não pode pagar), o caminho é 1. adiar a compra e se planejar, 2. buscar uma alternativa mais em conta ou 3. simplesmente desistir da coisa. Nunca, nunca é roubar.

Publicidade

Se tem uma coisa que eu vejo o pessoal abominar por aí é propaganda. Aliás, muitas vezes o mesmo pessoal que amaria não ter que pagar por softwares, mas que odeiam apps gratuitos apoiados por publicidade. Eu pergunto se esses também querem que o desenvolvedor lhes leve o café da manhã na cama e façam uma massagem nos pés.

Todos temos contas a pagar no final do mês, pessoal.

Steve Jobs apresentando o iAd

É aí que eu vejo muito do que sofremos aqui no site, e que se aplica de maneira geral. Mais uma vez, meu post das extensões do Chrome levantou uma rápida discussão nos comentários sobre o porquê de eu não ter citado, entre as cinco que selecionei, um plugin que bloqueia anúncios na web.

Talvez o meu trabalho com o MacMagazine tenha contribuído imensamente para isso, mas eu não coloquei no post, não uso nem nunca usei uma extensão desse tipo por simples e puro bom senso. Publicidade é justamente o principal (senão o único) meio de receita da grande maioria dos sites/blogs que visitamos diariamente, então usar da tecnologia para bloquear isso é o mesmo que passar a perna em toda a equipe responsável — de novo — por um trabalho que a pessoa valoriza.

É engraçado como as pessoas estão tão acostumadas a pagar por revistas e jornais, mas não se importam de, mesmo assim(!), ainda verem propagandas às vezes em mais da metade das páginas do veículo. Não só veem, como não saem rasgando essas folhas nem as pintam de preto. Por que então na web, onde as coisas costumam de uma maneira geral ser todas abertas e de graça, a pessoa se vê no direito de fazer isso?

A coisa aqui tem muita relação com a ignorância sobre pirataria de outros conteúdos. Os indivíduos pensam que eles são “apenas mais um” e que aquele ato não fará diferença nenhuma. Todavia, no final das contas, a realidade é que se todos (ou até um grupo maior de pessoas) pensassem tão pequeno assim sites como o nosso logo deixariam de existir, desenvolvedores desistiriam de criar apps e por aí vai. É um ciclo muito triste, totalmente destrutivo.

E não achem que isso é apenas uma teoria: esse tipo de coisa acontece todo santo dia.

·   ·   ·

Talvez se as pessoas tivessem uma noção melhor do que está realmente por trás do desenvolvimento de um software, da criação e da manutenção de um serviço online ou de como é cuidar diariamente de um site como o nosso, por tantos anos, as coisas mudariam a tempo de bons trabalhos não serem desperdiçados.

A esperança ainda vive. 🙂

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