Review: Pebble, o smartwatch

Usando o smartwatch Pebble

por Cesar Barscevicius [@cesarbars]

Ainda era abril de 2012 e aqui no MacMagazine fiquei sabendo de uma nova ideia criada por um grupo de jovens de Palo Alto (Califórnia, Estados Unidos). Eles queriam revolucionar um produto difundido por um brasileiro e que há muito tempo permanecia sem grandes mudanças: o relógio de pulso.

Com apenas alguns dias do lançamento do projeto no site de crowdfunding Kickstarter, Eric Migicovsky — o líder do grupo — e sua equipe já tinham conseguido angariar bem mais que os US$100 mil que pediam para fundar o projeto.

Usando o smartwatch Pebble

Não tive dúvida. Conferi o vídeo, chequei os recursos e as propostas do projeto e me tornei um “investidor” do Pebble no Kickstarter. No final do prazo, o Pebble foi o projeto que mais arrecadou fundos do portal, superando a marca de incríveis US$10 milhões!

Nota: sou desenvolvedor Apple e uma das coisas que mais me frustrava no Nike+ FuelBand, que eu já usava naquela época, era a limitação do produto de não permitir acesso a um SDK que possibilitasse sua comunicação com apps de terceiros. Vi no Pebble uma grande possibilidade de testar as novas fronteiras que a revolução dos relógios inteligentes poderia proporcionar, assim como a revolução trazida pelo iPhone ao mundo mobile.

Envio

Nem tudo são flores, no mundo do Kickstarter; a grande limitação da maioria dos produtos fundados por lá é que os prazos de entrega na maioria das vezes são exorbitantes. Porém, há uma explicação pertinente por trás: você está comprando uma ideia que ainda precisa ser desenvolvida e fabricada na China.

Quase oito meses depois de ter decidido comprar o relógio, um update do projeto via email finalmente definiu um prazo para inicio dos (atrasados) despachos para os investidores do projeto: 23 de janeiro deste ano era a data.

O Chegou?, aplicativo do Fernando Saragoça, me avisou no dia 27 de fevereiro (quase dez meses depois de comprado) que o relógio vindo de Hong Kong estava me esperando (juntamente aos impostos) no posto dos Correios aqui perto de casa.

Primeiras impressões

O ditado já dizia: a primeira impressão é a que fica. A equipe por trás do Pebble levou isso a sério e concebeu uma embalagem simpática e de apresentação agradável ao produto.

Caixa do Pebble

Uma das features mais legais do Pebble são seus sensores, como o de luminosidade, o acelerômetro e um detalhe especial: o smartwatch conta com um motor vibratório (assim como o dos celulares) para que você perceba com uma leve vibração no pulso quando alguma notificação é recebida pelo dispositivo.

Uma das coisas que fiz ao logo ao ligar o relógio pela primeira vez foi enviar um iMessage para o meu iPhone a fim de testar como era a exibição da notificação na tela de LCD epaper — com mera 1,26 polegada — do relógio.

Usando o smartwatch Pebble

A exibição da mensagem é satisfatória, mas senti falta da vibração no meu pulso indicando o ocorrido. Mesmo depois de muita investigação buscando algum ajuste para ativar essa função, constatei que o motor que faz a vibração do meu Pebble havia chegado “morto”, isto é, DOA.

Nem preciso dizer que fiquei decepcionado. Depois de esperar quase um ano para colocar as mãos em algo que queria tanto ver funcionar, uma das principais funções da minha unidade estava comprometida. Entrei em contato com o suporte da empresa no mesmo dia. Duas semanas depois, a resposta no meu email era de que eles se responsabilizariam em me encaminhar outro Pebble sem nenhum custo adicional.

Isso já faz um mês e ainda espero a confirmação de despacho.

Hardware

Comprei o Pebble a US$115 — preço de bom relógio “normal” (nos EUA), então o que esperava era uma qualidade de montagem que estivesse proporcional ao valor gasto. Algumas soluções encontradas no desenvolvimento do produto são interessantes, como o conector para carregá-lo. Seu funcionamento é muito próximo ao MagSafe que equipa toda a linha atual de notebooks da Apple.

GIF do conector do Pebble

Entretanto, tanto a pulseira quanto os botões do relógio têm um aspecto bastante “barato”. Provavelmente por ser resistente a até 5atm sob a água, os botões precisam ser apertados com certa força para poderem funcionar, além de não apresentarem bom feedback ao usuário. A pulseira veste bem, mas é de plástico e não tem absolutamente nada de especial.

O Pebble das fotos é da cor “Jet Black” (preta). Além do preto, existem também outras quatro cores disponíveis. Pessoalmente, não achei o meu bonito, ao que parece (as outras cores ainda não tiveram sua produção iniciada). Para mim, a versão “Cherry Red” (vermelha), é a mais atraente.

A tela não é nada sensacional, mas também não faz feio, principalmente sob sol forte, em que a maioria dos LCDs de celulares costumam ser difíceis de utilizar. Pela tecnologia usada não ser e-ink, como o Kindle, e sim um LCD epaper, a taxa de resposta é suficiente para renderizar os elementos do sistema operacional sem grandes problemas. Sua definição não é nada que se compare às telas Retina da Apple, porém como a leitura de texto no pequeno display é bastante esporádica, os pixels passam quase que despercebidos.

O anunciado no Kickstarter sobre duração de bateria dizia que a autonomia poderia atingir até 7 dias. Tenho usado o Pebble sempre conectado ao meu iPhone, mas mesmo depois de um mês de uso ainda não consegui atingir sequer 4 dias sem que a bateria acabe no meio do dia — é um sentimento frustrante querer saber a hora e olhar para o relógio sem bateria. #firstworldproblems

A FuelBand tinha uma duração de bateria mais satisfatória que o Pebble e um diferencial que se provou ser decisivo na facilidade de recarregar o relógio: o Pebble requer um cabo proprietário, único, para carregar em uma porta USB. A FuelBand não requer nenhum cabo extra, sendo apenas necessário encaixá-la diretamente em alguma porta USB para fazer a recarga. Por mais de uma vez me vi saindo de casa pela manhã e a bateria do relógio acabar sem avisar — é chato, ainda mais quando você lembra que não está com o cabo.

Software

Este é o maior problema do Pebble — e provavelmente a maior virtude que um bom smartwatch do futuro deverá ter.

Se passaram quase dez meses do projeto no Kickstarter até o produto começar a ser despachado para os compradores. Essa demora se justifica pelo lento processo de negociação com fornecedores para os componentes do relógio, e a montagem de uma linha de produção em Hong Kong, capaz de produzir os dezenas de milhares de Pebbles.

Porém, como desenvolvedor, sei que não é necessário finalizar a linha de produção do produto para que se possa trabalhar no software. Grandes empresas fazem esses dois trabalhos (desenvolvimento do processo de fabricação e desenvolvimento do software) juntos, simultâneos.

Logo, a equipe teve nove meses com protótipos funcionais e finais nas mãos para produzir o software e o sistema operacional, enquanto em paralelo todo o processo de produção era conduzido na Ásia. É nesse ponto que eles falharam.

Screenshot chata do Pebble

Todas as vezes em que o relógio tenta se conectar ao iPhone, esta mensagem — inconveniente — aparece.

Em um primeiro olhar, o SO possui uma experiência até interessante ao usuário. É relativamente ágil, possui animações elegantes entre views e algum cuidado com a interface. Porém, praticamente _nada_ do anunciado no Kickstarter chegou às mãos dos usuários funcionando. Isso também inclui toda a ferramenta do SDK — que possibilitava a desenvolvedores de apps se comunicarem com o relógio e era justamente a minha maior motivação para comprar o projeto.

Todas as funcionalidades interessantes vistas no vídeo do projeto, como se comunicar com apps para fazer uso da localização geográfica em corridas, ciclismo, timer, etc.… nada disso funciona na versão atual do seu firmware.

O Pebble ainda não possui cronômetro. Evidentemente isso pode aparecer com uma nova atualização do firmware, mas novamente coloco minha experiência em foco: sou desenvolvedor e sei o trabalho _quase nenhum_ para escrever algumas linhas de código e implementar um timer nativo desde a versão 1.0 do firmware.

No atual firmware as funcionalidades do relógio se resumem a:

  • Notificações de chamada e mensagens;
  • Relógio (com diferentes visuais de face — watchfaces — instaláveis pelo app do iPhone/Android);
  • Alarme (usa o motor vibratório para notificar — nunca consegui usar :-P);
  • Música (checar a música que está tocando no celular e avançar/voltar a faixa);
  • Jogo (cobrinha, hehe);
  • Ajustes (é uma funcionalidade?).

Uso

O Pebble é meu relógio do dia-a-dia há pouco mais de um mês. Nesse período pude observar alguns usos bastante interessantes de algumas funções — até mesmo inesperados — e sentir muito a falta de outras.

O Pebble tem um app que serve simplesmente como utilitário para sincronização do horário, restores/updates de firmware e instalação de novas faces de relógio. O aplicativo definitivamente não foi o foco da empresa, mas cumpre sua função; serve de suporte ao produto que está no seu pulso.

O recurso mais legal do smartwatch são as notificações sobre chamadas e mensagens. Quando o vídeo do produto “vendia” que isso seria algo útil eu até duvidei, porém de fato é bem bacana poder saber quem lhe enviou mensagem e qual o conteúdo mesmo sem tirar o celular do bolso. Quando se está andando na rua, por exemplo, é uma mão na roda.

Além de ser a feature mais legal, é também a pior implementada. 😛 Muita gente me ligou no iPhone nesse um mês de uso. Se, de todas essas chamadas, em duas delas eu consegui ver o nome de quem estava me ligando pelo Pebble, foi muito. Há um bug no firmware dele que faz com que o relógio não consiga lidar bem com os contatos do iPhone (não sei como é a coisa no Android). Esse bug acontece em 97% dos casos de chamada. Resultado: você não vê o nome de quem está lhe ligando, vê o número do telefone (mesmo que o contato estiver na sua agenda). Isso deixa essa funcionalidade praticamente inútil.

Usando o smartwatch Pebble

Ler as mensagens no relógio é legal, e funciona! Bom, mais ou menos… Se você recebe _uma_ mensagem de _uma_ pessoa, bacana, ela está lá pronta para ser lida no seu pulso. Porém se você está no meio de um “chat” com alguém via iMessage, por exemplo, e recebe duas mensagens ou mais em um curto intervalo de tempo, como diz meu avô: “Bau, bau… Já era!” Só é possível ler no Pebble a última mensagem recebida no celular, pois não há nenhum tipo de histórico no relógio. Isso complica a cronologia e requer que você sempre tire o celular do bolso para ver se não há mais mensagens além daquela notificada pelo Pebble.

Inesperadamente tenho usado bastante uma função que não imaginei ser uma mão na roda tão grande: avançar as musicas do iPhone. Sou usuário do Rdio e tenho o hábito de ouvir musicas com o iPhone conectado ao som do carro. Sem o Pebble era bem complicado, enquanto dirigia, avançar uma música no iPhone. Com os botões do relógio sempre a mão, um toque avança a música e convenientemente exibe qual o nome da faixa e do artista que está tocando. Ah, esse recurso funciona sem ressalvas (ufa!).

Usando o smartwatch Pebble

Futuro

Você já deve ter captado minha opinião sobre o Pebble, mas se a pergunta “E aí, devo comprar?” está na sua cabeça, aqui vai a resposta: NÃO. Simplesmente porque o Pebble não é o smartwatch certo para você.

Mesmo que você seja _mega_ entusiasta de novas tecnologias, se você não foi um investidor do projeto no Kickstarter há quase um ano, não compre o Pebble agora. Você estará desperdiçando US$150.

Usando o smartwatch Pebble

Claro que o Pebble ainda pode evoluir muito. O hardware dos relógios que já foram comprados não pode ser atualizado, mas como o maior problema está no software e na falta de um SDK que torne possível a integração com apps de terceiros, pode ser que no futuro a solução proposta pelo Pebble se torne interessante.

Porém, a minha opinião é que o futuro dos smartwatches é muito promissor. E esse futuro deverá se tornar realidade bem antes de o Pebble ficar atraente. Acredito nas especulações de que um relógio inteligente da Apple esteja chegando em breve. Assim como outras grandes empresas do setor entenderam que há um mercado muito grande, ainda inexplorado, no pulso de muita gente.

O Pebble foi um bode espiatório nesse desconhecido mundo dos smartwatches. As possibilidades de integração com dispositivos já inteligentes que carregamos todos os dias nos nossos bolsos — leia-se “smartphones” — são bastante grandes. As funcionalidades trazidas pelo Pebble são os passos iniciais para uma verdadeira revolução que pode estar prestes a acontecer em um mercado — ou área do corpo — que nem sequer imaginávamos poder se transformar.

Estarei na WWDC — a conferencia dos desenvolvedores da Apple — em junho e ficarei muito empolgado se na keynote de abertura a empresa anunciar um novo “iWatch” para, quem sabe, revolucionar mais um mercado. Até lá, se você queria um Pebble, vá guardando seu dinheiro para ver qual dos novos smartwatches você irá comprar no segundo semestre. Eu vou seguir vendo as horas no meu Pebble e jogando Snake, imaginando os apps bacanas que podem surgir com um novo produto da Apple no pulso de milhões de pessoas mundo afora.

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