2014: a nova Apple chegou!

Logo da Apple branco em fundo claro

Ainda estamos no final de outubro, mas a proximidade da Black Friday (tradicional dia de compras/descontos nos EUA que se “internacionalizou”) marca o início do período de compras antes do Natal. Podemos dizer que não veremos mais lançamentos da Apple até os primeiros meses do ano que vem, e isto me fez refletir: será que 2014 foi realmente aquele ano de “mudanças” que tanto se falava? Antes de argumentar, já adianto a conclusão: sim! Foi e está sendo! A Apple nunca esteve tão forte, com uma linha que abrangia tantos setores e com tantos serviços.

Logo da Apple branco em fundo claro

Steve Jobs nos deixou há mais de três anos (em outubro de 2011) e, mesmo bem antes disso, Tim Cook já ocupava o posto de CEO. Com a presença do cofundador da Apple, Cook não poderia pôr em prática o seu modo de fazer as coisas acontecerem, mas isso não parecia ser uma coisa que o incomodava! Após a morte de Jobs, Cook enfatizou uma frase que o seu amigo costumava dizer: “Não faça as coisas pensando no que eu faria, faça da forma que achar certa.” Ou seja, não era segredo para ninguém que uma nova era começaria quando Cook tomasse as decisões mais importantes da empresa por conta própria. E me arrisco a dizer: Jobs não achava isso uma coisa ruim, tanto que apontou e recomendou Cook como seu sucessor — ele o preparou para isso.

Minha aposta inicial era de que em 2013 nós começássemos a ver essa nova era, mas errei — em partes. Apesar de acreditar que o iPhone 5c e o Touch ID já estavam sendo desenvolvidos nos laboratórios da Apple há muito tempo, a decisão de lançá-los foi de Cook — assim como o iOS 7, com um visual mais moderno e claramente pós-Jobs.

A primeira mudança foi no palco: Phil Schiller (vice-presidente sênior de marketing mundial), Craig Federighi (vice-presidente sênior de engenharia de software) e Cook devem ter trabalhado muito para estudar um novo estilo de apresentação de produtos. E este acabou perdendo um pouco do “Campo de Distorção da Realidade” de Jobs — o que me agrada mais do que o anterior.

Jobs gostava de trazer o público com ele, mostrar os recursos, apresentar o produto, fazer a demonstração, dar as especificações e, após tudo isso, o “vídeo de introdução”. Em diversos momentos, começando pelo iOS 7 e, há pouco tempo, com o Apple Watch, a Maçã inverte os fatores: primeiro o vídeo, depois apresentação e, por fim, a demonstração e as especificações. Gosto mais desse estilo pois meu coração vai a mil nos vídeos à la Tony Stark; depois, vou vendo só os detalhes. É como se o ápice fosse no início e depois aquilo se mantivesse constante — diferente do estilo de Jobs, no qual o ápice era no meio da apresentação.

Cores dos iPhones 5c

Mas voltando aos produtos em si, o “fracasso” do iPhone 5c no ano passado foi um tanto quanto polêmico e envolveu justamente as decisões do novo chefe. Mas eu credito muito deste “fracasso” à mídia como um todo — principalmente aos blogs mais dedicados a cobrir o mundo Apple. Sim, a nós e a todos que de alguma forma tentaram desenhar/criar um cenário perfeito para esse modelo de iPhone.

Durante quase um ano, rumores apontaram que a Apple lançaria um iPhone de baixo custo. O aparelho então chegou, mas com uma proposta completamente diferente: substituir o iPhone 5. Digo e repito: uma proposta excelente! Um celular que não deixa de ser novo (e não de um ano atrás; apesar de ter quase o mesmo hardware do seu antecessor) e com um preço mais em conta que o topo-de-linha. Eu mesmo, quando tive meu iPhone 5s roubado (bem-vindo ao Rio!), acabei comprando um 5c e digo: o celular é excelente. A pegada dele é agradável, os recursos não deixam a desejar… exceto, é claro, pelas expectativas por um iPhone “de baixo custo”.

Não foi um fracasso. Pessoas argumentam que ele não vendeu tanto quanto o iPhone 5s ou o Samsung Galaxy S4. Mas é óbvio que não ia vender! O objetivo da Apple não era esse, mas sim que ele vendesse mais do que o iPhone 5 caso ele fosse mantido na linha. Não temos como saber, mas eu acredito que esse objetivo foi alcançado. Os demais produtos do ano (iPad Air, Macs e OS X Mavericks) eram só “sequências” naturais dos produtos já existentes. Nada comparado ao ano que acabamos de ter — este sim, o primeiro totalmente comandado e idealizado por Cook.

O ano começou com um hiato de seis meses sem eventos (assim como em 2013), mas na WWDC 2014, em junho, vimos os indícios do — não tão — novo líder: uma Apple mais aberta. Vimos um iOS sendo apresentado com mais de 4.000 novas APIs — arrisco a dizer que, sob a tutela de Scott Forstall (ex-chefão do iOS) e Jobs, veríamos algo na faixa de 1.500 APIs, como normalmente acontecia —, possibilidades as quais desenvolvedores sonharam por anos (como extensões, widgets e teclados de terceiros), entre outras coisas.

Recursos que eu não sei se deveriam ter sido implementados de forma diferente ou que exigem um pouco mais de trabalho para que sejam implementados da maneira correta, como os teclados de terceiros, mas que sem dúvida oficializavam uma nova Apple (é tanto “nova” e “mudança” neste texto que parece até propaganda política!).

OS X Yosemite

Diferentemente do que alguns pensam, o OS X Yosemite não foi apenas “um novo visual”. Além de alterar elementos base da interface de Macs como o “Aqua” e a fonte Lucida Grande (utilizadas desde o saudoso Mac OS X 10.0 Cheetah), a empresa trilhou um novo caminho mesclando skeumorfismo e design flat. Uma década depois, estamos vendo o nascimento de uma nova linguagem visual para o sistema operacional desktop da Apple.

A WWDC foi o palco de entrada, mas foi em setembro que tivemos *o evento* — na minha humilde opinião, que se junta aos mais importantes da história da Apple (o primeiro Mac em janeiro de 1984, o primeiro iMac em maio de 1998, o primeiro iPod em outubro de 2001 e o primeiro iPhone em janeiro de 2007).

Tim Cook - One more thing…

Não acho que esse evento foi marcante apenas por causa do Apple Watch, e sim pela entrada da Apple em diversos novos mercados. Foi a confirmação do que imaginávamos: estamos vivendo a era Cook — a começar pelos novos iPhones. Henry Ford dizia que, se perguntasse às pessoas o que elas queriam, elas diriam “cavalos mais rápidos”. Jobs afirmava que as pessoas não sabem o que querem até que mostremos a elas. A filosofia de Cook respeita essa visão, mas também aceita uma interferência maior do mercado. Está mais para “vamos perguntar o que as pessoas querem, mas vamos dar a elas do nosso jeito”.

As pessoas clamavam por telas maiores. Em 2007, antes do lançamento do iPhone, um telefone com tela de 3,5 polegadas era inimaginável, porém foi considerado o tamanho ideal pela Apple. Algumas pessoas falavam que a tela do iPhone era gigante, afinal estavam acostumadas com os aparelhos das marcas Nokia e Motorola (com telas cada vez menores e teclados cada vez maiores). Felizmente o tempo passa e as necessidades, também.

Linha de iPhones 6 com todas as cores

Eles querem telas maiores? Vamos dar a eles telas maiores, então! Mas não de uma forma branda: a Apple continuou apresentando dois novos modelos de iPhones, porém não substituiu nenhum, e sim complementou a linha existente — aprimorando a ideia do ano passado, disponibilizando mais aparelhos (iPhones para todos os gostos) e cobrindo ainda mais o mercado. Como toda grande mudança de design, hoje as “linhas traseiras supergrossas” e a “câmera monstruosamente protuberante” são alvos de grandes críticas, assim como a tarja de plástico do iPhone original, a traseira toda de vidro do iPhone 4 e, pasmem, a traseira de vidro/alumínio do iPhone 5 também foram bastante criticadas na época.

Acho que Jony Ive (chefão de design da Apple) e o engenheiro que cuida das antenas não devem ser muitos amigos, afinal, teríamos iPhones muito mais bonitos se as antenas não influenciassem tanto assim o design do aparelho. O iPhone 5s é mais bonito do que o iPhone 6? Na minha opinião, sim. Assim como o iPhone 6 será mais bonito do que o 7. Explico: tudo que é novo, que nos tira da zona de conforto, incomoda. Hoje, há quase um mês com meu iPhone 6, nem lembro que aquelas “linhas grossas e feias” estão ali, e me pergunto por que não tivemos uma tela maior e curva nas bordas há mais tempo.

Primeiras impressões dos iPhones 6

Acredito fortemente que teremos esses tamanhos de telas (4,7 e 5,5 polegadas) por um bom tempo. O irmão gêmeo (bivitelino) maior do iPhone 6 muito provavelmente não venderá tanto quanto o menor por ser um produto de nicho (com um público mais restrito) e mais caro, porém acho que ele está atingindo — ou esteja até ultrapassando — as expectativas de todos.

Por falar em preço (lá fora; esqueçam o Brasil neste momento), a estratégia dele também foi sensacional e bem ao estilo Cook, agradando a todos: o produto iPhone estava ficando caro e diversos rumores falavam que o modelo de entrada do iPhone 6 teria um valor superior ao do seu anterior. Para não ter que fazer isso e desagradar consumidores/operadoras, Cook dobrou a capacidade do modelo do meio (32GB passou para 64GB) e fez a diferença de capacidade entre o de entrada e o intermediário ser de quatro vezes. Fazendo isso, a empresa induz a compra do modelo intermediário. Jogada de mestre, não? Por que pagar US$200 em um aparelho de 16GB se eu posso comprar um de US$300 com quatro vezes mais capacidade? Este raciocínio não teria funcionado caso a empresa dobrasse todas as capacidades, incluindo o modelo de 16GB.

O Apple Pay, que foi apresentado como uma novidade dos novos iPhones, é um serviço arriscado. A Apple não tem um histórico tão louvável de prestação de serviços como tem para fazer produtos (hardware), afinal, foram eles que fizeram o MobileMe. O Apple Pay só tem dois caminhos: sucesso ou fracasso. Não consigo imaginar ele sendo algo “em cima do muro”. Ou ele será usado massivamente ou descontinuado daqui a 2-3 anos.

Linha de Apple Watches voando

Enfim, chegamos ao tão esperado e rumorado produto vestível da Maçã, o Apple Watch. Admito: demorei para absorvê-lo e permaneço em cima do muro quanto a ele. Um design arriscado; uma interface arriscada. Assim como o Apple Pay, afirmo: um produto sem chances de ser “apenas mais um”. Ou em um ano veremos pessoas em peso se comunicando pelo relógio inteligente, utilizando-o de forma massiva para cuidar da saúde/fitness, ou veremos Cook tendo uma de suas maiores frustrações por não conseguir emplacar “o seu primeiro produto”.

O primeiro desafio será o teste da logística de varejo da empresa. Angela Ahrendts perderá noites de sono para criar a fórmula de venda do Apple Watch. Pensem comigo: eles queriam fazer algo vestível, algo com que as pessoas se identificassem, o produto mais pessoal já criado pela Apple. Como fazer isso? Com três linhas, duas opções de tamanhos, duas ou três opções de cores, e muitas, muitas pulseiras (couro, plástico, alumínio, etc.)!

Apple Watch ao lado de um iPhone 6

Não precisa ser bom em Matemática para calcular esse número e chegar à casa das milhares de combinações possíveis. Se a Apple consegue “se enrolar” para lançar os novos iPhones (que contam com duas opções de tamanho, três de armazenamento e três de cores), imagine quando essa combinação de 18 passa a ser de milhões! Minha aposta é que você comprará o Apple Watch (o aparelho, o qual tem 24 modelos diferentes entre acabamentos, tamanho e coleção) e a pulseira virá numa caixa a parte. Você poderá comprar várias, trocar, ter uma de cada… mas isso foi uma das coisas que a Apple preferiu deixar para esclarecer num segundo momento, com o projeto finalizado e com todos os detalhes/especificações prontos.

Apesar de ser um produto muito pessoal, essa tendência já vista no Apple Watch e no iPhone mostra como Cook pretende dar o que o mercado pede, mas da forma dele.

O segundo desafio eu acredito que seja bem mais complexo: a bateria. Não só no que tange a autonomia, mas a forma como o produto se recarrega. Nos melhores sonhos da Apple, o objetivo devia ser algo como baterias durando semanas e com um recarregamento sem a necessidade de tirar o aparelho do pulso. Isso, infelizmente, ainda não podemos ter — seja por razões técnicas ou de custo. E acho que isso não envolve apenas o desconforto de “ter que recarregar” como acontece com notebooks e smartphones, mas também o fato de ter que tirar do pulso para carregar — algo que prejudica inclusive a experiência de uso e acho que a Apple não está muito feliz com isso.

A aceitação de um produto totalmente novo também será complicado para a Apple. Para começar, o Apple Watch requer um iPhone (seja para a instalação de apps, utilizar o GPS, etc.). Mas não basta ser qualquer, já que o requerimento mínimo exige um iPhone 5. Ou seja, boa parte da base de consumidores sequer estará apta a ter um Apple Watch sem que seja necessário também trocar de iPhone.

Quanto à interface de uso, acho que eles nunca estiveram tão certos. Ela já está gerando polêmica, mas foi muito pensada. Tanto acho que depois do “susto inicial” ela será muito bem aceita — quem sabe no futuro a Apple não unifica as coisas levando a interface do Watch ao iPhone, conforme imaginado neste post do 9to5Mac — ainda que a Apple vá por um caminho totalmente diferente do da Microsoft, por exemplo, e faça questão de respeitar as particularidades de interação de cada sistema/produto.

Conceito de nova interface (do Apple Watch) para iPhones

Pouco mais de um mês depois desse evento espetacular, tivemos a keynote mais morna dos últimos tempos (apresentação dos novos iPads e do iMac com tela Retina 5K). Tudo bem, afinal não tem como ter um evento fantástico todos os meses — mas que faltou emoção, faltou. Num mundo onde tudo se vaza e não há surpresas, o mínimo que se esperar é aquela emoção dos executivos, e nem isso teve. Um evento enxuto de menos de uma hora e meia, mas que teve a sua finalidade de apresentar os novos iPads e a poderosa tela de quase 15 milhões de pixels do novo iMac. E o mais importante: ter, pelas palavras de Cook, a linha mais forte já feita pela Apple — e ele está apenas começando.

Não podemos, porém, esquecer dos erros deste ano, como a liberação do iOS 8.0.1, os recursos do Continuidade que funcionam para alguns e para outros não, entre outros. Mas isso não tira o mérito de Cook e sua forma de gerir a empresa. As mudanças propostas pelo CEO não poderão ficar apenas na ideia de lançar novos produtos. Em algum momento algumas linhas terão que ser enxugadas, e eu acredito que em 2015 nós veremos mudanças significativas nas linhas de iPods e Macs.

2013 foi o ano das expectativas; 2014, o das grandes mudanças; já em 2015 teremos a fixação do novo estilo Apple. E não, não precisaremos esperar até a WWDC para isso. Já nos primeiros meses muito provavelmente teremos um evento para divulgação dos últimos detalhes do Apple Watch, sua tabela de preços, disponibilidade, etc. Cook disse que “sonha com o momento da chegada do Apple Watch todos os dias”, então não acredito que essa data passe de fevereiro. A chegada do Apple Watch também trará consigo uma atualização para o iOS — a versão 8.2, imagino, com o aplicativo “Watch” para instalar apps no relógio. Vale lembrar que a Apple já oficializou o WatchKit, o qual estará disponível para desenvolvedores em novembro, então faz sentido pensar que versões betas do 8.2 também deverão pintar já no mês que vem.

Fotos para OS X

O aplicativo Fotos (Photos) para OS X também está prometido para o “início do ano”, assim como o rumorado MacBook redesenhado de 12 polegadas com tela Retina, um “iPad Plus/Pro” de 12 polegadas e uma nova Apple TV — não só um novo hardware, mas também software e serviços repaginados.

Em junho teremos o OS X 10.11 — e minha aposta de codinome vai para Big Sur — junto do provável iOS 9. No final do ano deveremos ter como sempre novos iPhones (6s e 6s Plus?), novos Macs e novos iPads. O ano de 2015 será pequeno para tanta coisa, e a nova era da Apple está apenas começando — eu mal posso esperar para ver o que ainda vem por aí.

Alguns insistem em dizer que a Apple não é mais um empresa inovadora e que ela não é a mesma sem Jobs. Sim, ela não é mais a mesma e nunca voltará a ser como era antes — mas isso não quer dizer que ela não se tornará ainda mais forte e não terá produtos cada vez melhores. Lembre-se: apesar de criticarmos certos pontos neles (o que é algo bem normal), nós não imaginamos viver sem eles.

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