Apple TV: o futuro da TV que ainda vai chegar

por Delano Sento-Sé

Desde a sua invenção, na década de 1920, a televisão é o maior meio de informação e entretenimento de massa do planeta. Na sua forma mais acessível (o sinal aberto), ela atinge a todos sem custos — a não ser, é claro, o preço do aparelho em si e a óbvia energia para alimentá-lo. Com o passar dos anos, a televisão brigou — e muitas vezes ganhou — com outros meios de comunicação como os impressos, jornais e revistas, além do rádio e do cinema, e hoje sente o feitiço virar contra o feiticeiro. A TV cada vez mais perde espaço para a internet como principal opção de informação e entretenimento.

Além da maior versatilidade de conteúdo, a internet é imbatível na questão da disponibilidade. Diferentemente da TV (tanto aberta quanto por assinatura), a internet não exige — em sua grande parte — que o consumidor esteja presente diante do meio receptor no dia e no horário da apresentação do que lhe interessa. A grande maioria dos conteúdos na internet está disponível no momento em que o consumidor deseja consumi-lo, livre de horários e programação. Os provedores de conteúdo para TV reconhecem o peso dessa questão e o aumento dos serviços sob demanda (on demand), dos aplicativos de canais, redes e emissoras, e a utilização de canais do YouTube provam que os programas de TV não sobrevivem mais apenas na TV.

O desuso cada vez maior da expressão “segunda tela”, que servia como designação para a utilização de meios como a internet e os aplicativos móveis como complementação aos programas de televisão, prova que sua conotação de algo “separado” e “secundário” não serve mais para os dias atuais. O mundo é — definitivamente — multimídia. E, neste mundo, a TV perdeu há muito o seu protagonismo. E por permitir consumir “o que se quer, na hora que se quer”, a internet brilha cada vez mais. É um movimento irreversível e, para nossa sorte, a queda de audiência da TV fez com que seus responsáveis entendessem o real significado do ditado “se não pode com ele, junte-se a ele”. Além das redes e emissoras de TV, o mercado publicitário também entendeu isso e hoje o sucesso de marcas e produtos só pode ser alcançado com sua exposição nos diferentes meios, uma vez que o mercado consumidor se encontra ao mesmo tempo pulverizado e onipresente.

Além do engessamento de horários e programação, a TV perde para a internet no quesito geográfico. Por que carregar uma TV portátil se é mais fácil encontrar um bom ponto Wi-Fi ou ter uma plano de dados no smartphone do que pegar o sinal de uma emissora de TV? Além do “que” e do “quando”, o “onde” dá ainda mais liberdade ao espectador quando se transforma em “qualquer lugar”.

O atual modelo de TV baseado em horários e programação está com os dias contados. As pessoas não aceitam mais se submeterem à disponibilidade do conteúdo e a letra de Milton Nascimento se expande para “ir aonde o povo está, com o que o povo quer, na hora que o povo desejar”. A solução para a TV é virar 100% sob demanda, substituir de vez os canais por ícones e nos livrar de termos que usar diferentes — e ainda poucos — aplicativos disponíveis de programas e emissoras.

Eu quero sentar em frente à TV às 16 horas, clicar no ícone da TV Globo, escolher a opção “Jornalismo”, em seguida “Jornal Nacional” e ver disponíveis todas as edições da semana como faço hoje em dia no aplicativo, contanto que às 20h30 apareça o ícone da edição ao vivo. O mesmo vale para novelas, jogos do meu time e séries que acompanho. Serve para Globo, SBT, ESPN, Sony, Warner… serve para qualquer canal.

As TVs sairiam de fábrica com ícones dos conteúdos abertos e seriam acrescentados mais ícones de acordo com seu pacote contratado com provedores, além, é claro, da cereja do bolo: a possibilidade de instalar aplicativos. As velocidades de conexão, cada vez maiores, não seriam problema e os 0 e 1 substituiriam de vez as ondas eletromagnéticas. Como na maioria dos serviços, o grande empecilho estaria no poder público e a disponibilidade de conexões públicas. Uma solução transitória poderia ser, dentro dos sistemas operacionais dos aparelhos de TV, a coexistência entre este novo modelo e o atual SBTV (a TV digital).

Anunciantes? Não me importo em assistir a um comercial de 30 segundos antes de cada programa. Se você pensar bem, hoje em dia todos os espectadores veem o mesmo comercial no momento da sua exibição, que são vendidos por inserções. Por que não vendê-los por “cliques”? Duas pessoas que assistirem ao mesmo conteúdo poderão ver dois comerciais diferentes. E ainda haveria a vantagem dos algoritmos, que decidiriam melhor qual produto ou marca mostrar, de acordo com o perfil do usuário e não só do programa, possibilitando um plano de mídia mais eficiente. Faixa etária, nível de renda, histórico de consumo, medição de audiência… tudo seria mais fácil de apurar, tanto para agências quanto para anunciantes.

Eu venho pretensiosamente “profetizando” este modelo de TV há alguns anos com amigos e colegas do meio publicitário e acreditava que a Apple mudaria a TV com a nova Apple TV neste ano, mas as informações já divulgadas sobre o novo modelo não parecem chegar a tanto. Para “o futuro da televisão”, como dito pela empresa, ainda falta muita coisa. Mas tem algo que ainda acredito: de todas as empresas capazes de provocar uma revolução no modo de assistirmos TV, libertando o espectador de horários e programação rígidos, a Apple é a mais séria candidata. E com a sua Apple TV.

Fios no hack da TV
Essa é a minha realidade, hoje

Essa crença não vem da superioridade de hardware do equipamento da Maçã. Longe disso. Além da Apple TV tenho também aqui, na sala de casa, Google TV (Sony), Chromecast, Roku, Fire TV, WDTV e, claro, um Mac mini como HTPC (home theater personal computer). Há também uma Slingbox, mas esta não conta porque só envia pela web o conteúdo do decodificador da minha TV por assinatura. Entra na lista fazendo figuração, apenas. Se compararmos todos, veremos que a Apple TV não é o equipamento mais completo e versátil que existe. Não tem nem uma porta USB pra espetar uma pendrive, coisa que muitos dos remanescentes reprodutores de DVD possuem há anos.

Mas isso começa a mudar. Um novo sistema operacional, um novo SDK (software development kit, ou kit de desenvolvimento de software) e a possibilidade de instalação de aplicativos já são um belo começo. Mas, convenhamos, isso não é novidade na indústria e corremos o risco de, assim como nos demais modelos, ficarmos presos ao — como dizem — ecossistema do fabricante. Aliás, foi esta fórmula de SO e SDK próprios que levou ao naufrágio do Google TV da Sony e de outras marcas, deixando seus usuários a “ver navios” com a impossibilidade de instalação de aplicativos para Android — a não ser aqueles desenhados exclusivamente para a plataforma. E toma-lhe sideload!

E o que tudo isso tem a ver com o futuro da televisão? Ora, todos esses equipamentos que citei são criados para serem usados com a sua televisão. E como o lucro, e não a sua diversão, é o objetivo final de tudo isso, cada fabricante tenta forçar a fidelização com plataformas e serviços próprios. iTunes, Apple Music, Amazon Prime e Google Play são apenas alguns exemplos. Essa tentativa dos fabricantes de agregar valor a um equipamento que existe aos milhões no mundo todo é na verdade a prova cabal da resistente e imensa importância de estarmos sentados diante dessa tela à procura de informação e entretenimento. Definitivamente, levar o online para dentro da TV é garantir a sua sobrevivência. E mais: a televisão ainda carrega — e muito — o espírito do coletivo, do social, do compartilhamento instantâneo do conteúdo que a navegação solitária num computador não proporciona. A não ser que você prefira assistir sozinho aos jogos do seu time — e não com seus amigos.

Mas se não é pelo hardware, muito menos pela plataforma proprietária, como a Apple mudaria a televisão com a Apple TV? Você pode dar o nome que quiser: dim-dim, verdinhas, grana, bufunfa ou, simplesmente, dinheiro. Ir em direção ao fornecimento de conteúdo, associar-se às redes, às emissoras e aos estúdios de cinema, encarar produções próprias e até mesmo, segundo alguns, alterar a legislação americana sobre o assunto são atitudes atribuídas à gigante de Cupertino que vez ou outra pipocam como rumores ou boatos na imprensa especializada. Para tudo isso, é preciso muito dinheiro. E dinheiro é o que não falta no caixa da Apple, como bem sabemos. Uma vez alcançadas essas mudanças de bastidores, a alteração do hardware é a parte mais fácil. Se, no futuro, isso se provar ser verdadeiro, então teremos realmente uma revolução na nossa maneira de ver TV.

Uma última pergunta pode ainda gerar dúvidas: como essa revolução é possível se a televisão, como já apontado no início, é um produto de massa e a Apple não faz produtos de massa? É fácil vislumbrar o futuro se olharmos o passado. As pessoas já ouviam música antes do iPod, já falavam ao telefone antes do iPhone e, antes do Apple Watch, zilhões de relógios já exibiam as horas e outras informações nos pulsos de todo mundo. Mais do que novos produtos, ao longo de sua história, a Apple estabeleceu novos padrões, novas maneiras, novos jeitos para fazermos o que sempre fizemos. Mais fáceis, mais divertidos, mais práticos, mais integrados e, especialmente, mais desejáveis. E toda a indústria foi atrás. Aconteceria com a televisão o mesmo efeito que já vimos a Apple provocar em outras áreas. Ou você, nos dias de hoje, ainda se contentaria com um celular sem tela sensível ao toque?

Eu tenho paixão por gadgets, sou consumidor de tecnologia e em especial dos produtos da Apple. Não sou fanboy. Tenho discernimento demais para ser “fan” e idade demais para ser “boy”. Mas admiro muito esta empresa por vários motivos. Um dos mais importantes é a sua capacidade de inovar mais do que criar. Isso já se provou fato em várias oportunidades. Como também gosto muito de televisão, minha imaginação juntou A com B, com C, com G, com M… e resultou num futuro para as nossas TVs que eu realmente gostaria de ver.

Você não precisa concordar comigo. Nem sequer acreditar nisso tudo. Eu acredito. E torço muito por isso.

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