Filme “Steve Jobs” estreia hoje nos EUA; confira mais histórias de bastidores!

O polêmico e aguardado filme “Steve Jobs” estreará hoje, dia 9 de outubro, nos Estados Unidos. Não coincidentemente, o tema está em alta nesta semana e diversas pessoas ligadas ao filme foram entrevistadas.

Danny Boyle, diretor do filme, conversou com o The Hollywood Reporter e deixou clara a sua posição sobre o comentário do CEO da Apple (Tim Cook chamou as pessoas que estão explorando a imagem de Jobs de “oportunistas”). Eis o comentário dele:

Atualmente estas empresas [de tecnologia como Apple, Google e Facebook] são tão poderosas que governos estão correndo com medo. Elas têm essa influência em todo o mundo. Elas estão substituído empresas petroquímicas, farmacêuticas — são maiores do que todas elas juntos — e têm um poder enorme, terrível. E é importante que artistas e escritores não sejam intimidados por elas — e se isso significa ser acusado de oportunista, então que assim seja.

É importante que nós coloquemos essas pessoas no centro das atenções para examinar suas próprias razões de negócios ou suas visões, nós precisamos manter os olhos neles.

Difícil discordar das palavras de Boyle. E, a meu ver, não há problema nenhum em ser “oportunista”. Nós, seres humanos, somos oportunistas. A Apple é uma empresa oportunista. Ela, por exemplo, viu a chance de poder melhorar a imagem de Jobs e fez questão de cooperar com os autores do livro “Becoming Steve Jobs” para que eles retratassem o cofundador e ex-CEO da Maçã de uma forma mais de acordo com a visão de seus amigos e familiares.

Danny Boyle e Aaron Sorkin - Filme "Steve Jobs"

Fazer filmes é o trabalho dessas pessoas (Danny Boyle, Aaron Sorkin, etc.), assim como enxergar oportunidades no mercado e criar produtos que resolvam problemas e melhorem nossas vidas é o trabalho da Apple. Não há nada de errado em buscar uma boa história (ainda que ela não retrate a realidade; basta deixar isso claro), assim como não há em criar um novo produto — desde que tudo seja feita de forma correta, dentro da lei, sem ferir a ética alheia.

Entrevistado por Conan O’Brien, Sorkin se explicou novamente e deu o assunto por resolvido:

O roteirista também conversou com o The Hollywood Reporter e explicou por que o filme saiu das mãos da Sony Pictures e foi para a Universal Pictures. Boyle basicamente queria filmar tudo em San Francisco, o que deixou a produção cerca de US$8 milhões mais cara (ultrapassado o orçamento inicial estipulado pela Sony). Então o produtor Scott Rudin pediu uma semana para tentar vender o filme para outro estúdio, e Amy Pascal (até então co-presidente da Sony Pictures) concordou. Menos de 24 horas depois, porém, quando tudo já estava acertado com a Universal Pictures, Pascal se arrependeu e disse para Rudin que eles poderiam filmar, sim, em San Francisco. Mas aí já era tarde demais, até pelo atrito que esse embate havia causado.

O Daily Beast também conversou com o diretor de “Steve Jobs”. A ideia inicial era fazer um filme “irmão” de “A Rede Social”, com Sorkin no roteiro, David Fincher na direção e Christian Bale no papel de Jobs. Fincher, porém, pediu US$10 milhões adiantados e o controle total do marketing do filme, inviabilizando o acerto.

Boyle então foi o escolhido, mas o drama na escolha do ator continuou, passando por Bradley Cooper, Matthew McConaughey e Leonardo DiCaprio, até finalmente chegar a Michael Fassbender. Sobre a escolha do ator, Boyle disse:

As mulheres acham ele muito sexy, mas eu simplesmente não consigo ver isso com ele. O que eu vi em Michael, além de ele ser um grande ator, foi essa dedicação obsessiva ao papel, o que eu senti que fez ele ser perfeito para Jobs. Mesmo que ele não se pareça exatamente com ele, até o final do filme você acredita que é ele.

Há sem dúvida um clima ruim entre familiares/amigos de Jobs e as pessoas envolvidas no filme, conforme já falamos. Ridley Scott, que dirigiu o famoso comercial “1984” da Apple, disse que os produtores quiseram veicular o comercial no filme, mas que a Apple não permitiu pois não está feliz com o caminho que o filme tomou — mas, pelo visto, colocaram o comercial em “Steve Jobs” mesmo assim. Scott disse que o filme é basicamente sobre a relação de Jobs com a sua filha, o que é uma escolha estranha já que ele era um designer gênio e um visionário. A Apple não quis fazer comentários, mas pessoas ligadas à Universal confirmaram que a companhia não fez questão de ajudar na realização do filme.

Ao ser perguntado se a Apple tentou melar a produção, Boyle disse:

Bem… interessante. Nós tivemos nossas lutas e vamos lançar o filme, e uma vez que o filme tenha sido lançado, eu tenho certeza de que poderemos falar sobre tudo isso.

Ao falar sobre o filme em si, Bolye afirmou:

Eu nem arrisco dizer que esse é um retrato definitivo de Jobs. Nós tentamos mostrar o máximo dele que pudemos. Como Raymond Chandler disse, em qualquer trabalho artístico há um senso de libertação. Ele claramente realiza isso em sua família, na qual não tocamos. Ele seguiu em frente sabendo que embora tenha criado as coisas mais lindas no mundo, ele em si era pobre. A habilidade de reconhecer isso é um grande passo. Ele é o nosso herói, se você quiser chamá-lo assim.

[…] Eu não acho que o filme seja calunioso ou falso, mas também não é uma série de fatos incontestáveis. Às vezes, gênios precisam sacrificar muita coisa e muitas pessoas acabam machucadas enquanto eles buscam suas visões.

Sorkin também conversou com a WIRED, afirmando que tremeu antes de dizer “sim” para o desafio de adaptar a biografia autorizada de Jobs para o cinema e que desistiu da ideia de uma biografia pois esse estilo de filme não causa tanto impacto assim na audiência.

Ao ler sobre os problemas que estavam tendo ao fazer o Mac dizer “Olá”, no lançamento em 1984, eu tive essa ideia e escrevi um email para Scott [Rudin] dizendo: “Se eu não tivesse que responder para ninguém, iria escrever todo o filme em três cenas em tempo real e cada uma aconteceria nos bastidores, antes de um lançamento particular de um produto. Eu identificaria cinco ou seis conflitos na vida de Steve e os colocaria se desenrolando nessas cenas de bastidores — em lugares onde eles não aconteceram”.

Pouco tempo depois ele recebeu a aprovação de pessoal de Pascal, após Rudin encaminhar o email na integra para ela.

Sorkin, é claro, não se baseou apenas na biografia de Walter Isaacson para construir o seu roteiro. Pessoas como Steve Wozniak, Joanna Hoffman, John Sculley, Lisa Brennan-Jobs1, Lee Clow, Andy Hertzfeld e muitos outros — todos próximos de Jobs em algum momento ou por toda a vida dele — fizeram parte da rede de contatos dele para a construção do filme.

O roteirista também afirmou que algumas coisas da biografia autorizada chamaram a sua atenção e não poderiam ficar de fora do filme: a relação de Jobs com sua filha (que incomodou bastante Sorkin, já que ele também é pai; por outro lado, ele achou muito interessante ver como Jobs conseguiu achar o seu próprio caminho para ser pai) e o entendimento, o motivo de Jobs ser um gênio.

Falando sobre o vazamento de informações da Sony Pictures que ocorreu enquanto as escolhas dos atores do filmes estava ocorrendo, Sorkin brincou dizendo nunca ter imaginado que Kim Jong-un (ditador da Coreia do Norte) de alguma forma iria interferir na sua vida2. Devido ao episódio, boa parte das decisões para o filme passaram a ser tomadas por telefone, o roteiro não saía da sala da CEO da Sony Pictures, entre outras coisas.

Sobre o filme em si, Sorkin deu a seguinte declaração:

Terão pessoas que falarão que nós pegamos pesado com ele, e outras que falarão que nós não fomos pesados o suficiente com ele. Mas eu acho que fizemos um bom filme, e eu acho que se você perguntasse a 10 escritores para escrever 10 filmes sobre Steve Jobs, você teria 10 filmes diferentes, que não se assemelham um com o outro.

Numa coletiva de imprensa recente que aconteceu em Nova York, conforme destacou o Tech Insider, Sorkin voltou a falar sobre o fato de pessoas ligadas a Jobs não estarem aprovando o filme.

A senhora Jobs, Tim Cook, Bill Campbell — eles ainda não viram o filme. Eles não leram o roteiro. Eu acho que se eles assistirem ao filme terão uma surpresa agradável.

Steve Jobs e Steve Wozniak - Filme "Steve Jobs"

Nós inclusive já comentamos o fato de Laurene ter tentado impedir o lançamento do filme. Pois o Hollywood Reporter deu mais detalhes dessa empreitada pessoal dela, afirmando que a viúva de Jobs chegou a ligar para DiCaprio e Bale insistindo para que eles não pegassem o papel — ela também fez lobbying com os estúdios para que o filme não fosse levado à frente. Esta matéria, aliás, traz muitas histórias de bastidores — se você curte o assunto ou simplesmente quer saber mais sobre a trajetória do filme “Steve Jobs”, vale muito a pena ler.

A saraivada de entrevistas não terminou, não. Sculley conversou com o Wall Street Journal e, resumidamente adorou o filme. Como muitos, disse que nem tudo o que está lá é verdade ou aconteceu exatamente no período mostrado no filme.

Sobre o filme em si, o ex-CEO da Apple comentou que achou tudo um entretenimento extraordinário e que fará tanto sucesso quanto “A Rede Social”. Sculley também elogiou a atuação de Jeff Daniels (que o interpretou), dizendo que ele conseguiu resumir muita coisa que sentia na época e sente agora. Contudo, deixou claro que não se trata de contar a história completa da personalidade de Jobs:

Parte da personalidade dele era perfeccionista, mas havia tantas outras partes da personalidade de Steve que eu conhecia pois Steve e eu não éramos apenas parceiros de negócios, nós fomos amigos incrivelmente próximos durante muitos anos. Eu poderia lhe dizer que o jovem Steve Jobs que eu conhecia tinha um ótimo senso de humor. Ele foi em muitas ocasiões, quando estávamos juntos, uma pessoa generosa. Ele se preocupava muito com as pessoas que trabalhavam com ele e era uma pessoa boa. Então, eu acho que esses não são os aspectos que o filme focou.

Se alguém tentar sair [do cinema] com uma imagem completa de quem foi Steve Jobs, não iria encontrá-la neste filme.

E não pense que acabou. Há outras entrevistas interessantes por aí como a que o TechCrunch fez com Boyle e Sorkin, e o compilado que a Macworld fez das informações na coletiva de imprensa em NYC.

E que tal mais uma espiada no filme, sob a visão das pessoas que o criaram?

Para finalizar, se você é fã de Sorkin e tecnologia, aqui vai uma notícia ruim: de acordo com o Patently Apple, o roteirista disse a Trevor Noah (apresentador do Daily Show) que não escreverá mais filmes sobre pessoas ou empresas ligadas ao Vale do Silício, afirmando “você não quer fazer essas pessoas ficarem com raiva de você”.

É, a briga foi mesmo feia…

[via MacRumors: 1, 2; Cult of Mac: 1, 2]

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