Como a cultura de segredo está atrapalhando o desenvolvimento de inteligência artificial na Apple

A Apple é uma empresa que adora guardar segredos e isso não é novidade para ninguém que acompanha um pouco da história da empresa. Como tudo na vida, há seus prós e contras.

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A parte boa para ela é que, mantendo segredo de produtos, softwares e tudo mais, a empresa impede que a concorrência conheça seus planos de antemão. Para usuários também é interessante, pois acaba criando aquela sensação de novidade quando algo é lançado (ainda que ultimamente quase tudo esteja vazando antes da hora). Mas, como disse, isso também tem o seu lado negativo. E um deles, como bem destacou a Bloomberg, tem a ver com uma área muito importante: inteligência artificial (IA).

A troca de informações e o compartilhamento de descobertas nessa área é algo quase que vital. Uma vez por ano, por exemplo, acontece a conferência de Sistemas de Processamento de Informações Neurais, onde milhares de pesquisadores de universidades e empresas (como Google, Microsoft, IBM, Baidu, Facebook, entre outras) se reúnem para mostrar seus trabalhos e tentar criar novas maneiras de adaptar softwares de acordo com os hábitos das pessoas. Algumas delas até mesmo apresentam oficialmente alguns trabalhos. Já a Apple…

Ainda que a empresa tenha participado da conferência no ano passado, os pesquisadores e cientistas da Maçã são quase que “invisíveis” — é até difícil saber que eles trabalham para a Apple, de acordo com Joshua Bengio (pioneiro da área e professor de Ciência da Computação na Universidade de Montreal). Richard Zeme, professor de Ciência da Computação na Universidade de Toronto, disse que “a Apple ultrapassou qualquer escala quando o assunto é segredo”, afirmando ainda que “a empresa está completamente fora do circuito”.

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Pense no rumorado “Apple Car”. Você já viu algum empregado da Apple no LinkedIn falando que está trabalhando num projeto automotivo? Não. Esse tipo de segredo também afeta a área de IA da empresa. De que acordo com Graham Taylor (professor de Aprendizado de Máquina na Universidade de Guelph), os pesquisadores/cientistas da Maçã são instruídos a não anunciar seus cargos em redes sociais, manter as portas de seus escritórios sempre fechadas (para que ninguém bisbilhote nada) e seus projetos dentro da empresa são desconhecidos pelos próprios colegas. Ou seja, aparentemente nem internamente há um diálogo, uma colaboração nessa área específica — algo que, como já vimos, é essencial na “nova Apple”.

Não há nenhuma maneira de eles apenas observarem [o cenário], não fazerem parte da comunidade e tirar proveito do que está acontecendo. Acredito que, se eles não mudarem a atitude, eles vão ficar para trás.

Joshua Bengio.

Bengio vai além, dizendo que os grandes talentos da área não querem se esconder dentro de uma empresa e trabalhar sem poder compartilhar seus feitos com a comunidade. Essa obsessão por segredo também estaria prejudicando a Apple a contratar talentos recém-formados, segundo Trevor Darrell (diretor de um centro de pesquisa de aprendizado artificial na Universidade da Califórnia), já que a capacidade de continuar publicando artigos e de manter uma presença na comunidade científica é um dos fatores mais importantes no direcionamento da carreira dessas pessoas.

É muito difícil fazer ciência dessa forma.

Sergey Levine (cientista/pesquisador do Google), ao falar do ambiente de trabalho da Apple.

Para uma empresa que tem mais de 40 vagas abertas que mencionam IA e mais de 120 mencionando aprendizado de máquina, essa não parece ser uma boa notícia.

[via AppleInsider]

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