FBI admite erro ao tentar mudar senha do iPhone de terrorista; advogado da Apple fala em “Estado policial”

Congresso americano

E vamos a mais detalhes do caso Apple vs. FBI

Como sempre, para entender tudo o que vamos falar aqui é imprescindível ter lido todos os artigos que publicamos sobre o assunto até agora. E não foram poucos, não:

FBI admite que errou

A Apple havia comentado que o FBI perdeu a melhor chance de colocar aos mãos nas informações do iPhone 5c do terrorista quando resolveu resetar a senha do ID Apple atrelado ao aparelho — por conta disso, o telefone não tinha mais como fazer um novo backup e enviar para a nuvem (iCloud) ao entrar em uma rede Wi-Fi conhecida e ser ligado a uma fonte de energia. Pois até então o FBI não havia assumido o erro, mas agora isso mudou.

Durante uma audiência do Comitê Judiciário da Câmara, ao ser perguntado se eles haviam encerrado as possibilidades de conseguir colocar as mãos em um backup mais recente do iPhone (atualmente eles têm acesso apenas a um backup realizado em 19 de outubro, bem antes do ataque terrorista), o diretor do FBI James Comey confirmou que eles erraram ao resetar a senha do ID Apple nas primeiras 24 horas em que estavam com o dispositivo nas mãos.

A privacidade tem limites?

Na opinião de Warren Buffett (investidor bilionário e filantropo americano), sim.

Conforme informou a CNBC, ele é mais um a ficar ao lado do FBI, dando até mesmo o 11 de setembro como exemplo. Para ele, se o FBI estivesse recebendo informações confiáveis de que algo iria acontecer, seria um caso no qual a segurança superaria a privacidade.

Obviamente Buffett não acha que isso se aplica a qualquer caso/situação. Em “coisas menores”, ele concorda que a privacidade deve reinar. O grande problema, neste cenário, é delimitar a linha de corte entre essas situações.

Na opinião do investidor, uma maneira de resolver isso seria o próprio diretor do FBI assumir qualquer responsabilidade: “Se há algo importante, algo que o procurador-geral ou o chefe do FBI estaria disposto a assinar, a ir até um juiz e dizer: ‘Precisamos dessas informações e precisamos dela agora’, eu estaria disposto a confiar que esse oficial se comportaria adequadamente.”

“Se perdermos, seremos levado a um ‘Estado policial'”

O advogado da Apple conversou com Laurie Segall, da CNNMoney e explicou um pouco mais o ponto de vista da empresa sobre o assunto.

Afirmando que a segurança do iPhone é justamente o motivo de muitos clientes optarem pelo aparelho, Ted Olson disse que é muito fácil dizer que existe terrorismo envolvendo no caso e que, portanto, a Apple deve fazer tudo que o governo quer. Para ele, não é porque o caso envolve terrorismo que devemos violar a liberdade civil que todos tanto prezam.

É claro que ele concorda que o terrorismo deve ser combatido e que algo assim é inaceitável, mas há limites. Perguntado sobre o que acontecerá quando a Apple criar um sistema impenetrável — algo que ela busca fazer —, Olson disse que todos, como cidadãos, têm o direito de escrever algo em um pedaço de papel e queimar depois. Há limites até onde o governo pode ir.

Depoimentos no Congresso

Em seu depoimento no Congresso, Bruce Sewell (vice-presidente sênior e conselheiro geral da Apple) disse que o mundo está observando o caso de perto e que a capacidade da empresa de manter uma posição coerente em todos os países, de dizer que não comprometerá a segurança de nenhum dos seus usuários ao redor do mundo, será substancialmente enfraquecida se a Apple for obrigada a criar uma backdoor no iPhone.

Ele afirmou que a Apple até hoje não recebeu demandas semelhantes de outros países, mas que se a empresa for condenada a cumprir a ordem do governo, choverão pedidos assim em pouco tempo.

Sewell também compartilhou algo interessante sobre o desaparecimento do voo 370 (na Malásia). Quando perguntado quão rapidamente a Apple é capaz de responder a pedidos do governo para obter ajuda, ele disse que neste caso específico, a empresa começou a ajudar cerca de uma hora depois, tentando localizar o avião. “Tínhamos operadores da Apple trabalhando com provedores de telefonia em todo o mundo, com as companhias aéreas e com o FBI para encontrar algo.”

A professora Susan Landau abordou questões importantes sobre a tecnologia utilizada pelo FBI, sugerindo que o órgão do governo precisa de se concentrar na inovação e no recrutamento de talentos para construir melhores ferramentas em vez de pedir para a Apple criar um software sem segurança. “Em vez de leis e regulamentos que enfraquecem as nossas proteções, devemos permitir que órgãos de segurança desenvolvam capacidades do século XXI para a realização de investigações.”

O caso da prisão do executivo do Facebook no Brasil

Nesta semana, um caso “semelhante” acabou na prisão de Diego Jorge Dzodan (vice-presidente do Facebook para a América Latina).

O executivo foi preso — ele já está solto graças a um habeas corpus — após o Facebook descumprir uma decisão judicial na qual deveria compartilhar informações trocadas no WhatsApp por suspeitos de tráfico de droga. O problema, segundo a empresa, é que eles não podem fornecer informações que não têm.

Nós cooperamos com toda a nossa capacidade neste caso, e enquanto respeitamos o trabalho importante da aplicação da lei, nós discordamos fortemente desta decisão.

O WhatsApp não armazena as mensagens dos usuários. Nós apenas mantemos as mensagens até que elas sejam entregues. A partir da entrega, elas existem apenas nos dispositivos dos usuários que as receberam.

Além disso, estamos estendendo um forte sistema de criptografia de ponta a ponta, o que significa que as mensagens dos usuários são protegidas dos criminosos virtuais. Ninguém — nem o WhatsApp ou qualquer outra pessoa — pode interceptar ou comprometer as mensagens das pessoas.

Dá para entender por que Google, Microsoft, Facebook, Twitter e outras empresas estão apoiando a Apple no caso contra o FBI, não é? Caso o governo americano saia vencedor dessa disputa, todas as empresas que de alguma forma lidam com informações sensíveis de usuários passarão a ser alvo de possíveis investigações/retaliações.

[via Re/code, Cult of Mac, The Next Web, MacRumors, G1]

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