Chefão de software da Apple escreve para jornal sobre disputa com o FBI; ONU e ex-integrantes de agências de inteligência se pronunciam

Prédio do FBI

O caso Apple vs. FBI acaba de ganhar mais um capítulo importante, já que Craig Federighi (vice-presidente sênior de engenharia de software da Maçã) resolveu falar sobre o assunto. A forma escolhida foi escrever um artigo para o jornal The Washington Post — que foi recentemente comprado por Jeff Bezos (CEO da Amazon.com, empresa que está ao lado da Apple nesta disputa).

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A opinião de Federighi

Como chefe de engenharia de software da Apple, acho que nada é mais importante do que a segurança de todos os nossos clientes.

Assim como Tim Cook, Federighi deixou claro logo no começo do artigo que nossos telefones atualmente são mais do que aparelhos pessoais. Neles, temos informações sensíveis de familiares e colegas de trabalho (incluindo possíveis localizações). Até mesmo dados vitais de infraestrutura dos EUA (como redes de energia e centros de transportes) podem se tornar mais vulneráveis quando tais dispositivos são hackeados — afinal, iPhones estão cada vez mais presentes em empresas. E o que criminosos e terroristas querem é justamente isso: infiltrar sistemas e desmantelar redes sensíveis. Isso pode começar com apenas um smartphone, de uma pessoa.

Ele deixou claro que é por isso que a Apple trabalha tão forte para deixar seus aparelhos seguros. Mas, como todas as empresas, ela está sujeita a erros, afinal humanos são suscetíveis a falhas. Contudo, ainda que um erro possa se tornar um ponto de fraqueza — algo para as pessoas mal intencionadas explorarem —, identificar e corrigir esses problemas são partes críticas da missão da Apple de manter seus clientes seguros. E, para Federighi, fazer qualquer coisa para dificultar essa missão seria um erro grave. É aí que entra o pedido do FBI/governo, que quer justamente dificultar essa missão da Apple.

Eles sugeriram que o nível de segurança do iOS 7 é bom o suficiente e que devemos simplesmente voltar para as normas de segurança de 2013. Mas a segurança do iOS 7, ainda que fosse de ponta em sua época, já foi violada por hackers. Pior: alguns de seus métodos foram produzidos e estão agora à venda para malfeitores que são menos qualificados, mas muitas vezes mais maliciosos.

Federighi conta que se tornou um engenheiro pois acredita no poder da tecnologia para enriquecer as vidas das pessoas. Para ele, grandes softwares têm potencial quase que ilimitado de resolver problemas humanos e podem se espalhar por todo o mundo em um piscar de olhos. Mas, da mesma forma, códigos maliciosos se movem tão rapidamente quanto e, quando algo assim é criado pela razão errada, tem uma capacidade enorme e crescente para prejudicar milhões de pessoas.

As melhores defesas de ontem não podem se defender dos ataques de hoje ou de amanhã. As inovações de software do futuro dependerão da fundação da segurança de dispositivos fortes.

O FBI precisa mesmo da Apple?

Mas será que o FBI precisa mesmo da Apple? Esta é a pergunta que Selina Wang, da Bloomberg, fez para algumas pessoas da área.

De acordo com especialistas de segurança entrevistados por ela, há muitas maneiras de o FBI hackear o iPhone 5c que está gerando esse impasse. Ninguém falou que invadir o aparelho seria trivial ou algo do tipo, mas eles argumentam que fazer isso seria mais rápido do que esperar tribunais ou o Congresso americano decidir se a Apple deve ou não atender ao pedido do governo.

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Esses especialistas concluíram que o FBI nem sequer está tentando mais invadir o iPhone pois prefere ganhar um precedente legal que dará aos agentes o poder de acessar dados de telefones “apenas” com um mandado.

O pesquisador de segurança Jonathan Zdziarski, por exemplo, disse que o FBI poderia fazer como aquele quiosque na China que faz upgrades de memória interna de iPhones (passando de 16GB para 128GB). Segundo Zdziarski, eles poderiam copiar o conteúdo do aparelho da mesma forma que os chineses fazem para ter um backup caso a tentativa de “adivinhar” a senha falhasse e o conteúdo fosse apagado.

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Já para Jason Syversen, ex-gerente da Defense Advanced Research Projects Agency e agora chefe de segurança da Siege Technologies, todos os sistemas operacionais possuem falhas, incluindo os da Apple — a prova disso é que vira e mexe a Maçã libera atualizações com diversas correções atreladas a segurança.

Jay Edelson (advogado que costuma liderar processos/ações coletivas contra gigantes do setor de tecnologia) desta vez está ao lado da Apple, dizendo que o FBI quer apenas marcar pontos políticos nesta disputa — e que poderia desbloquear o iPhone por conta própria.

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Ou seja: o que estaria em jogo, até mesmo para o FBI, é o precedente.

Organização das Nações Unidas se pronuncia

A Bloomberg também informou que, através de Zeid Ra’ad Al-Hussein (alto comissário para direitos humanos), a ONU (Organização das Nações Unidas) também se pronunciou.

Para a organização, as autoridades estão arriscando abrir uma “Caixa de Pandora” já que não se trata de um caso, de uma empresa, em um país. “Isso terá enormes ramificações.”

A opinião de quem já esteve lá dentro

Michael Chertoff é ex-secretário de segurança interna dos EUA e está ao lado da Apple na disputa. Para ele, conforme informou o USA TODAY, o problema todo em a empresa criar a tal backdoor no iOS é que isso exigirá não apenas a criação do código do novo sistema operacional, mas a manutenção dele já que muito provavelmente diversos outros pedidos, para outros aparelhos, surgiriam depois deste primeiro.

Depois de criar o código que é potencialmente comprometedor, é como [criar] uma arma bacteriológica. Você está sempre com medo de ela sair do seu laboratório.

O discurso é bem similar ao de Cook, que disse em uma entrevista que esse novo iOS que o FBI quer ver a Apple criando seria “o equivalente a um câncer”.

Mike McConnell (ex-diretor da NSA) disse que “criptografia onipresente é algo que o país precisa de ter”, até mesmo para proteger o país contra o roubo de propriedade intelectual de outros países (especialmente da China). Ou seja, até mesmo algumas pessoas que já ocuparam cargos importantes dentro do governo enxergam razão nos atos da Apple.

Mais empresas ao lado da Apple

Já falamos aqui das diversas empresas, organizações, professores de Direito e outros que estão ao lado da Apple na disputa. Pois a lista não para de crescer e recentemente entraram no bolo nomes como Amazon, Box, Cisco, Dropbox, Evernote, Mozilla, Nest, Pinterest, Slack, Snapchat e mais.

Acompanhe o caso

Já falamos bastante sobre o assunto e, para facilitar a leitura, listamos todos os artigos sobre o tema abaixo:

[via Re/code, AppleInsider, Patently Apple, Cult of Mac]

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