Refletindo: a Apple é uma conspiração para mudar o mundo [atualizado]

Gosto muito da frase do Nobel de Literatura, Orhan Pamuk:

Literatura é a arte de esconder o centro.

Essa frase faz muito sentido. Em qualquer obra de arte — livro, pintura, música, filme… —, o artista que a criou tem o objetivo de lhe enganar. Ele coloca na sua frente uma série de instrumentos para lhe entreter, mas sua missão no fundo é causar uma reflexão através de símbolos, metáforas e analogias que às vezes passam desapercebidas.

Exatamente o mesmo acontece com tecnologia.

Toda grande empresa de tecnologia é construída em volta de uma verdade que é escondida da audiência: algo como uma “conspiração” para mudar o mundo. Peter Thiel, cofundador do PayPal, fala sobre isso no seu livro “Zero to One”.

O interessante, como ele pontua, é que em uma conspiração quando você compartilha sua ideia você torna os recipientes seus co-conspiradores.

A Apple é um grande exemplo de empresa conspiradora que esconde o centro. Vejamos dois exemplos.

Quando o primeiro iPod foi lançado, em 2001, ele foi considerado pela imprensa como nada mais do que um MP3 player bonitinho e menor do que os outros, quando na verdade Steve Jobs concebeu ele para ser o primeiro aparelho portátil da era pós-PC.

Quando Jobs subiu ao palco em 2001, seu plano verdadeiro não era só “colocar 1.000 músicas no seu bolso”, como ele contou para a audiência na keynote. Isso é uma meia-verdade contada para as massas, com o intuito de deixar a novidade mais tragável.

Imagina como seria a apresentação do iPod em 2001 se Jobs começasse dizendo: “Bom dia a todos. Hoje nós vamos começar um longo e elaborado plano para colocar computadores nos bolsos de todas as 7 bilhões de pessoas do planeta Terra.”

Exatamente a mesma coisa vale para o iPhone, em 2007.

Se você perguntar na rua, pouca gente vai dizer que concorda que o iPhone mudou o mundo. Provavelmente eles sequer vão lembrar que o iPhone foi o primeiro celular a ter tela multi-toque ou nem mesmo lembrarão como era o mundo antes de 2007. Provavelmente vão até dizer que o iOS copia o Android.

Esse foi outro segredo escondido do público. O iPhone foi apresentado pela Apple como “A reinvenção do celular”, que nada mais é do que uma frase bonita para chamar a atenção da audiência, quando na verdade sua intenção é continuar executando o plano iniciado em 2001.

A missão da Apple de colocar o computador que ficava na mesa em nossos bolsos foi um plano bem executado, não uma série de eventos que aconteceram simplesmente por acontecer. Essa é a beleza da tecnologia.

A terceira parte desse plano iniciado em 2001 chama-se Apple Watch.

E o resto, como dizem, é história.

Atualização · 27/04/2016 às 17:29

Um exemplo de outra empresa, para ilustrar. O plano de Jeff Bezos (CEO e cofundador da Amazon.com) sempre foi construir uma loja online que vendesse absolutamente de tudo. Só que ele começou vendendo somente livros, por dois motivos: livros são mais fáceis de embalar e, consequentemente, distribuir. Na época não era claro para ninguém sua intenção inicial. Ao longo dos anos, o plano foi sendo executado com precisão cirúrgica. O resultado é esse que vemos hoje.

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