Em nova entrevista, executivos da Apple discutem o Maps, o futuro da empresa e a gestão de Tim Cook

Não sei qual foi o remédio que deram aos executivos da Apple nos últimos tempos que eles desataram a falar, falar e falar. O fato é que hoje foi publicada uma continuação da entrevista da Fast Company que saiu originalmente na segunda-feira; Eddy Cue (vice-presidente sênior de software e serviços para internet) e Craig Federighi (vice-presidente sênior de engenharia de software) continuam falando das suas experiências dentro da companhia, com destaque aos polêmicos Mapas da Apple, mas desta vez com uma ênfase maior na parte de falhas, erros e recuperações a partir deles.

Confiramos alguns destaques a seguir.

Eddy Cue e Craig Federighi, executivos do alto escalão da Apple

A primeira parte da entrevista concentra-se no Apple Maps e no processo de desenvolvimento do aplicativo. Temos alguns raros vislumbres do modus operandi da Apple na abordagem para com o seu serviço de Mapas, especialmente quando Cue começa a falar de como é difícil mantê-lo — especialmente considerando que, em suas próprias palavras, “ninguém está desenvolvendo mapas de uma forma significativa hoje em dia, tirando nós [a Apple] e o Google”.

Outra coisa sobre o Mapas é que ele nunca está pronto. Todos os dias negócios abrem e fecham, ruas mudam, estradas são construídas. Coisas de curto prazo acontecem, como pistas particulares fechando, tráfego, uma ponte bloqueada. A coisa toda é extremamente dinâmica, o que cria um problema interessante. […] Um bom exemplo: um campo de golfe. Como nós sabemos que um novo campo de golfe abriu? Nós não estamos exatamente dirigindo por aí procurando por campos de golfe. Mas se nós vemos que apps de golfe estão sendo usados numa localidade em particular, e ela não é mostrada como um campo de golfe, nós temos um problema.

Em outras palavras, uma bela declaração sobre como dados de colaboração coletiva coletados de iPhones são uma das melhores formas de melhorar os Mapas da Maçã — Cue deixa bem claro que esses dados são anônimos e indetectáveis, é bom notar. O entrevistador pergunta, então, se ao detectar um desses casos é necessário se dirigir até o campo de golfe.

Depende. Algumas coisas você faz somente procurando na internet e verificando se um campo de golfe existe naquela localidade. Você pode olhar em imagens de satélite se houve construções recentes naquela área. Em último caso, você se dirige até lá.

A conversa então foca-se no fato de o Mapas ser um serviço extremamente caro para a Apple, ao qual se dedicam “milhares de empregados”, segundo Cue. Os executivos concluem que, embora o aplicativo em si não gere renda para a Maçã, ele é parte da fundação de um ecossistema amplo e bem-desenvolvido que atrai consumidores para o lado da Apple e, portanto, merece toda a dedicação.

Em seguida, o assunto é a eterna busca da Apple em fazer produtos perfeitos e a eventual escorregada que acaba decepcionando milhões de usuários ao redor do mundo, bem como afetando negativamente o mercado e as ações da empresa — como foi o próprio Mapas inicialmente, por exemplo. Reconhecendo que a Apple não é perfeita e irá cometer erros, Cue admite que “existe uma série de questões trazidas por consumidores que nós ainda não tratamos, mas gostaríamos de tratar”.

Quando questionado se é real a percepção de que a Apple erra mais hoje que no passado, ele afirma:

Bom, hoje temos mais gente, mais aparelhos, mais meios de comunicação disponíveis. Na verdade, eu penso que nossos produtos têm menos erros que no passado, e nossos dados mostram isso. Mas é o que eu digo à minha equipe o tempo todo: quando nós éramos só a empresa do Mac, se impactássemos 1% dos consumidores, era algo medido em milhares. Agora, se impactamos 1% dos nossos consumidores, isso é medido em dezenas de milhões. Nossos produtos são melhores, mas a exigência é maior, e eu gosto disso.

A nova busca da Apple, em criar experiências únicas para o usuário, também foi abordada na entrevista. Sobre o assunto, Federighi declarou:

Nós pensamos em termos de experiências. Usamos esses aparelhos todos os dias, e pensamos o que gostaríamos que eles fizessem por nós. Estas experiências aspiracionais nos levam por todo tipo de estrada tecnologicamente, para todos os tipos de problemas que precisamos resolver. Nós pensamos “oh, nós gostaríamos que o Watch desbloqueasse o Mac”, porque precisamos desbloquear nossos Macs todos os dias. Não começa com “olha, nós temos tido avanços na área de wireless e eles querem que nós usemos a sua tecnologia para alguma coisa”.

Quando questionados se a Apple acabaria se tornando a empresa do iPhone, se acomodando e satisfazendo-se a vender iterações um pouco melhores do aparelho ano a ano como sua principal fonte de renda, Cue foi categórico: “Não será assim. Olhe para o Mac. Nós ainda pomos uma quantidade enorme de esforço nele, e ele tem 30 anos de idade. Olhe para o OS X, a mesma coisa.”

Sobre a ideia de que todas as grandes empresas de tecnologia (Apple, Google, Facebook, Amazon…) estariam atrás de apenas uma coisa no fim das contas — o domínio total do usuário dentro dos seus ecossistemas —, ambos os executivos discordaram em uníssono da visão. Cue, então, declarou que a Apple não quer ser tudo isso:

Eu amo o Facebook. Nós não podemos ser tudo. Uma das razões de sermos tão bem-sucedidos é que temos foco. Não podemos ser excelentes em tudo; ninguém é excelente em tudo. […] Nós tivemos sorte. Somos muito bons em algumas coisas, não só uma. Então não queremos ser a Amazon ou o Facebook ou o Instagram ou sei lá. Por que? Ou o Uber. Por que? Eu acho incrível que Travis [Kalanick, CEO do Uber] e sua equipe construíram o Uber na nossa plataforma. Ele não existiria sem a nossa plataforma, sendo bem claro. Mas que bom que eles pensaram naquele problema e o resolveram. Nós nunca poderíamos ter feito isso, porque não estávamos concentrados ali.

Por fim, Cue e Federighi conversam um pouco sobre as gestões de Steve Jobs e Tim Cook à frente da Apple e as suas diferenças. Cue afirma:

Não é tão diferente no sentido de que os dois são extremamente exigentes. […] Eu nunca quis desapontar Steve, e eu nunca quero desapontar Tim. […] Mas a abordagem é completamente diferente. Steve chegava na sua cara gritando, enquanto Tim é mais quieto, mais cerebral no seu jeito de tratar as coisas. Mas o sentimento é o mesmo. E quando você desaponta Tim, mesmo que ele não grite com você, você sente a mesma coisa. […] Uma coisa que eu amo sobre Tim, a chave do sucesso dele, é que ele nunca tentou ser Steve, e sim ser ele mesmo.

A entrevista completa pode ser lida aqui. Vale bastante a pena.

[via 9to5Mac]

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