Em longa entrevista, Tim Cook abre o jogo sobre críticas, Steve Jobs, inteligência artificial e mais

Tim Cook

Em uma recente entrevista para a Fast Company, Tim Cook já nos mostrou não se importar tanto com as falácias sobre a Apple e admite claramente que comete erros. Aliás, a humildade está presente em todos os seus discursos, incluindo uma extensa entrevista que deu para o The Washington Post logo após anunciar a venda do bilionésimo iPhone.

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Na ocasião, Cook discorreu acerca do que já passou durante os cinco anos em que está no cargo de CEO da Maçã e nos demonstrou o que espera para os próximos anos.

Os olhares e cobranças

Por ser CEO1 de uma das empresas mais conhecidas e bem-sucedidas do mundo, Cook está sempre sendo observado a cada passo e — não diferentemente de outras pessoas sob holofotes — recebe diariamente palavras de apoio ou diversas críticas. Ao ser perguntado sobre “como se acostumar com isso”, ele explica que “não tem como”.

Você recebe tanto elogios como críticas e os extremos são amplos — muito amplos. E isso pode acontecer tudo em um dia. Você vai se fortalecendo — minha pele ficou substancialmente mais espessa após agosto de 20112. E eu não digo de uma maneira ruim. Não quero dizer que me tornei insensível e não me importo mais. Acho que sou um pouco melhor hoje em compartimentar as coisas e não levar tudo para o lado pessoal.

Ao ser lembrado do discurso saudosista de usuários e analistas que dizem que a empresa já foi melhor, Cook explica não se importar por sempre dizerem a mesma coisa.

Eles diziam isso sobre a Apple em 2001. Eles diziam isso em 2005. Eles diziam isso em 2007 — “este iPhone estúpido, quem inventou essa coisa?”. Depois, eles diziam que atingimos nosso máximo em 2010, e depois em 2011. Nós tínhamos US$60 bilhões [em receitas] e disseram que não havia como crescer mais do que isso. Bem, no ano passado atingimos US$230 bilhões. E, sim, este ano diminuiu. Não são todos os anos que você consegue aumentar, sabe? Eu já ouvi tudo isso antes. E não concordo por muitos motivos com o pensamento tradicional que diz que: você não pode crescer mais porque você já é grande.

Já para os investidores impacientes que buscam retorno financeiro a curto prazo, Cook deixa claro que o foco da empresa está no longo prazo.

Eu acho que, para os investidores focados no longo prazo, se você olhar como temos feito nos últimos cinco anos, nosso retorno total para o acionista é superior a 100%. Esse é um número muito bom. E acho que a maioria das pessoas que acompanham as ações por todo esse tempo estão provavelmente muito felizes.

Valores da Apple

Quando perguntado sobre as qualidades da Apple que pretendia manter, Cook deu o seu discurso de sempre, dizendo que gostaria de permanecer com a habilidade de “fazer produtos insanamente ótimos que realmente mudem o mundo de certa forma, que acrescentem às vidas das pessoas” e isso tem sido mantido. Já sobre as temíveis e inevitáveis mudanças, o CEO da Apple citou o engajamento social, a preocupação de demonstrar a importância da sustentabilidade, entre outras coisas.

O mais óbvio é que nós temos mais empregados. A empresa está quatro vezes maior [em receita desde 2010]. Nós já ampliamos a linha de iPhones — essa foi uma decisão fundamental que considero muito boa. Entramos no negócio do Apple Watch, o que nos levou a considerar o bem-estar e a saúde. Nós continuaremos nesse caminho para ver aonde isso nos levará.

Tim Cook comemorando o bilionésimo iPhone vendido
Tim Cook comemorando o bilionésimo iPhone vendido

Sobre não ser um “CEO tradicional”

O modo como um CEO se porta frente à sua empresa pode afetar muito os seus produtos. Portanto, Cook explica o que seria um “típico CEO” e por que ele não concorda e nem se encaixaria com essa conduta.

Eu penso em um CEO tradicional como sendo alguém divorciado dos clientes. Diversos CEOs de empresas não interagem com os consumidores.

Eu também acho que o CEO tradicional acredita que o seu trabalho é o lucro e a perda, é a declaração das receitas, as rendas e despesas, o balanço. Estas coisas são importantes, mas eu não acho que são as únicas coisas que importam. Existe uma grande responsabilidade para com os empregados da empresa, as comunidades e países onde a empresa opera, as pessoas que montam os produtos, os desenvolvedores e todo o ecossistema da empresa.

iPhone, inteligência artificial e realidade aumentada

Considerando que estamos no 9º ano desde o lançamento do primeiro iPhone, vemos que ele ainda é uma grande potência no mercado. Na empresa o smartphone representa dois terços das vendas, fato usado pela entrevistadora Jena McGregor para perguntar como a Maçã progredirá sendo que o mercado está esfriando. Cook demostra despreocupação e diz que isto não é um problema, mas um privilégio; explica que, a longo prazo e com o progresso da inteligência artificial, iPhones se tornarão ainda mais essenciais.

Olhe para as principais tecnologias que compõem o smartphone de hoje e olhe para as que serão dominantes no futuro — como a inteligência artificial. A IA vai fazer com que o produto seja ainda mais essencial para você. Ele vai se tornar um melhor assistente do que é hoje. Então, se você provavelmente não sai sem ele de casa hoje — você certamente estará conectado a ele no futuro. Esse nível de desempenho vai subir rapidamente.

Ainda neste assunto, a entrevistadora pergunta se a Apple conseguirá “alcançar” o nível de concorrentes como Facebook, Google e Amazon e suas iniciativas de IA. Em uma resposta otimista, Cook afirma que a empresa não está “ficando para trás”.

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Cada vez mais, a Siri entende as coisas sem ter que memorizar certas maneiras de falar algo. A previsão da Siri está aumentando. O que fizemos com a IA é concentrar em coisas que vão ajudar o cliente. E nós anunciamos em junho que estamos abrindo a Siri a terceiros, para que desenvolvedores possam agora usá-la. […] E, assim, é como estamos ampliando bastante a Siri.

Já ao ser perguntado sobre o campo de realidade aumentada, o discurso reservado sobre novos projetos não permite que o CEO dê muitos detalhes.

Eu considero RA [realidade aumentada] extremamente interessante e uma tecnologia muito importante. Então, sim, é algo com que estamos fazendo várias coisas por trás das cortinas. [risos]

Steve Jobs e sucessores

Em uma pergunta sobre como ele se sentiu ao “tomar o lugar” de um dos ícones do mundo dos negócios, o CEO da Maçã nos agraciou com comentários sobre seu antecessor.

Para mim, Steve não é substituível. Por ninguém. [voz suaviza] Ele era um ser único. Eu nunca vi que esse era o meu papel. Acho que teria sido algo traiçoeiro se eu tivesse tentado. Quando eu assumi o cargo como CEO, realmente pensei que Steve estaria aqui por um longo tempo. Porque ele seria o presidente, trabalharia um pouco menos depois de se recuperar. Então eu tomei o posto com um pensamento e, semanas depois — seis semanas depois, sei lá. […] Foi muito rápido. [O dia em que ele morreu] foi meio que o pior dia de todos. Eu já tinha me convencido. Sei que isso pode soar bizarro, mas eu já tinha me convencido de que ele superaria, porque era o que ele sempre fazia.

Lembrando as diversas idas e vindas deste posto, a entrevistadora perguntou se Cook teria alguns planos para que as transições de CEOs sejam mais ordenadas.

No fim de cada reunião do conselho, discuto sobre sucessão pois eu poderia cometer algum erro ou algo assim. Nós temos a boa disciplina para fazer isso. Em seguida, o meu papel é me certificar de que conselho tenha fortes candidatos para o cargo. E eu levo isso muito a sério. Olho à minha volta, para as ótimas pessoas com as quais eu trabalho — existem realmente talentos magníficos na empresa.

O futuro da Apple

Ao ser questionado sobre as perspectivas de crescimento a longo prazo da Apple, Cook destacou alguns serviços e também o iPad Pro, que vem ganhando um grande espaço em ambientes corporativos.

Dentre os produtos atuais, temos serviços [iCloud, App Store, Apple Pay, etc.], que ao longo dos últimos 12 meses cresceram de US$4 bilhões para cerca de US$23 bilhões [em vendas].

O que mais? O iPad. O iPad Pro. O que vimos no trimestre passado é que cerca de metade das pessoas que estão comprando um, o estão usando no trabalho. Temos uma enorme oportunidade nas empresas. No ano passado nós fizemos US$25 bilhões ou mais com isso em todo o mundo. Estamos trabalhando melhor com nossos principais parceiros porque é importante; se você está pensando em usar nossos produtos ou produtos de qualquer outro em sua empresa, é necessário que eles funcionem bem juntos.

·   ·   ·

Definitivamente há muito a ser dito e, na enorme entrevista de mais ou menos 10.000(!) palavras, Cook ainda discursou sobre o conhecido caso do FBI, os erros que já cometeu estando à frente da empresa, a quem ele procura para pedir conselhos, sua decisão de se pronunciar quanto à sua orientação sexual e mais.

Você pode acessar a entrevista integral (em inglês, é claro), que também conta com dois pequenos vídeos, por este link.

[via Recode]

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