Refletindo: a morte da saída para fones de ouvido e o plano de conspiração da Apple

Viva no futuro, crie o que está faltando.

Paul Graham.

Sempre que uma mudança na tecnologia acontece, costumo me perguntar uma coisa: “Se eu contasse para meus netos que o mundo era daquele jeito, eles dariam risada ou não?” Isto me levou a pensar, recentemente, em fios e cabos.

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Afirmar que vivemos em um mundo wireless é uma premissa relativamente falsa. Toda nossa comunicação com a internet é feita com cabos subterrâneos e submarinos que conectam os continentes trazendo internet na velocidade da luz. Estamos condenados aos fios.

O resto da nossa conexão é feita através ondas eletromagnéticas ou, em outras palavras, rádio. Wi-Fi, Bluetooth e telefonia celular são nada mais do que ondas de rádio com diferentes frequências e protocolos.

Mesmo nos conectando de forma sem fio com o mundo exterior, ainda penduramos um cabo na orelha para escutar música. Para que meus netos não riam desse fato deplorável, a Apple começou, na semana retrasada, uma conspiração para mudar o mundo. Como sempre fazem, do primeiro Apple II ao iPhone.

Sobre conspirações

Já comentei antes sobre os planos conspiratórios da Apple.

Eu adoro esta frase de Peter Thiel, no livro “Zero to One”:

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Os melhores empreendedores sabem disso: todo negócio incrível é construído em volta de um segredo que é escondido de fora. Uma grande empresa é uma conspiração para mudar o mundo; quando você compartilha seu segredo, o receptor se torna um conspirador também.

A missão declarada da Apple é “criar os melhores produtos na Terra e deixar o mundo um lugar melhor do que encontrou”, como anunciou no ano passado. É essa sua conspiração.

O plano da Maçã para mudar o mundo sempre foi muito evidente: criar um dispositivo revolucionário a um preço altíssimo e torná-lo um objeto de desejo alucinante. O objeto de desejo será copiado por outras empresas, que venderão o aparelho a um preço acessível para o resto do mundo. E é isso: você colocou um computador na mesa de metade do planeta Terra.

iMac G3

A Apple é famosa por suas decisões polêmicas. Em 1998, retirou o disquete do iMac G3; em 2008, se recusou a dar compatibilidade para o Flash Player no iPhone; em 2008, retirou a porta de rede (Ethernet) e o drive óptico (CD/DVD) do MacBook Air. O que se desenrolou nos anos seguintes foi evidente: todas as empresas seguiram a sua tendência. E quando todas as empresas seguem a tendência, o que é antigo é eliminado.

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Hoje, os cabos de rede e CDs são escassos; o disquete, nem se fala. Tudo graças à execução de um plano bem elaborado.

Essas decisões polêmicas só poderiam ser tomadas pela Apple. Fossem elas tomadas pela Samsung, seriam nada mais do que um tiro na própria boca. Essa é a diferença entre a Samsung e a Apple: a primeira tem a missão de gerar lucro e deixar acionistas felizes. A segunda é isso + mudar o mundo.

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Era preciso uma empresa com uma legião de fãs, um ídolo idolatrado e um culto por trás para realizar uma mudança disruptiva. Sempre foi assim, do mais antigo império romano à eliminação da saída para fones de ouvido.

E o futuro?

No futuro, o fato de termos usado fios na orelha para escutar música será motivo de piada. Assim como eu fico impressionado com os computadores que ocupavam uma sala inteira há 30 anos, ou como meu irmão nunca viu sequer um disquete na vida, meus filhos vão olhar o primeiro comercial do iPod e gargalhar daquele fio branco pendurado.

Durante os próximos anos, empresas que produzem hardwares Bluetooth, fones de ouvido e outros aparelhos começarão a desenvolver produtos cada vez mais rápidos e inteligentes — inclusive a Apple. Bilhões serão colocados em pesquisa e desenvolvimento de tecnologia de transmissão de áudio sem fio.

Em 5 anos, a saída P2 (3,5mm) será usada por uma minoria. Em 10, será uma lembrança saudosa e em 20 será motivo de risada. Sempre foi assim.

Eu já entrei na conspiração, mas agora é tarde demais. Já ouço as risadas dos meus netos.

Felizmente.

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