Em grande entrevista, Phil Schiller fala das controvérsias do novo MacBook Pro

Desde a quinta-feira da semana passada que não se fala em outra coisa, seja para o bem ou para o mal. Sim, me refiro ao novo MacBook Pro com Touch Bar/Touch ID. Até mesmo os executivos da Apple estão dando entrevistas a torto e a direito sobre a máquina.

https://macmagazine.uol.com.br/2016/10/28/entrevistas-executivos-da-apple-contam-um-pouco-sobre-o-novo-macbook-pro/

https://macmagazine.uol.com.br/2016/11/01/entrevista-jony-ive-conta-sua-experiencia-na-criacao-do-novo-macbook-pro/

Além de conversar com a CNET [acima], Phil Schiller (vice presidente de marketing mundial da Apple) também bateu um papo com David Phelan, do The Independent, sobre o MBP e suas novidades/ausências.

Eles falaram um pouco sobre a história do notebook (a própria Apple deu um foco relativamente grande nisso durante o evento, chegando a publicar um comercial mostrando o histórico das suas máquinas), o peso/volume dos novos portáteis (que são mais leves/menos volumosos, porém mantendo a mesma solidez), os desafios de engenharia (por exemplo, nem passa pela cabeça de usuários comuns o quanto de trabalho está envolvido para que o novo — e gigante — trackpad rejeite de forma precisa os toques involuntários enquanto estamos digitando), entre outras coisas.

Obviamente, o foco da conversa não poderia ser diferente de Touch Bar e escolhas tecnológicas que a Apple teve que fazer para criar este novo MBP.

Touch Bar

Schiller mais uma vez deixou clara a crença da Apple ao dividir bem suas categorias de produtos. Para eles, há uma linha divisória entre dispositivos como iPhones e iPads (“pedaços de vidro” que nós interagimos com toques) e computadores desktop/laptop (estruturas em “L”, formadas por uma tela e um teclado/mouse). Ainda que seja um form factor bem mais antigo, Schiller explicou que, ao menos para ele (e consequentemente para a Apple) os computadores ainda perdurarão por muitos e muitos anos. E não há motivo para querer mesclar essa forma de interação com a que temos com iPhones e iPads (ou seja, colocar uma tela sensível ao toque em Macs para tentar replicar a experiência que temos com smartphones e tablets).

Evento especial da Apple - MacBook Pro - Outubro de 2016

Isso não quer dizer que a Apple não tentou criar um produto assim. Os testes, porém, não conseguiram reproduzir uma experiência satisfatória, tão boa e intuitiva quanto a que temos hoje com teclado e mouse. A Touch Bar nasceu, então, como uma consequência disso.

Essa orientação básica, essa forma em L, faz todo o sentido e não vai embora. Nossa equipe veio com essa ideia de que você pode criar uma superfície multi-touch que é coplanar ao teclado e ao trackpad, mas traz uma experiência totalmente nova, que é mais interativa, com multi-touch.

Por que tirar o slot para cartões SD?

Esta é, sem dúvida, uma pergunta que muitos de nós fizemos ao ver o novo MBP. E Schiller tratou de respondê-la.

A Apple chegou à conclusão de que, além de ser uma entrada estranha por deixar metade do cartão para fora, existem no mercado leitores USB de cartões bastante finos e rápidos, capazes de suportar tanto cartões CompactFlash quanto Secure Digital. No passado, a Apple decidiu colocar um slot para cartões SD por este ser o padrão mais utilizado por fabricantes de câmera (consequentemente, por usuários). Mas é inegável que muitos outros utilizam CF e que a Apple só poderia atender um público com esta entrada.

Atualmente, porém, muitas fabricantes estão começando a investir em recursos de transferências de fotos sem fio nas próprias câmeras. Isto, junto dos adaptadores mais rápidos e versáteis que existem no mercado, fez com que a Apple retirasse o slot para cartões SD dos MBPs.

Por que manter a saída analógica de áudio (3,5mm)?

A Apple teve coragem suficiente para retirar a saída de áudio analógica (3,5mm) dos iPhones 7/7 Plus. Nos novos MBPs, porém, ela preferiu manter a conexão da mesma forma. Schiller disse que tirá-la dos iPhones e manter no notebook não é sinal de inconsistência.

Se fosse apenas sobre fones de ouvido, então ele [o conector] não precisaria estar lá, pois nós acreditamos que [a tecnologia] sem fio é uma ótima solução para fones de ouvido. Mas muitos usuários têm configurações com monitores de estúdio, amplificadores e outros equipamentos de áudio profissional que [ainda] não têm soluções sem fio e precisam do conector de 3,5mm.

Novos MacBook Pros fechados de lado

Bem, este cenário dificilmente mudará nos próximos 2-3 anos (ou até mais), então vamos ficar de olho para ver se a porta continuará mesmo lá.

Mas, veja bem: eu falei aí em cima que a Apple preferiu manter a conexão da mesma forma, né? Pois não é bem assim: o AppleInsider descobriu que, assim como as Apple TVs de quarta geração, o novo portátil não tem mais uma saída de áudio óptica. Basta dar uma olhada nas páginas de especificações dos MBPs novos, dos antigos e comparar. Aos que não sabem do que se trata, este tópico do MM Fórum explica muito bem o que é a saída de áudio óptica.

Siri no Mac

A Siri foi lançada no iPhone em 2011, mas só chegou ao Mac em 2016. Por que tanta demora? De acordo com Schiller, se fosse apenas para levar a Siri ao sistema operacional dos computadores a Apple poderia ter feito isso há bastante tempo. Mas levar “por levar” não fazia sentido; era preciso adaptar a assistente para que ela pudesse realizar tarefas genuinamente ligadas a computadores, como por exemplo buscar um determinado arquivo no seu HDD1 ou SSD2.

macOS Sierra com resultados de busca da Siri num MacBook

E por que no Mac ela não desperta com um simples comando de voz, como nos iGadgets? Segundo o executivo da Apple, isso tem a ver com o sistema eletrônico dos Macs e suas capacidades de baixa potência. Para economizar bateria/energia, por exemplo, os Macs “dormem” depois de um período sem uso. Aí, você está lá do outro lado da sala e fala “E ai Siri”; como o Mac está dormindo, você precisa despertá-lo para que a Siri consiga escutar o seu chamado, então você precisa ir até o Mac e acordá-lo. Se você tem que fazer isso, qual é o ponto de ter essa capacidade se ela não funcionará a contento?

É preciso, então, repensar a forma como os computadores funcionam para que esse tipo de recurso funcione em sua plenitude, de forma que os Macs estejam sempre em um estado de prontidão. Isso, ao menos hoje, não é a realidade.

Reação dos usuários e do mercado aos novos MacBooks Pro

Schiller não é maluco e está, como todos na Apple, acompanhando a reação dos usuários e do mercado como um todo ao anúncio dos novos MBPs. Como sempre, algumas coisas são muito elogiadas e outras geram bastante controvérsia — quando estamos falando de Apple, essa é uma constante. Mas o chefão de marketing gostaria muito de ver todos tendo a oportunidade de testar as máquinas (ao menos quem mora no Rio de Janeiro ou em São Paulo poderá, quando elas estiverem expostas nas lojas da Maçã) e “ver por conta própria como o [novo] MacBook Pro é ótimo”.

Eu nunca vi um ótimo produto novo da Apple que não teve a sua cota de crítica e debate inicial — e isso é legal. Nós damos passos arriscados, ousados e, claro, cada passo à frente envolve também alguma mudança para lidar com isso. Nossos clientes são tão apaixonados que é incrível.

Nós nos preocupamos com o que eles amam e com o que estão preocupados. E é nosso trabalho ajudar as pessoas com essas mudanças. Sabemos que tomamos boas decisões sobre o que colocar no novo MacBook Pro e que o resultado é o melhor notebook já feito, mas ele pode não ser certo para todos agora. Isso é OK, algumas pessoas se sentiram dessa maneira com o primeiro iMac e isso no fim acabou dando muito certo.

Apesar das polêmicas, Schiller afirmou que o novo MBP é o modelo “Pro” mais vendido entre todos já lançados pela Apple (comparando, obviamente, compras online no período de lançamento).

Meus dois pitacos

Schiller não deixa de estar certo em muitas das suas respostas e justificativas, principalmente quando diz que o MBP é uma ótima máquina mas que não é obrigatoriamente a escolha perfeita para muita gente agora. Um belo exemplo disso são as quatro (ou duas, dependendo do modelo) portas Thunderbolt 3. Elas são poderosíssimas e completamente versáteis. Mas, hoje, eu duvido que você consiga utilizá-las sem pendurar um monte de adaptadores (o que é terrível). Olhando para o futuro, porém (daqui a uns 2-3 anos), sem dúvida nenhuma esse será um ótimo notebook (conceitualmente falando).

Eu entendo o passo que a Apple quis dar e acho muito válido. Nós, usuários, clamamos por novidades, inovações, revoluções… mas na hora que a empresa arrisca, reclamamos. Alguém aqui imagina um notebook da espessura e do tamanho desses MBPs com portas USB-A, HDMI, slot para cartões SD, MagSafe e quatro portas Thunderbolt 3? Dificilmente vemos outra empresa arriscando assim, apostando no futuro como a Apple faz, e isso é digno de aplausos — ainda que eu ache que ela poderia ter colocado seis portas Thunderbolt 3 (levando em consideração que em uma delas teremos o adaptador de energia conectado, a oferta de cinco portas seria igual à do MacBook Pro de 2015 com o benefício da versatilidade da nova tecnologia).

A minha crítica (e eu a critiquei bastante no MacMagazine no Ar #204) é direcionada à forma como a Apple lida com transições. Como disse, estamos falando de um conceito de máquina muito legal para daqui a 2-3 anos, quando o mercado já estará mais preparado para as conectividades USB-C e Thunderbolt 3. Enquanto isso, a empresa tinha que pensar na experiência dos clientes e resolver, de alguma forma, as incompatibilidades entre seus próprios produtos de uma forma menos honrosa do que nos forçar a comprar vários adaptadores.

Um exemplo bem prático — e apenas um, para não estendermos a discussão — seria colocar um cabo USB-A/Lightning e outro USB-C/Lightning na caixa dos iPhones, iPads e iPods mais recentes, afinal, é inadmissível que produtos de uma mesma empresa, lançados em 2016, não sejam compatíveis uns com os outros.

Para terminar, aqui vai a minha crítica a esta fala de Schiller:

[O novo MacBook Pro] é realmente um grande passo à frente e um exemplo de quanto nós continuamos investindo no Mac. Nós amamos o Mac e estamos tão comprometidos com ele, tanto com os desktops quanto os notebooks, como sempre estivemos.

Eu gostaria muito, mas muito mesmo de acreditar nisso. Mas depois de estar há mais de 380 dias sem atualizar os iMacs, há mais de 740 dias sem atualizar os Macs mini, há mais de 1.050 dias sem atualizar os Macs Pro, de realizar um evento para falar de novidades no mundo Mac e nem tocar no nome desses computadores, fica complicado de engolir…

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