Os Macs já não são mais o centro das atenções da Apple; entenda como e por que isso aconteceu

Família de Macs

Hoje mesmo, durante a madrugada, publicamos um artigo sobre a situação dos Macs. Nele, abordamos a afirmação de Tim Cook de que os computadores continuam firme e forte nos planos da Apple e que novos desktops virão por aí. Toda essa polêmica em torno dos Macs (do abandono ou não deles) aflorou por um detalhe simples, criado pela própria empresa: a falta de atualização de praticamente todos os modelos, com exceção do MacBook e do MacBook Pro (este, aliás, ganhou novidades após um longo período de abstinência).

Mac Pro de frente e cimaMas nada se compara ao Mac Pro, que já está há mais de 1.000 dias sem receber um upgrade — o Mac mini já está há mais de 790 dias, enquanto o iMac está há pouco mais de 430 dias. Resumindo a história: não foram rumores ou algum jornalista que escutou de uma fonte… não. A própria Apple gerou essa situação de incerteza e agora precisa mostrar que o Mac ainda faz parte dos seus planos. Isto, é claro, levando em consideração a declaração de Cook.

Macs renegados

Todavia, Mark Gurman (ex-9to5Mac, agora editor da Bloomberg e que tem ótimas fontes dentro da Maçã) disse ter conversado com pessoas familiarizadas com o funcionamento interno da Apple e que o Mac está recebendo muito menos atenção do que no passado. Segundo essas pessoas, a equipe dedicada à linha Mac perdeu força tanto com o famoso grupo de design industrial liderado por Jony Ive como com a equipe de softwares da empresa. Eles também descrevem uma clara falta de direção dos líderes da companhia, partidas de pessoas-chave que trabalhavam com hardware de computadores e alguns desafios técnicos que atrasaram a chegada de novos modelos.

Jony Ive

Gurman cita ainda o fato de que a Apple não pode se dar ao luxo de perder usuários de Macs (ainda que hoje os computadores representem menos de 10% do faturamento da empresa), já que isso abrirá caminho para uma possível migração de outros dispositvos (como trocar o iPhone por algum Android) —, da falta de visão do que os profissionais (principalmente ligados a criação) querem fazer com uma máquina, das ofertas muito mais apetitosas que a concorrência finalmente está conseguindo oferecer, entre outras coisas.

Ele conta que, no auge do Mac, as pessoas que trabalham em novos modelos recebiam muita atenção da equipe de Ive. Uma vez por semana os designers da Apple se reuniam com os engenheiros de Macs para discutir projetos em andamento. Os engenheiros levavam protótipos para o estúdio de Ive, enquanto seus fiéis escudeiros visitavam os laboratórios de Macs para analisar os primeiros conceitos. Essas visitas tornaram-se menos frequentes desde que a empresa começou a se concentrar em outros produtos, e a mudança se tornou ainda mais visível após as mudanças na equipe de design.

Outro exemplo do poder do iPhone dentro da empresa: a Apple reorganizou o seu departamento de engenharia de software para que não haja mais uma equipe dedicada para o sistema operacional do Mac. Agora há apenas uma equipe e a maioria dos engenheiros é focada no iOS, em primeiro lugar.

Problemas…

Um exemplo de problemas/desafios que a Apple enfrentou citado por Gurman envolve justamente os novos MacBooks Pro, segundo uma pessoa por dentro do assunto.

Desmonte do iFixit do novo MacBook Pro de 13" com Touch Bar

Os engenheiros da Apple queriam usar baterias de maior capacidade que se moldavam ao interior da máquina em vez de células quadradas padrões encontradas na maioria dos netbooks. O projeto teria impulsionado a autonomia, mas a nova bateria falhou em um teste-chave. Em vez de atrasar o lançamento e colocar em risco as vendas de fim de ano, a Apple decidiu reverter tudo para um projeto mais antigo. A mudança exigiu “pegar emprestados” engenheiros de outras equipes para terminar o trabalho. Além de não ter avançado no desempenho, um erro no software que estimava o tempo restante da bateria fez com que a Apple simplesmente retirasse o recurso do macOS Sierra 10.12.2.

Nos últimos anos, os gerentes da Apple também mudaram a forma como se trabalhavam os conceitos de produtos. No passado, tudo era bastante focado em uma única visão enquanto que, agora, engenheiros devem trabalhar em mais de um conceito por vez para que ao menos uma opção possa ser considerada viável comercialmente.

Quando a empresa estava desenvolvendo o primeiro MacBook de 12 polegadas, ela testou dois protótipos. Um era mais leve; o outro, menos ambicioso, era mais pesado. O modelo mais leve prevaleceu, mas por conta do desenvolvimento de dois conceitos concorrentes, os engenheiros tiveram menos tempo para descobrir como enfiar toda a parte eletrônica em uma fina camada de alumínio. No fim, a Apple lançou o notebook em 2015, meses depois da meta (que era em 2014).

A obsessão da Apple em criar iPhones e iPads mais finos e com menos entradas foi transportada aos Macs, algo inversamente proporcional à ideia de criar máquinas mais profissionais, com mais opções e poder.

Para uma atualização do MacBook de 2016, alguns engenheiros queriam adicionar um Touch ID e uma segunda porta USB-C (o que seria ótimo!). Bem, essas novidades não vieram e só fomos contemplados com a chegada da cor ouro rosa e um aumento padrão de velocidade (processador).

Por conta dos problemas na produção do Mac Pro em solo americano (não agora, mas lá no começo, que envolveram até mesmo criar máquinas e treinar as pessoas para utilizá-las), alguns engenheiros da Apple pensaram seriamente em levar a produção da máquina para a Ásia, onde a mão de obra é mais qualificada para esse tipo de serviço. Hoje, como sabemos, isso geraria bastante polêmica pois o novo presidente dos EUA fala até mesmo em tirar a produção de iPhones da China.

Curiosidades

Sobre a brincadeira de prototipar e testar bastante antes de lançar, Gurman disse que a Apple chegou a criar um MacBook com conector Lightning (que felizmente não vingou e foi substituído por uma porta USB-C). A empresa também pensou em oferecer MacBooks Pro dourados, mas chegou a conclusão de que a cor não casou bem com um produto de estrutura grande como o MBP.

O que vem por aí?

Gurman deixou claro em seu artigo que os designers da Apple estão testando colocar a Touch Bar (com direto ao Touch ID, é claro) no Magic Keyboard para que usuários de Macs desktop possam ter acesso aos novos recursos do MacBook Pro. A ideia, porém, ainda está em fase de testes e não se sabe se irá mesmo ser implementada.

Conceito de Magic Keyboard com Touch Bar
Conceito de Magic Keyboard com Touch Bar

Quem estava esperando um redesign das máquinas de mesa em 2017 pode tirar o cavalinho da chuva. Segundo Gurman, veremos “apenas” atualizações de conectores (sai USB-A; entra USB-C/Thunderbolt 3), de GPUs e de processadores.

Minha opinião

É claro que Gurman está correto ao fazer tais afirmações; por outro lado, não há como negar que a Apple também está correta ao não dar a mesma atenção que dava antes aos Macs. O mundo mudou, ora. Se na década de 1990 a Apple era 100% dedicada ao Mac, na de 2000 os iPods chegaram para dividir essa atenção e, no fim dela, o iPhone surgiu para se tornar o centro das atenções na companhia. Depois ainda vieram o iPad, a Apple TV, o Apple Watch — e, quem sabe futuramente, um “Apple Car”.

A Apple se pluralizou, entrou em mercados que qualquer usuário na década de 1990 jamais imaginaria. Computadores ainda têm bastante relevância, mas é inegável que a tendência é que eles sejam cada vez menos necessários para um número crescente de pessoas. Seria estupidez/burrice da Apple oferecer uma atenção demasiada aos Macs e deixar outros produtos — que se posicionam de forma muito mais interessante no futuro — “de lado”.

Não é fácil assumir isso. Eu não me vejo — ao menos não no curto-médio prazo — substituindo o Mac por nenhum dispositivo. Para mim é simplesmente impossível trocar o Mac por um iPad, por exemplo, para trabalhar. Eu passo mais de dez horas por dia em frente a um Mac e teria que mudar totalmente o meu modus operandi caso a Apple mate a linha de uma hora para outra. Ora, o mercado de MP3 players já morreu há um bom tempo e a Apple ainda vende iPods; por que tem gente que acha que os Macs vão sumir de uma hora para outra?

Só que isso não vai acontecer tão cedo. Poderemos, sim, ver alguns produtos sendo descontinuados (como o MacBook Air, que está dando lugar aos novos MacBooks/MacBooks Pro). Quem sabe a Apple consiga criar um iMac tão poderoso a ponto de não ser necessário mais oferecer o Mac Pro (que atende a um nicho bem específico). O que eu quero dizer é que mudanças na linha acontecerão, mas que o Mac ainda tem uma vida longa pela frente simplesmente porque ainda há demanda.

Cook está certo quando afirma que os Macs ainda são importantes para a empresa e que os modelos desktop são estratégicos para a Maçã; Gurman também está certo quando afirma que a Apple não dá mais a atenção aos Macs como dava antes. Uma coisa não exclui a outra.

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