A Apple fez um seminário interno para evitar vazamentos de produtos… e ele vazou!

Há cerca de uma década, toda keynote da Apple era um evento cercado de surpresas. Ninguém (quase) nunca sabia o que aconteceria ali, e o mundo se perguntava qual era o segredo da Maçã para expandir-se cada vez mais rapidamente e, ainda assim, manter seus projetos e futuros lançamentos sob segredo absoluto.

Hoje nós sabemos muito bem que a resposta é, basicamente, não dá. Em algum ponto após o lançamento do primeiro iPhone, a subida meteórica da Apple até o topo do mundo e a consequente expansão das suas operações globais, a maioria dos projetos da empresa passou a vazar como água numa peneira muito antes de verem a luz do dia — e se o esquecimento do protótipo de um iPhone 4 num bar era mais que suficiente para escandalizar o mundo inteiro em 2010, hoje tratamos os inúmeros vazamentos de carcaças, peças e desenhos esquemáticos de futuros aparelhos da Maçã com tanta naturalidade que até escolhemos cobrir só os mais importantes deles aqui no MacMagazine; caso contrário, nossa pauta diária consistiria somente disso.

Nem por isso, entretanto, a Apple está conformada com o atual status quo das coisas: a empresa realizou um seminário interno, destinado exclusivamente a seus empregados, para orientá-los sobre as melhores formas de evitar futuros vazamentos e reforçar a importância de manter os projetos da empresa sob segredo absoluto; a apresentação conta ainda com alguns detalhes deveras interessantes sobre o padrão destes vazamentos e os esforços hercúleos da Maçã para evitar que eles aconteçam.

E, como os deuses da ironia nunca deixariam de permitir, esta apresentação super-secreta sobre prevenção de vazamentos… vazou!

Steve Jobs apresentando o iPhone, em 2007

O seminário de cerca de uma hora, cuja gravação foi obtida pelo The Outline, intitula-se “Stopping Leakers — Keeping Confidential at Apple” (“Coibindo os Vazadores – Mantendo a Confidencialidade na Apple”) e foi liderado por três nomes deveras importantes na Apple: o diretor de segurança global David Rice, o diretor de investigações globais Lee Freedman e a gerente de treinamento da equipe de segurança global Jenny Hubbert. Esse é um departamento que trabalha com o único objetivo de evitar vazamentos e descobrir os responsáveis pelos que porventura aconteçam; ele é composto majoritariamente por pessoas com passagens pela NSA, pelo FBI, pelo Serviço Secreto ou pelas Forças Armadas — ou seja, não, não estamos lidando com amadores.

Na apresentação, um aspecto chama a atenção de todos nós que acreditamos que a grande responsável pelos “spoilers” seria a cadeia de fornecimento e montagem dos produtos da Apple na Ásia. Segundo a Maçã, hoje, mais vazamentos saem do seu campus em Cupertino do que das fábricas das suas parceiras no outro lado do mundo — aparentemente, a empresa fez um trabalho extensivo (e de sucesso) para evitar as exposições indevidas nas montadoras asiáticas e, agora, deve voltar-se para as falhas de sigilo dentro do seu próprio território.

Uma parte do seminário mostra vídeos de Tim Cook apresentando diversos produtos em keynotes dos últimos anos; em seguida, os diretores reforçam a necessidade de manter o sigilo sobre estes produtos até o último momento. Como descreve o The Outline:

Depois do fim do primeiro vídeo, Hubbert se dirige ao auditório. “Então vocês ouviram Tim dizer, ‘nós temos mais uma coisa’. Mas o que é aquela coisa?”, ela pergunta. “Surpresa e deleite. Surpresa e deleite quando nós anunciamos um produto para o mundo que não vazou. É incrivelmente impactante, em uma forma realmente positiva. É o nosso DNA. É a nossa marca. Mas quando os projetos vazam, isso é ainda mais impactante. É um golpe direto em todos nós.

A partir daí, a apresentação toma, segundo a descrição, um tom severo — pessoalmente, diria até meio ameaçador. Vídeos de empregados da empresa afirmando que “vazamentos me deixam doente” e que “quando alguém deixa escapar alguma coisa, ele está traindo todo o resto da empresa” servem para reforçar o ponto principal do seminário: se você trabalha na Apple, fique de bico calado — ao menos no que se refere aos projetos da empresa.

Cava 22: bar onde o protótipo do iPhone 4 foi perdido
Bar onde o protótipo do iPhone 4 foi perdido

Ou seja, não se trata apenas de indivíduos de má intenção agindo por lucro — quanto a estes, a Apple afirma como exemplo que uma investigação para pegar um vazador que estava vendendo informações sigilosas levou mais de três anos; no ano anterior, dois malfeitores, um da loja online da Apple e outro do iTunes, foram pegos no pulo. Mas a principal intenção da Maçã é instruir seus empregados honestos a não meterem os pés pelas mãos e deixarem escapar informações importantes casualmente.

Os próprios oradores afirmam que é por isso que muitos, quando contratados, deletam imediatamente as suas contas no Twitter — o que é basicamente uma forma educada de dizer, “nós não podemos lhe obrigar a apagar o seu Twitter, mas ai de você se não fizer isso e deixar escapar alguma coisa”. Além disso, o conteúdo do seminário instrui os empregados a nunca discutirem assuntos confidenciais nas áreas mais “abertas” do campus e não comentarem aspectos particulares do dia-a-dia na Apple com a família e os amigos.

Rice esclarece que o mito interno de que qualquer coisa que não esteja no site da Apple é confidencial não é verdadeiro. Empregados são livres para compartilhar algumas coisas com colegas e pessoas de fora [da Apple], como “o quão idiota é o seu chefe” ou seu salário, e também têm total liberdade para falar com agentes da lei “caso a empresa esteja fazendo algo ilegal”. A linha dura, ele diz, refere-se somente aos produtos e serviços não-lançados, bem como à disponibilidade deles, que a Apple espera que seus empregados não comuniquem a ninguém que não esteja autorizado.

Aparentemente, o seminário é apenas o primeiro de uma série de eventos que a Apple realizará no seu campus nos próximos meses para reforçar a cultura de sigilo que outrora já foi a assinatura da empresa. Certamente é tarde para evitar vazamentos acerca do muitíssimo aguardado “iPhone 8/X/Edition/Pro”, mas veremos se a iniciativa da empresa terá algum resultado nos próximos anos. O que vocês acham?

via MacRumors

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