Dois meses de um brasileiro usando produtos/serviços Apple nos Estados Unidos

Sei que não posso generalizar o que vou dizer agora, mas nós, brasileiros, temos uma certa mania de achar que no Brasil 🇧🇷 as coisas não funcionam bem e que os Estados Unidos 🇺🇸 estão anos luz à nossa frente para várias coisas.

Isso vai depender muito do que você busca como qualidade. Há muitas coisas que realmente eles fazem melhor (obviamente, do meu ponto de vista), mas tem algumas que estão muito atrasadas. Falando de uma outra maneira, o que pode parecer bom pra eles pode ser antigo para nós, como por exemplo o sistema bancário. Por isso, resolvi escrever este artigo, focando no que diz respeito à minha experiência usando “coisas” relacionadas ao mundo Apple por estar há dois meses aqui nos EUA, meio que vivendo a vida de um americano.

Para contextualizar a conversa, estou em um treinamento em Jacksonville. Embora fique na Flórida e a apenas duas horas de Orlando, praticamente não vejo brasileiros por aqui como na terra do Mickey ou em Miami; é uma cidade bem calma (salve os tornados no final da tarde), então posso dizer que trata-se mesmo de uma vida tipicamente americana.

Atendimento em lojas

Aqui, como em São Paulo e no Rio de Janeiro, só há uma loja da Apple próxima (coincidentemente, ela fica colada com uma Tesla), bem bonitinha. Há outras na região, mas elas ficam em cidades não tão próximas. Cheguei aqui e precisei de atendimento para os meus AirPods e mais algumas vezes depois para meu Watch e o iPhone de um amigo que passou por aqui.

Apple St. Johns Town Center em Jacksonville
Apple St. Johns Town Center

Levando em consideração que só há uma loja, todas as vezes consegui atendimento para o mesmo dia sem ter agendamento e sem ter que esperar mais do que uma hora para isso — bastou ir lá por volta do final do dia.

Nesse quesito, aqui está sem dúvida melhor que em São Paulo ou no Rio. Em qualquer uma das duas lojas brasileiras, para você conseguir um agendamento é um parto ou você tem que madrugar na fila. Mas calma. Antes de comemorar, como sempre depende *muito* de quem lhe atender; há anos observo que ainda falta padronização no atendimento da Apple. Arrisco inclusive a dizer que os atendentes do Brasil estão mais bem capacitados e têm mais boa vontade para resolver os problemas dos clientes, mesmo chegando um monte de gente lá cheio de desculpas esfarrapadas e tentativas de “dar um jeitinho” para ganhar um produto novo ou ter o seu problema resolvido muito rapidamente.

Outro exemplo disso: comprei o teclado preto da Apple em Londres e, quando cheguei em casa, notei que algumas teclas ficam em lugares diferentes. Quando liguei para a Apple Brasil, falaram que não conseguiriam trocar mas que talvez conseguisse fazer isso nos EUA. Com isso, trouxe o teclado comigo; o primeiro atendente e o gerente falaram que era impossível trocar, mas depois de 30 minutos tentei novamente com outra pessoa, que perguntou: “Poxa, o senhor ficou insatisfeito por ter pego um teclado diferente do que queria?” Ao confirmar que sim, em menos de 5 minutos ele trocou para mim pelo modelo americano. Tem que saber lidar com a Apple.

Mas veja como nem tudo são flores: ao tentar trocar o meu Apple Watch, descobri que agora nos EUA não há mais estoque em loja para troca. Eles enviam a unidade para um centro de reparos e lhe devolvem em até seis dias úteis. No Brasil, quando tem no estoque, eles já trocam na hora.

Então, em termos de disponibilidade para atendimento nos EUA está melhor, mas para a qualidade do atendimento em si, arrisco dizer que no Brasil é superior — os atendentes são muito mais atenciosos (mesmo quando não podem ajudar por certas limitações impostas pela Apple em si).

Mapas

“Uhull! Nos EUA deve funcionar superbem, né? Só no Brasil que não funciona, certo?”

Mapas da Apple

Mesmo tendo navegação ponto a ponto, não é bem assim. Talvez os Mapas da Apple estejam funcionando bem em grandes cidades como Nova York, San Francisco e Chicago, mas aqui para estes lados o ritmo de atualização dos mapas é bem lento. O aplicativo me fez dar voltas maiores várias vezes por não conhecer algumas ruas, enquanto que no Google Maps isso não acontece com a mesma frequência (não vi acontecer, na verdade). Aliás, isso me fez perder muito as esperanças de ver algo funcionando bem no Brasil tão cedo.

Gosto de usar o Apple Maps aqui só pela integração com Watch, pois assim tenho feedbacks no pulso de forma mais inteligente quando tenho que virar à direita ou à esquerda e não preciso ficar olhando pro celular, mas algumas vezes tive que ir confirmar no “app do vizinho” pra ter certeza de que estava na melhor rota.

O que está melhorando, sim, nos mapas da Apple é a indicação de pontos com trânsito. Não é tão bom quanto a do Google, mas está muito melhor que no ano passado — claramente andaram mexendo em algumas coisas.

Minha conclusão sobre este tópico é que ainda está muito ruim!

Apple Pay

“Nooossa, aí sim deve funcionar muito melhor né, já tem há anos! Não tem como ser ruim, certo?”

Errado!

Apple Pay com Visa

Acreditem se quiser, é muito mais difícil usar o Apple Pay nos EUA do que no Brasil. Aqui existe o que eles chamam de “caminho de pagamento” que os estabelecimentos escolhem para trabalhar; isso para poder brigar por taxas e não ter que pagar para Apple ou outro intermediador. Grandes marcas tipo Walmart, por exemplo, têm o seu próprio sistema de pagamento — fora os tracionais cartões físicos e dinheiro. Então, se você tentar usar o Apple Pay no Walmart, não vai conseguir.

Outros lugares como restaurantes não têm maquininhas sem fio à disposição como temos no Brasil, para levar na mesa. Aqui ainda é no esquema antigo: eles pegam seu cartão e levam até o caixa para poder cobrar a conta e mesmo muitas dessas máquinas do caixa não dispõem de NFC1 para que paguemos usando o Apple Pay.

Neste ponto, a minha experiência no Brasil é muito mais positiva. Estamos apenas passando por uma fase de adaptação para que todos aprendam a usar o sistema, mas eu mesmo já até me acostumei a ensinar os atendentes a usar as máquinas algumas vezes.

Posso comparar com a experiência que tive em Londres, há poucos meses. Lá eles basicamente já passaram por essa curva de aprendizado, então quando você tira o celular do bolso normalmente já sabem que irá pagar com cartão virtual. É só uma questão de tempo, tenham paciência. 😉

Outros

Se você sabe um pouco de inglês para conversar com a Siri e só precisa de informações aqui dos EUA, sem dúvida ela é muito melhor que no Brasil, tanto para os resultados que traz, como pela forma com que responde — a fala é mais fluida e não tão “robotizada” como nossa Siri tupiniquim.

Para os demais recursos pagos (como iCloud, Apple Music, etc.), você precisa ignorar o fator conversão do dólar para real — afinal, quem mora aqui recebe em dólar —, então vemos que realmente pagamos caro nas coisas. Temos que levar em conta só o número, pois proporcionalmente é a mesma conta que se faz aqui. Pensar em US$1,99 para eles é tal como se nós pensássemos em R$1,99 — lógico que para Apple essa conta não fecha, pois ela precisa receber o dinheiro convertido e levaria um grande prejuízo, mas isso é “culpa” do valor fraco da nossa moeda. Neste ponto os americanos estão na frente, pagam “menos” e tem melhores títulos disponíveis ou pagam “menos” e recebem o mesmo serviço.

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O que acham disso tudo que comentei? Fiquem tranquilos que este que vos escreve não virou um alienado que vai começar a falar mal do Brasil ao ver como muitas coisas aqui funcionam; eu tento é replicar o que acho correto no meu dia a dia no Brasil, pois sou um otimista e acho que as coisas sempre têm jeito. 😊

E você, focado no tema Apple Brasil e EUA (ou outro lugar fora), o que acha? Tinha essa visão do que funciona ou não por aqui?

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