Apple limitará coleta de dados em apps infantis; desenvolvedores pedem novas APIs

Parece que os astros escolheram o mês de maio para colocar a Apple numa posição desconfortável em relação à sua própria defesa sem concessões da privacidade do usuário: já tivemos processos de clientes afirmando que a empresa vende dados do iTunes, descobertas de jogos que compartilham dados que nem seus desenvolvedores sabem que existem e recursos do iOS sendo aproveitados por aplicativos para capturar informações dos consumidores.

Agora, o Wall Street Journal publicou uma reportagem que, mais uma vez, trata do problema crescente de aplicativos da App Store os quais compartilham dados dos usuários sem que os próprios usuários saibam disso. Joanna Stern e Mark Secada testaram 80 aplicativos da loja — quase todos destacados na seção “Apps que Amamos” — e descobriram que todos, exceto um, usam trackers (ferramentas de terceiros para capturar dados do usuário e, com isso, direcionar publicidade a ele).

Um dos apps investigados pela dupla é direcionado a crianças: trata-se do Curious World, que, como descoberto pela reportagem, coleta informações como nome e idade do pequeno usuário, bem como os livros selecionados por ele — enviando todas essas informações para o Facebook. Em nenhum momento os desenvolvedores evidenciam a coleta e envio desses dados.

A reportagem, então, entrou em contato com fontes dentro da própria Apple, que garantiram o prospecto de uma mudança: segundo elas, a Maçã implementará novos controles de privacidade para aplicativos e reduzirá o rastreamento e coleta de dados em apps infantis. Algumas dessas novidades poderão ser anunciadas já na apresentação de abertura da WWDC19.

A ideia é boa, mas talvez tão ou mais importante do que limitar a captura de dados seja implementar uma política de tolerância zero com apps que não revelam quais tipos de dados estão coletando e com quem os estão compartilhando. Se nós estamos na internet, afinal de contas, é porque sabemos mais ou menos como a coisa funciona — esse negócio de navegação totalmente anônima é basicamente uma utopia. Pelo menos, então, que nós saibamos para onde nossas informações estão indo.

Desenvolvedores pedem novas APIs

Enquanto isso, uma outra polêmica se desenvolve paralelamente: 17 desenvolvedores responsáveis por apps de controle infantil, como o FamilyTime e o OurPact, estão pressionando a Apple para que a empresa crie novas APIs1 relacionadas ao recurso Tempo de Uso, ferramenta nativa do iOS que permite a pais e responsáveis limitar e monitorar o uso de iGadgets dos pequenos.

Tempo de Uso no iOS 12

Segundo os desenvolvedores, desde a introdução do recurso, no iOS 12, a Apple tem deliberadamente atrapalhado o funcionamento dos aplicativos de terceiros, seja proibindo funções deles ou mesmo removendo-os completamente da App Store. Um levantamento feito no último mês pelo New York Times revelou que a Maçã “restringiu ou removeu” 11 dos 17 apps de controle infantil mais populares da loja.

A justificativa da Maçã para tal acontecimento foi que ele fazia parte de uma iniciativa maior da empresa de desabilitar aplicativos que abusassem dos certificados empresariais dos desenvolvedores, assunto do qual já tratamos extensamente por aqui. Os desenvolvedores, entretanto, não ficaram satisfeitos, afirmando que muitos deles sequer utilizam esses certificados para garantir o funcionamento dos seus apps.

Entra em cena Tony Fadell, antigo nome forte da Apple e considerado o “pai do iPod”. Tomando o lado dos desenvolvedores, Fadell sugeriu que a Apple criasse novas APIs relacionadas ao recurso Tempo de Uso que pudessem ser utilizadas pelos apps de terceiros — o que, em teoria, possibilitaria que os usuários voltassem a usar as soluções third-party e que os apps voltassem a funcionar plenamente, mas com recursos subordinados à própria estrutura do iOS.

Os desenvolvedores, animados com a ideia, colocaram no ar um site pedindo que a Apple siga a sugestão de Fadell, detalhando uma proposta de como essas APIs funcionariam — a Maçã nem precisaria ter trabalho desenvolvendo uma ideia, já que os próprios desenvolvedores já pensaram em tudo.

Eles afirmam que a mudança seria benéfica para todos: pais, que teriam uma ampla gama de produtos de controle infantil para escolher; crianças, que teriam acesso a aplicativos seguros e efetivos; a própria Apple, a qual asseguraria que os apps estariam de acordo com seus padrões de segurança; e, por fim, os desenvolvedores, que teriam as ferramentas necessárias para continuar desenvolvendo seus produtos e lucrando com eles.

Por enquanto, a Apple não se pronunciou sobre o assunto — fica a expectativa para que a empresa dê algum sinal em relação a isso na WWDC19, seja na conferência de abertura ou em alguma das sessões para desenvolvedores.

via 9to5Mac

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