Apple e Google (ainda) distribuem apps de empresas que violam Direitos Humanos na China

Mulher usando um iPhone na China

A polêmica da Apple com o aplicativo HKmap.live ainda nem esfriou e cá está a Maçã com mais uma polêmica do outro lado do mundo — só que, desta vez, acompanhada de duas das suas principais concorrentes.

O BuzzFeed News publicou uma reportagem citando três empresas chinesas (Hikvision, Dahua Technology e iFlytek) que foram incluídas recentemente numa lista do Departamento de Comércio dos Estados Unidos e proibidas de realizar exportações para o país. Segundo o governo americano, as empresas colaboram para a construção de ferramentas de espionagem e detenção de muçulmanos da etnia Uigure, seguindo a polêmica já tratada por nós nesse artigo.

Amazon, Google e Apple, entretanto, parecem ignorar as orientações: enquanto a primeira continua a vender produtos das empresas banidas, as outras duas continuam distribuindo aplicativos criados pelas companhias chinesas em questão no Google Play e na App Store, respectivamente. O eBay também mantém produtos das empresas chinesas à venda por meio dos seus parceiros e vendedores terceirizados.

No caso da Apple e do Google, foram encontrados mais de 100 aplicativos da Hikvision, da Dahua e da iFlytek disponíveis nas lojas de aplicativos das duas gigantes. As instâncias das empresas demonstram que a lealdade delas está, no fim das contas, com o governo chinês: enquanto aplicativos dissidentes são rapidamente removidos das suas lojas (basta ver o caso do HKmap.live), apps de empresas que colaboram com a vigilância de Pequim são mantidos intactos naqueles espaços.

Obviamente, Apple e Google precisam caminhar numa corda bamba. No caso citado aqui, as empresas estão basicamente ignorando uma orientação do governo americano — e as duas (assim como qualquer companhia) precisam manter algum grau de boa relação com Trump e sua turma se quiserem evitar sanções ou outras punições da Casa Branca. Basta notar que, mesmo com todos os protestos do governo chinês, o Google cortou relações com a Huawei e tirou os seus serviços dos smartphones da empresa.

Vale notar, também, que os apps das empresas chinesas supracitadas não violam as diretrizes da App Store ou do Google Play. A maioria deles tem funcionamento relacionado ao controle de câmeras de segurança ou reconhecimento/tradução de fala, e, numa investigação preliminar, não apresentam quaisquer brechas de segurança ou indícios de espionagem — o problema do governo americano é com as criadoras dos aplicativos, e não com os apps em si. A Hikvision e a Dahua, combinadas, têm mais de US$1 bilhão em contratos com o governo chinês.

A Apple, em resposta à reportagem, afirmou que não infringe quaisquer leis americanas ao distribuir os apps na sua loja e que está atenta aos desdobramentos da decisão do Departamento de Comércio; a empresa disse também que a Hikvision, a Dahua e a iFlytek vendem seus produtos em várias partes do mundo e que muitos dos aplicativos distribuídos na App Store são usados pelos consumidores para administrar e expandir o uso desses produtos.

Resta saber como essas questões serão tratadas ao longo dos próximos meses — vai ser interessante ver para qual lado a lealdade das empresas pesará mais.

imagem: YongHeng Lim / Shutterstock.com

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